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Com o maior número de candidatos em 28 anos, leque de concorrentes para a prefeitura de Niterói se abre à direita

Giovanni Mourão
·3 minutos de leitura
Prédio da prefeitura, no Centro: eleição terá o maior número de candidatos em 28 anos
Prédio da prefeitura, no Centro: eleição terá o maior número de candidatos em 28 anos

NITERÓI — Com sete candidatos na disputa pela prefeitura, Niterói terá o maior número de postulantes ao cargo em 28 anos: desde 1992, quando João Sampaio (PDT) foi eleito concorrendo com outros oito nomes, não são oferecidas tantas opções ao eleitor. Para cientistas políticos ouvidos pelo GLOBO-Niterói, essa movimentação refletirá numa disputa mais acirrada no primeiro turno.

Na última eleição para prefeito, em 2016, Niterói teve quatro candidatos ao cargo: o atual prefeito Rodrigo Neves (então PV, hoje PDT), Felipe Peixoto (então PSB, hoje PSD), Flavio Serafini (PSOL) e Danielle Bornia (PSTU). Naquele cenário, apenas partidos de esquerda se apresentavam para o eleitor, embora Felipe, que fez carreira política no PDT, se posicionasse mais ao centro. Hoje, três desses nomes se repetem — com exceção de Rodrigo, cujo candidato à sucessão é Axel Grael (PDT) — somados aos candidatos de direita Juliana Benício (Novo) e Deuler da Rocha (PSL), e de centro-direita, Renata Esteves (PMB).

Para o cientista político Paulo Baía, da Uerj, a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 (então PSL) mostrou que teses conservadoras foram aceitas pela maioria dos eleitores niteroienses — 53% deram voto ao atual presidente —, encorajando partidos de direita, como o PSL e o Novo, a lançarem seus candidatos.

— Além do fator Bolsonaro, o aumento de partidos na disputa é uma demonstração de que eles estão se adaptando a um cenário de eleições majoritárias sem coligação, pois é o que tende a ocorrer num futuro breve, assim como já ocorre na disputa para vereador — explica Baía.

Márcio Malta, cientista político da UFF, afirma que o cenário que se desenhava após a eleição de Bolsonaro, de consolidação de duas grandes frentes (uma de esquerda e outra de direita), não virou realidade, fragmentando candidaturas.

— Somente a chapa da situação, de Axel Grael, conseguiu montar uma rede de partidos — reforça Malta. — Outro fator a ser levado em conta é que desde 2013 há um clamor da sociedade, cada vez mais crescente, pela renovação dos quadros na política. Por isso, jovens e mulheres vieram tentar ocupar o espaço de figuras tradicionais da cidade que sofreram desgaste ao longo dos anos.

Para ambos os especialistas, a falta de unidade, tanto no campo da direita quanto no da esquerda, também favorece o aparecimento de novos candidatos. Um exemplo está relacionado à direita bolsonarista. Para Malta, nem a boa performance de Bolsonaro no município nem a eleição de Carlos Jordy (PSL) como deputado federal mais votado uniram esse espectro político em torno de uma candidatura forte, com coligação robusta.

— A direita conservadora não conseguiu chegar a um consenso. Não há como prever para quem vão os votos dos eleitores fiéis do presidente. Na esquerda, também não há uma unidade: enquanto o PSOL corre sozinho, o PDT e o PT formaram um bloco com partidos mais fisiológicos — avalia Malta.

Baía avalia, porém, que o PSL pode ter um bom desempenho pelo simples fato de ainda estar associado a Bolsonaro:

— Não me surpreenderei. Além disso, uma candidatura à prefeitura sempre dá espaço aos vereadores do partido. A boa votação dos vereadores do PSOL em 2016, por exemplo, está muito associada ao bom desempenho de Serafini (Paulo Eduardo e Talíria Petrone foram os vereadores mais votados no rastro do terceiro lugar, com 20% dos votos, do candidato do PSOL).

Câmara Municipal

Nas eleições para vereador deste ano, não é mais permitida a coligação de legendas. Dessa forma, só existirá “puxador de votos” dentro do próprio partido. Malta e Baía têm opiniões divergentes sobre o fato de a nova regra, que dará mais identidade partidária à Câmara, interferir na governabilidade do prefeito eleito.

— Isso pode fazer com que o prefeito tenha mais dificuldade de consolidar sua base de apoio no Legislativo. Um prefeito mais de direita ou mais de esquerda pode enfrentar dificuldades para governar — conclui Malta.

Baía diverge:

— Na prática, o bloco de governo se forma depois de o prefeito ser eleito. Após o primeiro turno, com o resultado da eleição para a Câmara, já se consegue desenhar o futuro de apoio na Casa, pois se inicia uma segunda fase de negociação. Mas a definição mesmo só vem depois do pleito final.

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