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Com juro baixo, há espaço para estímulo fiscal, diz economista

Anaïs Fernandes

Para Gilberto Borça Jr., problema da economia brasileira hoje é de insuficiência de demanda Com a forte queda nos juros e uma dinâmica da dívida pública menos “maligna”, há espaço fiscal para o governo oferecer algum estímulo à demanda através de investimentos, fazendo frente, no curto e médio prazos, à deterioração do cenário externo e a uma economia doméstica ainda bastante fraca.

Essa é a avaliação de Gilberto Borça Jr., mestre em Economia pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ). Estímulos monetários, segundo ele, podem não estar sendo suficientes, e a agenda de reformas e concessões do governo produz efeitos para o longo prazo.

Borça Jr. diz que o governo deveria apresentar um “cardápio de estímulos” à demanda, que está muito deprimida e, para ele, é o principal entrave atual à retomada econômica do país.

“O nível de renda corrente está muito baixo, a atividade também, os gastos com consumo estão mais contidos. Precisaria de instrumentos autônomos que empurrassem a demanda para cima, por exemplo, com investimentos públicos em infraestrutura. Dado o nível de juros e a elevada ociosidade, estudos empíricos mostram que os multiplicadores fiscais teriam impactos maiores na economia”, afirma.

“E o fiscal? Todo o mundo pergunta”, prossegue Borça Jr. Ele cita algumas projeções segundo as quais, com a Selic em mínimas históricas, seria possível estabilizar a dívida bruta em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) com um resultado primário mais baixo – e, eventualmente, até algum déficit.

“A taxa de juros caiu tanto que a dinâmica da dívida não é tão maligna assim. Pode valer ter um programa razoável de investimentos em infraestrutura, que deem algum impulso adicional para a atividade se recuperar, já que essa é uma economia que sofre há alguns anos com insuficiência de demanda agregada”, afirma.

Ele cita o setor da construção, que sofreu, pelo lado da demanda, com o aperto fiscal do setor público, que investia em infraestrutura, mas também pela oferta, já que grandes empresas do segmento se viram às voltas com os desdobramentos da Operação Lava-Jato.

“Para o curto prazo, algum tipo de política para o setor de construção talvez seja um dos caminhos para reativar a economia”, diz Borça Jr.

A demora na recuperação da economia e para “fechar” o hiato do produto (diferença entre o PIB efetivo e o PIB potencial) preocupa, segundo o economista, porque pode ter efeitos nas tendências de longo prazo, reduzindo o potencial de crescimento do país de forma mais estrutural.

Com uma política macroeconômica que desde 2015 “desligou” estímulos via instrumentos fiscais e parafiscais (como os desembolsos do BNDES), restou apenas a política monetária para manejo cíclico mais de curto prazo da economia, diz Borça Jr.

“É um instrumento indireto de estímulo, porque tem alguns canais de transmissão para a economia, como o crédito bancário. Mas fato é que a taxa de juros caiu e a economia não andou”, afirma.

Isso pode ter acontecido porque a reação do Banco Central (BC) demorou, porque o nível do estímulo monetário tem sido insuficiente ou porque a autoridade monetária não atua com a intensidade que deveria, considerando que o patamar da taxa de juros neutra (que gera crescimento econômico sem pressão inflacionária) também pode ter mudado nos últimos anos, explica.

Além disso, a disseminação global do novo coronavírus gera dúvida adicional a respeito dos rumos da política monetária.

O BC já sinalizou que deve haver novo corte na Selic, considerando que o impacto da Covid-19 para o Brasil é deflacionário. “O BC deve reagir com parcimônia. Mas é evidente que o nível de câmbio está incomodando”, diz Borça Jr.

Sobre a agenda de reformas e de concessões do governo, o economista observa que essas medidas não são de curto prazo. “As pessoas confundem reformas econômicas, que são de longo prazo, e acham que vai fazer crescer no curto prazo. É uma avaliação equivocada.”

“A economia não bombou com reforma da Previdência, por exemplo, porque se está mexendo na oferta, e hoje o problema do Brasil é insuficiência de demanda. Você endereça curto prazo com medidas de manejo de política econômica e longo prazo com reformas”, afirma.