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Colônias espaciais poderão contar com casas feitas de fungos

Daniele Cavalcante

Quando se fala sobre colonizar Marte, é comum imaginarmos construções futurísticas, habitações com formatos estranhos e edifícios metálicos. Mesmo os cientistas que investigam possíveis meios de criar casas no Planeta Vermelho recorrem a materiais tecnológicos e designs que não são comuns aqui na Terra. Mas uma equipe da NASA optou por algo ainda mais estranho, ecológico e econômico: estruturas feitas a partir de fungos.

O projeto desenvolvido no Ames Research Center, da NASA, na Califórnia, liderado pela pesquisadora Lynn Rothschild, utiliza um protótipo de tecnologia que pode "cultivar" habitats na Lua, Marte e além. A ideia é utilizar os fungos e seus micélios - estruturas internas formadas por filamentos microscópicos que compõem a parte principal do fungo.

Lynn afirma que os projetos atuais de habitat para Marte “são como uma tartaruga - carregando nossas casas conosco de costas - um plano confiável, mas com enormes custos de energia. Em vez disso, podemos aproveitar os micélios para cultivar esses habitats quando chegarmos lá”.

Tijolos produzidos com micélio, resíduos e lascas de madeira. Materiais semelhantes poderiam ser usados para construir casas na Lua ou em Marte (Foto: Stanford-Brown-RISD iGEM Team)

A ideia é que no futuro os astronautas possam levar nas espaçonaves um habitat compacto, construído com um material leve, economizando assim espaço e o combustível da nave. Ao chegar na Lua ou em Marte, os exploradores poderão desdobrar essa estrutura básica e simplesmente adicionar água. Os fungos então crescerão em torno dessa estrutura, formando um habitat humano totalmente funcional. Além disso, eles estarão protegidos de radiação dentro da estrutura básica.

Mas por que fungos?

Esses pequenos filamentos chamados micélios constroem estruturas complexas com extrema precisão, conectando-se a estruturas maiores, como cogumelos. Em condições adequadas, eles podem ser conduzidos a criar novas estruturas - desde um material semelhante ao couro até os blocos de construção de um habitat para Marte. Na verdade, tijolos feitos de micélio são mais resistentes que blocos de concreto, por exemplo, e têm maior resistência à compressão que a madeira.

Mas isso resolve apenas parte do problema. Para viver em Marte, os astronautas precisam ter suas necessidades atendidas, e isso vai muito além de estar entre paredes e debaixo de um teto. A moradia precisa até mesmo de um ecossistema, com vários tipos de organismos ao lado dos seres humanos. Os micélios fúngicos já fariam parte desse ecossistema, pois são uma forma de vida. Mas, assim como os humanos, eles também precisam comer e respirar.

É aí que entra cianobactéria, um tipo de bactéria que pode usar a energia do Sol para converter água e dióxido de carbono em oxigênio e alimentos de fungos. Assim, o conceito de habitat se torna uma cúpula de três camadas. A camada mais externa é composta de gelo de água, que pode ser extraído do próprio subsolo do planeta. Essa água serve como proteção contra radiação e escorre para a segunda camada - as cianobactérias. Essa camada pode absorver a água e fotossintetizar usando a luz externa que brilha através da camada de gelo para produzir oxigênio para os astronautas e nutrientes para a terceira camada, formada pelos micélios.

Essa camada de micélio é primeiro ativada para crescer em um lugar contido, mas depois será cozida para matar as formas de vida.Isso é necessário para fornecer integridade estrutural e para garantir que nenhuma forma de vida contamine qualquer vida microbiana que possa existir em Marte. Mesmo que alguns micélios escapem de alguma forma, eles serão geneticamente alterados para serem incapazes de sobreviver fora do habitat.

O micélio pode então ser usado para, além de proteger os astronautas, formar sistemas de filtragem e biomineração de água, criar iluminação bioluminescente, regular a umidade e até dar aos habitats a capazes de se curar.

É possível que o projeto seja bem sucedido em Marte, provando que a ideia oferece sustentabilidade e segurança para os habitantes de outros mundos. Se este for o caso, podemos projetar soluções semelhantes aqui na Terra. Em tempos de constante mudança ambiental, os fungos podem ser a resposta para muitos problemas no futuro.


Fonte: Canaltech

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