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Ciro Gomes aposta no "espólio da decepção"

Matheus Pichonelli
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"As pessoas são gratas, nosso povo é generoso”, disse Ciro Gomes (Foto: Yahoo/Facebook)
"As pessoas são gratas, nosso povo é generoso”, disse Ciro Gomes (Foto: Yahoo/Facebook)

Ciro Gomes não usa eufemismos para definir possíveis nomes para a Presidência em 2022.

Jair Bolsonaro é um “genocida despreparado”.

Sergio Moro é um “aventureiro inescrupuloso”.

João Doria, um “camaleão” que mente como “cachorro acua alma”.

Luiz Henrique Mandetta vive o rescaldo de cinco minutos de fama. “Não fez nada na pandemia, apenas defendeu corretamente o isolamento social”.

Em mais de uma hora e meia de entrevista ao Yahoo! Notícias, o ex-ministro, ex-deputado e ex-governador do Ceará não poupou críticas ao ex-presidente Lula, de quem afirma ter perdido o respeito, e ao Partido dos Trabalhadores em geral. Sobrou, a certa altura, até para Gleisi Hoffmann, presidente da legenda definida por ele como alguém que “não tem nada na cabeça”.

Ciro pode não dizer com todas as letras, mas está na pista. E a estrada que leva até 2022 começa a ser pavimentada muito antes.

A eleição municipal está na ponta da largada. Quando terminar, já terá passado praticamente a primeira metade do governo Bolsonaro, que o pedetista chegou a apostar que não terminaria o mandato.

Ciro acaba de lançar um livro, intitulado “Projeto nacional: o dever da esperança”, que pode ser lido como um programa de governo para quem já desistiu de esperar algum coelho da cartola do governo que no auge da pandemia viu seu Posto Ipiranga defender a abertura de cassino para “deixar o cara se foder”.

Nas pesquisas de opinião dos principais institutos do país, o atual presidente mantém um resiliente apoio de 30% dos eleitores, os que consideram seu governo ótimo ou bom. A rejeição, nas últimas avaliações, se aproxima de 45%.

A disputa pelas prefeituras e Câmaras municipais será um termômetro da força bolsonarista após a onda que o elegeu e elegeu uma bancada no Congresso. Uma bancada desfeita por conflitos internos e que levaram ao desembarque em massa do PSL e a criação ora interrompida de uma legenda bolsonarista puro sangue, a Aliança Pelo Brasil.

Ciro sabe, como demonstrou na entrevista, que o regime de preferência se mostra no primeiro turno de uma eleição presidencial. O segundo turno é um jogo de rejeição.

Em 2018, petistas e bolsonaristas ficaram com quase 75% dos votos ainda na primeira fase (Bolsonaro com 46% e Fernando Haddad, com quase 30%). Ciro teve 12,5% dos votos.

Na véspera da disputa, ele alertava que a grande força política da disputa seria o antipetismo. Bolsonaro foi eleito.

Ciro aposta agora no recrudescimento da antipatia ao lulopetismo, neologismo que ele repetiu algumas vezes na entrevista, e que a rejeição de Bolsonaro hoje é mais grave e mais consistente do que jamais foi.

Para ele, a mesma população que agradece o auxílio emergencial tem um juízo negativo sobre a condução da pandemia. “O povo não é burro. Ele vê a política como um ruído que só nega para ele as coisas”.

O ex-ministro alerta que quem fizer uma aposta hoje para 2022 é um chutador. Aconselha antes observar o que acontecerá nas eleições municipais. A dele está implícita.

Ciro classifica o candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Jilmar Tatto, de sofrível. Lembra que na antevéspera das eleições um terço dos vereadores petistas do estado de São Paulo deixou a legenda por, segundo ele, “não aguentar mais explicar o inexplicável”.

No Rio, Marcelo Freixo, do PSOL, desistiu de se aliar ao PT porque teria de explicar a aliança de dez anos dos neoaliados com Sergio Cabral.

Em Belo Horizonte e Porto Alegre, lembrou o entrevistado, o PT também não aparece.

O antipetismo é, segundo Ciro, o resultado da frustração e da percepção generalizada de corrupção associada ao ex-presidente Lula. “Isso está ainda muito vivo no Brasil”.

Por isso afirmou: “nunca mais ando com essa gente”.

Do outro lado, ele afirma que a resiliência do apoio a Bolsonaro se deve ao constrangimento de se saber traído. “O Bolsonaro tirou 70% dos votos em São Paulo no segundo turno. Até eu (o eleitor) confessar que fui enganado vou demorar um pouco. Briguei no bar, briguei com meus parentes por um sujeito despreparado e corrupto. Então vou resistindo. É como o corno que não gosta de receber a notícia. Ele briga antes com quem deu a notícia”, disse, para na sequência se desculpar pela “comparação desagradável.

Mesmo dizendo que não se pode pensar “só naquilo” — no caso, os votos — Ciro tem se articulado com PSB, Rede, PV e PDT, seu partido, de olho no calendário eleitoral, como afirmou. Neste barco deixou claro que não cabe a burocracia (de novo) lulopetista.

A viabilidade dessa aliança é ainda um pensamento desejoso: o de obter o espólio dos decepcionados, sejam os órfãos do petismo ou do bolsonarismo.

Hoje o que os quatro partidos citados pelo pedetista têm são 64 votos numa Câmara composta por 513 deputados. O rejeitado PT possui, sozinho, 53. O centrão, que promete dar alguma sustentação a Bolsonaro, soma cerca de 160 aliados -- já contabilizado o desembarque de DEM e MDB.

Para Ciro, o “lulopetismo” aperfeiçoa o bolsonarismo mais boçal. Na hora da crise crise, afirmou, Bolsonaro vai às redes dizer “me aceita com casca e tudo se não o Lula vai voltar”.

A estratégia para quebrar esse ciclo é “pedir humildemente ao povo brasileiro que volte a se reconciliar com o campo progressista” -- campo, ele insiste, arrebentado pelo PT. Isso exige “propor algo melhor que o Bolsonaro” sem chamar ninguém de gado. Nem de fascista quem discorda do PT.

Só que emplacar esse discurso depende cada vez mais da erosão de dois campos que podem ou não ter atingido o teto tanto das preferências quanto da decepção. O quanto isso mudou de 2018 pra cá ainda não está claro.

Em 2016 nenhum agrupamento saiu mais fortalecido das eleições municipais do que o PSDB. O que parecia uma tendência montanhosa pariu raquíticos 4,7% dos votos em Geraldo Alckmin dois anos depois.

Com casca e tudo as forças mais rejeitadas pela maioria simples dos eleitores somaram, juntas, na mesma disputa, mais de sete em cada dez votos apenas no primeiro turno.