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Clima da economia está 'morno' e exterior é 'vento contrário' para recuperação, diz Ilan

Anaïs Fernandes

Para o presidente do conselho do Credit Suisse no Brasil, o país está com uma mão na geladeira e a outra no fogão O Brasil está com uma mão na geladeira e a outra no fogão, comparou Ilan Goldfajn, presidente do conselho do Credit Suisse no Brasil, para dizer que o clima da economia é morno. “Nosso PIB [Produto Interno Bruto] é o morno”, afirmou o ex-presidente do Banco Central, durante evento da Western Asset em São Paulo nesta quarta-feira.

Ruy Baron/Valor

O desempenho da atividade econômica deste e do próximo ano é, segundo Ilan, uma combinação de dois motores em direções opostas. De um lado, as despesas do governo negativas empurram o PIB para baixo, enquanto o consumo privado puxa a economia para cima. “Para [o país] crescer 1%, o setor privado tem que crescer 2%; para crescer 2%, o setor privado tem que crescer 4%”, disse.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou na terça-feira que o PIB do terceiro trimestre avançou 0,6%, na comparação com os três meses anteriores.

O ex-presidente do Banco Central comparou o Brasil a um transatlântico, que “vai mudando muito lentamente”, e disse que o país começa a se recuperar com atraso em relação ao mundo. “Essa nossa recuperação vai ter um vento contrário da economia global, que está desacelerando.” Como exemplo, Ilan citou a contribuição negativa que o setor externo deu para o PIB do terceiro trimestre, do qual tirou algo como 0,8 ponto percentual.

Ilan disse ainda não conseguir ver uma recuperação da economia global muito forte no horizonte, mas destacou que a perspectiva para a desaceleração mundial já foi pior. “A gente está recuperando apesar do peso negativo do governo [no PIB] e da desaceleração global”, ponderou.

O nível baixo dos juros atua como estímulo, porque “faz com que todo o mundo tenha que investir em ativos reais”, disse Goldfajn, citando que a construção civil, sobretudo em São Paulo, já dá bons sinais de reação. “O que não permite que a gente cresça mais? Todo o resto”, brincou Ilan. Segundo ele, é preciso mexer, entre outras coisas, na complexidade tributária e de se fazer negócios no país, além de ser necessário oferecer maior segurança jurídica, por exemplo, para as concessões.

“O Brasil tem uma chance de dar certo, porque temos deficiência em quase tudo. Quando há deficiência em tudo, o retorno marginal é alto, o primeiro real investido é alto. O problema não é, em geral, retorno, é dar segurança para isso render”, afirmou.

Câmbio deve responder a juros mais baixos

O patamar de juros no Brasil mudou para um nível mais baixo, acompanhando um movimento que é global, e é natural que o câmbio responda a isso´, avalia Ilan. “Se mudou o patamar de juros, muda um pouco o patamar de câmbio, é natural e é algo com que nós temos que nos acostumar”, disse. “Eu arrisco dizer que, olhando para dez anos, provavelmente nosso câmbio vai estar mais depreciado do que o câmbio nos últimos dez anos”, acrescentou.

A fala de Ilan vai em linha com a afirmação do ministro da Economia, Paulo Guedes, que disse não estar preocupado com a recente alta do dólar. “Quando tem política fiscal mais forte e juro mais baixo, o câmbio de equilíbrio é mais alto”, afirmou Guedes após evento recente em Washington, provocando reações no mercado.

“Se estou achando que o patamar de juros mudou, a arbitragem de empresas, bancos, investidores [que tomavam juro mais barato lá fora e investiam em taxas maiores no Brasil] acabou. Está claro que o patamar de câmbio também mudou”, disse Ilan.

Para explicar a queda de juros no Brasil, o ex-presidente do BC cita dois argumentos principais. Um deles é doméstico e está relacionado ao “mix de política que mudou da água para o vinho” nos últimos tempos, disse, referindo-se ao recente aperto fiscal do governo. “Uma vez que a despesa desaparece, o governo começa a contribuir negativamente para o PIB [Produto Interno Bruto], o juro começa a cair, a inflação cai”, explicou.

Mas há também um fator global: a queda de juros reflete a menor disposição do investidor. “O sinal que as taxas de juros baixas no mundo está nos dando é que há muita insegurança, pouco investimento e busca por ativos mais seguros”, disse.

“Como não acho que esses dois fatores vão mudar amanhã, provavelmente vamos conviver com patamar de juros menor por um tempo. Não abolimos flutuações. Mas o patamar mudou, pode ser um pouquinho mais alto ou mais baixo. A ideia de que não se volta mais, provavelmente, a dois dígitos, é importante”, afirmou Ilan.