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Com agrotechs, Piracicaba se torna Vale do Silício do agronegócio

O fim do outono é tempo de colheita nos campos de cana-de-açúcar que cercam a cidade de Piracicaba, no interior de São Paulo. Ao longo do rio, nos pontos onde as máquinas responsáveis pelo corte do capim já passaram, sobram as palhas. São elas e as águas do rio Piracicaba que emolduram o Vale do Silício brasileiro, que nos últimos cinco anos vem protagonizando o boom de startups voltadas ao agronegócio.

A cidade de 410.275 habitantes é o epicentro de uma das maiores revoluções no campo brasileiro desde o anos 1990, quando acelerou-se o processo de transformar o cerrado no maior celeiro de grãos do mundo.

Naqueles anos, o protagonismo no desenvolvimento tecnológico que permitiu o plantio sobretudo da soja no bioma inóspito foi da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), criada em 1973. Quem assume hoje esse papel são centenas de empreendedores, muitos deles pesquisadores saídos de universidades públicas, e que transformam pesquisas acadêmicas em startups com o reforço de investidores ávidos por uma fatia da popularidade do agronegócio brasileiro.

Em seu escritório na avenida Brigadeiro Faria Lima, a 160 km de Piracicaba, Francisco Jardim comanda um fundo de investimento de risco que deposita seus recursos exclusivamente nas agrotechs. "Nosso maior embaixador é o agronegócio; já alimentamos 800 milhões de pessoas, sendo o grande mantenedor da paz mundial", se anima Jardim, citando um estudo da Embrapa publicado no ano passado.

O estudo de autoria de dois analistas da entidade afirma que o Brasil alimenta adequadamente sua população de 212 milhões de pessoas, desconsiderando que um terço da população vive sob insegurança alimentar.

Piracicaba, 25.mai2022 - Fim de outono e tempo de colheita dos milhares de canaviais que cercam Piracicaba, hoje capital nacional das startups que trazem novas tecnologias digitais e biologicas para o agronecio brasileiro
Piracicaba, 25.mai2022 - Fim de outono e tempo de colheita dos milhares de canaviais que cercam Piracicaba, hoje capital nacional das startups que trazem novas tecnologias digitais e biologicas para o agronecio brasileiro

Tocada com capital próprio e associada a um hub de tecnologia está a Cropman, do paulista Guilherme Sanches. Doutor em ciências do solo, Sanches era pesquisador dependente das verbas federais para Ciência e Tecnologia que foram gradativamente reduzidas a partir de 2014, atingindo em 2020 nível menor que em 2009.

“Meu sócio e eu trabalhávamos em um centro de pesquisa em Campinas, onde desenvolviamos tecnologias a nível dos governos estaduais, federal Até sermos demitidos em 2018, em meio aos cortes de investimento em Ciência e Tecnologia”, conta Sanches.

Dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostram que os investimentos em pesquisa feitos pelo Governo Federal vem caindo desde 2013. Depois de mais de uma década de ampliação, os investimentos caíram cerca de 37% entre 2013 e 2020, chegando em 2020 a um nível inferior ao observado em 2009. O orçamento em valores corrigidos foi de R$ 27 bilhões para R$ 17 bilhões.

Em meio a esse fenômeno, no campo o desenvolvimento é promovido pelas grandes corporações do agronegócio – setor da economia que mais cresceu na última década, puxado pela alta das commodities que alavancaram a produção de soja, por exemplo. Bayer, Suzano, Sicredi, Raízen, John Reed são algumas das grandes corporações que investem no conceito de inovação aberta realizado pelas startups.

"Passamos a focar nosso capital no agronegócio porque é um setor competitivo sem dependência do Poder Público ou do investimento de governos, que passam e os negócios continuam", defende o investidor Jardim. Para ele, o grande desafio das startups é produzir mais alimentos em um cenário de cada vez mais incertezas, como o clima, e utilizando menos terra, água e químicos.

Piracicaba, 23.mai.2022 - Com o corte no financiamento de pesquisas cientificas no pais a partir de 2016, Guilherme Sanches foi demitido do instituto onde trabalhava em 2018. Optando pelo empreendedorismo, migrou de Campinas, onde morava, para Piracicaba por seu papel central no boom das agritechs
Piracicaba, 23.mai.2022 - Com o corte no financiamento de pesquisas cientificas no pais a partir de 2016, Guilherme Sanches foi demitido do instituto onde trabalhava em 2018. Optando pelo empreendedorismo, migrou de Campinas, onde morava, para Piracicaba por seu papel central no boom das agrotechs

“As startups têm um dinamismo que as grandes empresas não têm para gerar inovação; elas estão mais abertas ao risco: se uma tentativa falhar, é só começar de novo e eles tem energia para isso”, comenta José Tomé, fundador e CEO da AgTech Garage, polo que reúne startups, grandes corporações e investidores. O hub, como é chamado, é o maior do hemisfério sul dedicado exclusivamente ao agronegócio, e tem como parceiro financiador grande parte das grandes multinacionais do agronegócio.

Enquanto as startups selecionadas por hubs como a AgTech Garage não pagam nada para terem espaços de trabalho compartilhados modernos, aos moldes do Google, as corporações acompanham de perto o que é produzido e podem aplicar às suas produções. No Pulse este processo é ainda mais claro. Criado e mantido pela Raízen, quarta maior empresa em faturamento do Brasil, e segunda maior distribuidora de combustíveis, o polo seleciona os empreendedores de acordo com o potencial de aplicação das tecnologias na cana-de-açúcar, foco da joint venture entre Cosan e Shell.

"Às vezes você tem uma companhia desenvolvendo tecnologia para o café, mas nós vemos potencial para ser aplicada na cana, e ela é convidada”, explica Ricardo Campo, coordenador de inovação digital da Raízen.

Vale do Silício Caipira

Em menos de seis anos o salto de pequenas empresas de tecnologia voltadas ao agro foi de 1.000%. O primeiro censo agrotech, realizado em 2016, mapeou 100 dessas startups. Hoje esse número está em torno de mil. Em Piracicaba são quase 1.500 empresas dessas por 100.000 habitantes, de acordo com levantamento da AgTech Garage.

Pulse e AgTech Garage são dois dos ingredientes do caldo que transformou Piracicaba em epicentro da inovação no Agronegócio. Ao longo do rio que dá nome à cidade se espalham, em um raio de menos de 10 km, centros de pesquisa, campus universitário, incubadoras e empresas de investimento que colaboram para que uma a cada dez startups do setor esteja na cidade.

Universidades públicas tem se provado centrais na geração de conhecimento que é colocado em prática pelas startups e incorporado pelas corporações. As principais cidades envolvidas no movimento – Piracicaba, Viçosa (MG), São Carlos (SP) e Chapecó (SC) abrigam universidades públicas e órgãos como a Embrapa – ainda hoje importante para a inovação no campo.

Na cidade, esse papel cabe à Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), que com 121 anos é a quinta melhor faculdade do mundo em ciências agrárias — a melhor em agronomia aplicada ao solo e clima tropical. "A melhor tecnologia tropical é do Brasil. Já exportamos essa tecnologia, mas há poucos lugares que fazem agricultura tropical de modo desenvolvido como aqui", aponta Leonardo Menegati, criador de uma plataforma para facilitar o acesso de produtores a assistência técnica para análise e melhoria do solo.

"Quando os portugueses disseram que 'em se plantando tudo dá', não conheciam o cerrado, que é um solo pobre, antigo e naturalmente sujeito a queimadas que o consomem", compara o agrônomo. "Hoje 80% dos produtores não tem acesso a assistência técnica, justamente os médios e pequenos, e queremos ajudá-los a ter e aumentar a produtividade", defende. Presente em 18 Estados, a Inceres de Mengati tem a maioria dos clientes produzindo soja no cerrado.

Piracicaba, 21.mai.2022 - A Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), atualmente com 121 anos, e peca central do protagonismo de Piracicaba no boom das agrotechs. A cidade a 160km de Sao Paulo se desenvolveu entre a unidade da USP e canavieis e e hoje capital nacional das startups que trazem novas tecnologias digitais e biologicas para o agronecio brasileiro
Piracicaba, 21.mai.2022 - A Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), atualmente com 121 anos, e peca central do protagonismo de Piracicaba no boom das agrotechs. A cidade a 160km de Sao Paulo se desenvolveu entre a unidade da USP e canavieis e e hoje capital nacional das startups que trazem novas tecnologias digitais e biologicas para o agronecio brasileiro

Dessas tecnologias desenvolvidas na Academia e convertida em negócio, uma das mais promissoras é o combate de pragas no campo com utilização de microorganismos não nocivos ao meio ambiente e ao homem. Cristiana Tibola estudava insetos quando optou por reproduzi-los em escala comercial para venda aos centros de pesquisa. Um desses insetos, a lagarta do cartucho do milho é um das piores pragas de culturas em todo o mundo, afetando em torno de 200 espécies em todas as áreas tropicais, segundo a pesquisadora.

“Nós já produzimos em larga escala a lagarta quando decidimos investir no controle biológico de pragas; no caso dela, detectamos esse vírus, que faz o controle biológico matando pelo menos 80% delas nas lavouras, mas que depende dela mesma para se multiplicar”, conta Tibola.

“Quando aplicado, é como se causasse uma pandemia na lavoura, indo de animal para animal, mas sem afetar nem o homem nem o meio ambiente, porque é um vírus muito específico'', conta. Por se tratar de um agente biológico, se a lagarta evoluir, o vírus evolui junto, ao contrário dos agrotóxicos, explica a agrônoma catarinense que se converteu em empreendedora em 2018.

Piracicaba sempre foi polo de produção de cana, mas nos últimos anos acompanha, como no resto do país, aumento exponencial das plantações de soja – que hoje é um dos focos de geração de inovações. Sergio Barbosa, gerente executivo da incubadora EsalqTec reconhece que os grandes produtores atraem mais as empresas, que visam o lucro, acreditando no cooperativismo como meio de trazer inovação para pequenos e médios, uma fórmula questionada por observadores do setor agropecuário.

Piracicaba, 24.mai.2022 - A doutora em insetos Ana Carolina Siqueira comanda uma pesquisa para o combate ao percevejo da soja - uma das piores pragas da cultura - usando apenas um fungo inofensivo a demais especies. A solucao, verde e sustentavel, tem vantagens econonimas e ambientais frente as alternativas quimicas
Piracicaba, 24.mai.2022 - A doutora em insetos Ana Carolina Siqueira trabalha junto da entomologista Cristiana Tibola em uma pesquisa para o combate ao percevejo da soja - uma das piores pragas da cultura - usando apenas um fungo inofensivo a demais especies. A solucao, verde e sustentavel, tem vantagens econonimas e ambientais frente as alternativas quimicas

Três a cada quatro delas trazem soluções para “dentro da porteira” em tecnologias que auxiliam a produção e a gestão agrícola de grãos e similares. Um avanço que vem de encontro a uma crença inquestionável no setor: A de que o Brasil é e será o celeiro produtor de alimentos para o mundo – ainda que esses alimentos estejam limitados às commodities que já são responsáveis por um terço do PIB do país e metade dos parlamentares.

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