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Com pós-doutorado e sem emprego, biólogo faz bico de modelo nu para sobreviver

(Arquivo pessoal/Reprodução)

Em um mercado cada vez mais concorrido, nem mesmo a formação acadêmica é garantia de sucesso na carreira. É o caso do biólogo Rodrigo Fernando Moro Rios, de 32 anos, graduado em ciências biológicas, mestre e doutor em zoologia pela Universidade Federal do Paraná e pós-doutor na Universidade Durham, na Inglaterra.

Depois de anos fora do Brasil, o profissional não conseguiu um emprego em sua área, mesmo com um extenso currículo. “Não tinha mais nenhum real na conta”, revela, em entrevista à BBC. Para conseguri se manter, ele tem que aceitar bicos em setores que não lembram – nem de longe – o de sua formação.

“Sou forçado a uma série de atividades, de barman a professor de surfe, para muitas vezes conseguir menos que o equivalente a um salário mínimo por mês”, conta o biólogo.

Doze anos de formação

Ao todo, Rios estudou por doze anos, emendando graduações e especializações, iniciações científicas e outros projetos. Ele ainda realizou trabalhos técnicos e estudos sobre impactos ambientais enquanto estudava. Recentemente, ele chegou a pedir 12 meses de prorrogação de seu estágio remunerado, mas recebeu a permissão para apenas seis meses.

Voltando ao Brasil e cumprindo exigências de agências do país, ele tentou bolsas no programa Jovens Talentos, para pesquisadores do Ciências Sem Fronteiras. A ideia era desempenhar atividades na Universidade Federal de Santa Catarina, mas o programa foi cancelado. “Estava tudo certo, mas a bolsa deixou de existir”, conta.

Outros empregos

O jovem continua atuando como cientista e oferece palestras, mas não é remunerado por isso. Para sobreviver, o biólogo teve que recorrer aos trabalhos temporários.

“Já fiz, ou busco fazer, um pouco de tudo desde que defendi minha tese, fora lecionar, publicar e orientar. Fui figurante de cinema, graças a um colega meu, também doutor em zoologia, que virou câmera. Outro colega, que trabalha com marketing digital, está fazendo curso de pintura. Precisa de modelo? Topo. Afinal, mesmo doutores, às vezes a gente não ganha R$ 100 por quatro horas”, explica.

A falta de emprego mesmo com uma ótima formação incomoda o jovem. “É uma subutilização de tanto investimento, tanto dinheiro público, tanto tempo e dedicação para se formar um cientista que vai para outra atividade porque não tem inserção no mercado. É horrível pensar que todo esse investimento não serviu para nada”, opina.