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Clube de cacheadas e crespas resgata autoestima de mulheres negras

Após uma viagem, Andressa Abreu e Renata Varella se tornaram sócias. Foto: Divulgação

Após uma viagem com a amiga Andressa Abreu, a empresária Renata Varella teve a ideia de criar um clube para ajudar mulheres cacheadas e crespas a resgatar a autoestima e passar pelo processo de transição capilar. Foi assim que nasceu o Clube das Pretas, no Rio de Janeiro.

Depois de colocar a ideia em prática, Renata percebeu que o número de mulheres que estava em busca de serviços como o que elas ofereciam no clube era muito grande. “A repercussão foi surpreendente. As nossas primeiras clientes já enxergavam muito valor no serviço que a gente oferecia”, explicou em entrevista ao Yahoo.

Com o sucesso do projeto, as sócias perceberam que era preciso ir além. Então, no começo deste ano, ao perceberem que esse mercado estava em crescimento, elas começaram a também ajudar na formação de consultoras em cabelos crespos e cacheados naturais.

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“A partir dessa análise, definimos nosso público: mulheres em situação de vulnerabilidade social que são, em sua grande maioria, mulheres negras. O projeto de formação começou em fevereiro de 2019 e, em novembro, formamos nossa segunda turma”, afirmou.

Leia a entrevista completa:

Me conte sobre o começo do Clube.

Renata Varella: Tudo começou com a nossa entrada no processo de transição capilar (abandono da química para viver com o cabelo natural). Eu comecei a estudar produtos e técnicas para cabelos crespos e cacheados naturais. Como não havia nenhum profissional para me dar suporte nesse momento, comecei a trocar muitas informações com uma amiga de uma amiga que também estava em transição. Essa amiga era a Andressa [Abreu]. Hoje ela é minha sócia.

Como isso se estruturou?

Renata: Um dia fizemos uma viagem de galera para Ubatuba e, na hora de tomar banho pós praia e piscina, a Andressa e eu cuidamos dos cabelos de todas as meninas. A gente recomendou qual shampoo usar, máscaras e finalizamos o cabelos de todas elas. Todas as meninas adoraram ver a diferença dos seu cabelos cuidados e penteados por nós duas e foram incisivas ao dizer que nós precisávamos compartilhar esse conhecimento com mais mulheres, que deveríamos trabalhar com isso. 

Depois da viagem vocês já começaram?

Renata: Algumas semanas depois dessa viagem, a Andressa me ligou e fez o convite para levarmos a sugestão das meninas da viagem a sério. Foi assim que começamos a idealizar, escrever e planejar o Clube das Pretas.

Como colocaram o Clube das Pretas em prática? 

Renata: Para colocar o Clube das Pretas em prática, a gente fez um trabalho bastante profissional utilizando o Google. Usamos a ferramenta para a mais diversas pesquisas que precisamos. Também usamos ferramentas digitais gratuitas para pesquisas, organização e estruturação do negócio.

Qual a repercussão que o projeto tomou? 

Renata: A repercussão foi surpreendente. As nossas primeiras clientes já enxergavam muito valor no serviço que a gente oferecia. Através das redes sociais, também começou a chegar muita gente para pedir ajuda e contando suas histórias com seus cabelos.

Vocês passaram a cuidar de famosas também. Como elas souberam do trabalho de vocês?

Renata: Apesar de todo carinho e reconhecimento que a gente está recebendo das nossas cliente e seguidoras, o Clube ainda é muito pequeno. A gente tem se tornado conhecida mesmo pelas famosas, pelo boca-a-boca, naquele estilo “olha, descobri um lugar que você tem que ir para cuidar do seu cabelo”. A gente atende diversas famosas de diversos nichos, mas temos como clientes grandes celebridades como Maju Coutinho e Taís Araújo.

Como surgiu esse projeto de ajudar mulheres em situação de vulnerabilidade? 

Renata: O projeto de Formação de Consultoras em Cabelos Crespos e Cacheados Naturais surgiu quando muitas pessoas começaram a perguntar se a gente oferecia cursos. A partir dessa demanda, a gente começou a pensar para qual público nós poderíamos oferecer esses cursos. O mercado do cabelo natural está em vertiginoso crescimento, mas, apesar da grande demanda, tem pouca oferta. A partir dessa análise, definimos nosso público: mulheres em situação de vulnerabilidade social que são, em sua grande maioria, mulheres negras. O projeto de formação começou em fevereiro de 2019 e, em novembro, formamos nossa segunda turma.

Como isso mudou a vida dessas mulheres?

Renata: Do ponto de vista econômico, agora essas mulheres têm uma nova profissão que inclusive está “na moda”, sendo uma grande oportunidade de negócio. A gente também percebe que a percepção das nossas alunas em relação a sua beleza tem se ampliado e ganhado novos significados. Depois de tantos anos utilizando produtos para alterar a estrutura original dos nossos fios capilares, a descoberta da possibilidade de cuidar do cabelo sem alterar a sua natureza, reconstrói a autoestima da mulher negra e nos torna mais potentes para viver numa sociedade estruturalmente racista.