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Com câmbio e BC no foco, juros futuros de curto prazo fecham em alta

Victor Rezende

No fim da sessão regular desta quarta-feira (27), a taxa do DI para janeiro de 2021 subiu de 4,73%, no ajuste anterior, para 4,76% Com o dólar em níveis recordes ante o real, investidores adotaram um tom mais cauteloso para o ciclo atual de afrouxamento monetário. Apesar de sinais recentes do presidente do Banco Central, Roberto Campos, de que o juro básico deve sofrer um corte de 0,50 ponto percentual em dezembro, algumas instituições financeiras começam a ver chance de uma redução de 0,25 ponto.

No fim da sessão regular desta quarta-feira (27), às 16h, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2020 ficou estável em 4,68%, a do DI janeiro de 2021 subiu de 4,73%, no ajuste anterior, para 4,76%, após bater máxima a 4,81%; a do DI para janeiro de 2022 operou estável a 5,44%; a do contrato para janeiro de 2023 permaneceu em 5,98%; e a do DI para janeiro de 2025 se manteve em 6,59%.

Apesar de não ser majoritária, a visão de um corte de 0,25 ponto em dezembro está alinhada ao verificado na curva a termo, que, no fim da sessão regular desta quarta-feira, precificava redução de 0,39 ponto na Selic no próximo mês, de acordo com a Renascença DTVM. Vice-chefe de estratégia de mercados emergentes da TD Securities, Sacha Tihanyi tem em seu cenário base de 4,75% para o juro básico no fim deste ano.

Para ele, o mercado deve reduzir as expectativas de um corte de 0,50 ponto em dezembro, “uma vez que o Banco Central pode estar mais hesitante em reduzir os juros ainda mais no ritmo visto recentemente”. Apesar de ter a Selic a 4,75% no fim do ano, o banco de investimentos canadense projeta duas reduções adicionais de 0,25 ponto em 2020, o que levaria a Selic a 4,25% em março.

Uma avaliação mais cautelosa é adotada pelo BBVA. Principal economista para mercados emergentes do banco espanhol, Enestor dos Santos afirma que, “pelo que temos visto no câmbio nos últimos dias, a perspectiva de juro a 4,75% se mostra ainda mais forte”. Ele lembra que Campos indicou um corte de 0,50 ponto em dezembro, mas ressalta que “as perspectivas neste momento são piores do que na última reunião do Copom”, o que faria o BC reavaliar o cenário.

Outros economistas, porém, acreditam que a autoridade monetária brasileira deve se guiar em sua orientação dada no Copom de outubro e cortar o juro básico em 0,50 ponto em dezembro, o que levaria a Selic a 4,50%.

Para o diretor de investimentos da Western Asset, Paulo Clini, porém, a leitura do mercado é “um pouco precipitada”. Ele diz que “há uma leitura de que a alta recente do câmbio vai forçar o BC a pausar o processo de corte de juros depois de dezembro”. O cenário base da gestora, porém, contempla a taxa básica em 4,25% em fevereiro diante da percepção de que o processo de formação de preços, principalmente os que são sensíveis à política monetária, continua bem-comportado.

Outros economistas também acreditam que ao menos um corte adicional de 0,50 ponto na Selic em dezembro continua contratado. É o caso de Fernando Gonçalves, superintendente de pesquisa econômica do Itaú Unibanco, para quem o impacto dos movimentos do câmbio na inflação ainda é baixo, dada a ociosidade da economia.

“Acho que não muda muito o quadro de política monetária. Talvez mude a sintonia fina. Estamos num estágio da política monetária que se aproxima de uma calibragem final. Isso pode ser influenciado. Mas não muda o quadro de juros baixos por um período prolongado com ociosidade da economia muito grande”, diz Gonçalves. O Itaú Unibanco tem como cenário base a Selic em 4% em março.

Economista-chefe da Guide Investimentos, João Maurício Rosal, também pontua que “é prematuro pensar que esse movimento do dólar muda o cenário do BC”, tendo em vista que a inflação deve terminar “substancialmente abaixo da meta”. Para ele, a despeito dos choques atuais nos preços, a inflação dificilmente ficará acima da meta em 2020, o que permite à autoridade monetária manter o viés acomodatício na política monetária.

Rosal nota, porém, que a forma como o BC se comunicará com os agentes do mercado é fundamental. “Tudo depende de como o BC conseguirá passar a mensagem de que são choques transitórios. Num sistema de metas maduro, o BC poderia falar que vai ignorar esses choques, mas, para que isso seja possível, ele precisa ter essa credibilidade. Acredito que esse será o caso, mas o entorno político é bastante importante para que o BC consiga passar essa mensagem”, disse o economista da Guide.

Clini, da Western, afirma, também, que “é muito cedo” para definir o impacto do dólar na inflação, já que não se tem certeza sobre se o nível atual da moeda americana é estável. “Nada me diz que o dólar a R$ 4,25 é um nível permanente de câmbio. Parece cedo demais para argumentar que esse patamar veio para ficar. E, mesmo se for permanente, o repasse à inflação é incerto”, afirmou.