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Cinema: "Baixo Centro" faz registro de uma cena urbana condenada a desaparecer

Matheus Pichonelli
·6 minuto de leitura
Cena do filme Baixo Centro, de Eweton Belico e Samuel Marotta: Randolpho Lamounier
Cena do filme Baixo Centro, de Eweton Belico e Samuel Marotta: Randolpho Lamounier

Vêm de Minas Gerais, mais precisamente das quebradas da região metropolitana de Belo Horizonte, algumas das produções mais interessantes do cinema brasileiro contemporâneo. Da safra de jovens realizadores mineiros destacam-se pequenas obras-primas, como “Arábia”, de Affonso Uchôa e João Dumans, “Baronesa”, de Juliana Antunes, e “Temporada”, de André Novais.

Para a lista entra agora o vencedor do Troféu Barroco de melhor longa do Festival de Tiradentes em 2018. “Baixo Centro”, de Samuel Marotta e Ewerton Belico, acaba de entrar em “cartaz” nas plataformas de streaming (YouTube, Vivo Play, Sky Play, Looke, Now, Microsoft, iTunes e Google Play).

Curiosidade: o filme, sobre as andanças de jovens periféricos pelo centro da cidade ao longo de uma noite, estreia em um contexto de isolamento e apreensão diante de uma possível nova onda de covid-19. Fala, portanto, de uma forma de viver na cidade que, se não acabou, está acabando. E que, se não acabar, estará mais do que nunca em disputa após o trauma do coronavírus e outras chagas de um modelo de desenvolvimento que empurra seus habitantes a viverem para outro centro: o de suas próprias casas. O centro de si.

A sacada do filme, que tem no elenco Bárbara Colen (de “Bacurau”), é acompanhar esses personagens numa espécie de longa jornada noite adentro. Antes que se falasse em pandemia, isolamento e “novo normal”, esses personagens já completavam o deslocamento periferia-centro-centro-periferia para se deparar com uma cidade-fantasma que não reconhecem mais.

Apesar da cena localizada em BH, essa cidade retratada é a cidade de todo mundo que precisou se deslocar um dia: uma cidade em estado permanente de ebulição e transformação que deixa de existir quando menos se espera. (Nunca esqueço quando precisei ficar 40 dias longe de casa, em São Paulo, para acompanhar na UTI neonatal os cuidados com meu filho prematuro: na volta, a avenida Paulista, onde morei e trabalhei por 12 anos, era outra, o país também; no intervalo havia começado e terminado as manifestações de julho de 2013).

Foto: Randolpho Lamounier
Foto: Randolpho Lamounier

Em “Baixo Centro”, a relação com a cidade é a relação dos corpos em deslocamento, e não com o lugar onde se fixam. É no ônibus, por exemplo, que eles falam sobre suas origens, medos, traumas e desamparos --assim mesmo, no plural.

Numa das cenas, um dos personagens conta que seu pai um dia foi cercado por uma gangue e precisou correr. E segue correndo até hoje.

Como uma corrida que não se encerra, os diálogos correm sem mensagem de fundo ou lição edificante. Começam, param, recomeçam e se emendam toda vez que alguém tenta elaborar que naquele espaço se vive, se sobrevive e está tudo certo. “Baixo Centro” é a história de sobreviventes.

Ao longo da noite, os personagens emendam conversas e refazem caminhos após a interrupção de planos --um namorado que não apareceu, uma expectativa que não se confirmou, um cigarro que não acendeu. E rodam, como se estivessem em busca de alguma coisa que nunca esteve ali. Ou não está mais.

No modelo de desenvolvimento atual, a cidade se expande o tempo todo em direção a outras pontas. Fecha-se em circuitos, muros, grades e na vigilância dos ambientes fechados, seus condomínios, shoppings, hotéis, resorts e escolas militarizadas. Torna-se, assim, cada dia mais artificial e quanto mais se paga por viver ali mais se isola. Mais desaparece também o que Belchior chamava de delírio da experiência com as coisas reais.

Nos limites do município mediados pelo quanto se pode pagar os corpos aparentemente estão preservados. Mas não estão.

Em “Baixo Centro”, os personagens demoram a perceber que o que eles procuram naquele espaço eles já têm. Trata-se de uma espécie de legitimidade sobre a cidade. Uma legitimidade que se impõe na medida em que não se fixam a ela, nem a trabalho, nem a padrões de moralidade, nem a comportamentos ou modelos afetivos que se desintegram num espaço urbano feito justamente para desintegrar.

Nessa realidade que dissolve sujeitos, a impressão é que a cidade pede voltas e voltas, levando seus personagens a circularem, como zumbis, à medida que se perdem e se afastam do centro de si e se irritam, perdendo também a paciência, o motor que faz a roda girar sob a casca da resiliência.

Num dos diálogos, um dos personagens se enrosca ao tentar explicar o que faz da vida para ganhar dinheiro. Passa a fumar de maneira frenética, entre falas entrecortadas, como se dali em diante fosse o abismo da vida adulta; um passo em falso e o que se revela e se resvala é o enlouquecimento.

Essa relação com o espaço, uma ideia de Brasil profundo, periférico e desamparado, é a marca das produções desse novo cinema mineiro que saíram do regionalismo e recriaram uma cena universal.

É possível estar em outras pontas e imaginar que aquela quebrada em BH é também paulistana, campineira, soteropolitana, portoalegrense ou carioca: não é porque se tem o direito por circular nesta cidade que ela não te estraçalha ou dará descanso sob a trinca de comida, diversão e arte.

A certa altura os personagens parecem caminhar em direção a uma espécie de virada cultural, uma experiência de um tempo pré-novo-normal em que o encontro estava em cena, não só as atrações artísticas. É como se andassem, no escuro, em direção à luz.

No breu, o ambiente é traiçoeiro, como quando o espectador é levado a imaginar que os personagens se dirigem a uma “boca de fumo”, onde encontram um sujeito mal encarado, e nada acontece. A ilegalidade é antes de tudo uma abstração. Ali todos estavam apenas esperando o mesmo ônibus. Ou quando o esforço de apreensão do momento é construído em imagens congeladas a partir de fotografias, como fez Truffaut em uma das cenas de Jules e Jim. O tempo que corre, afinal, é também um conceito.

Tudo muda e se revela conforme tudo se clareia, como uma manhã.

Apesar do “centro” do título, a periferia é o tema central do filme. A periferia e seus deslocamentos. Os deslocamentos e suas cidades. As cidades que, no breu, se escondem. E que, à luz da busca, se revelam.

Há a cidade do beco e a cidade que se vê ao longe. A cidade onde se corre. Onde se retrai. Onde mesmo em grupo estamos sozinhos e mesmo sozinhos estamos em companhia, diante da possibilidade de descer a qualquer hora dos prédios e encontrar alguém, mesmo que não seja quem estamos à espera.

Como definiu Marotta, um dos diretores, “Baixo Centro” é um filme sobre pessoas que desaparecem e sobre memórias que estão em vias de desaparecer. “Se no início do processo de escrita os protagonistas eram jovens que viviam intensamente o centro ocupado por movimentos artísticos das mais variadas frentes, ao final de quatro anos imperava a iminência da morte e o esvaziamento da cidade”.

Pois essa cidade que esfola é a mesma que acalenta. De que cidade falamos? De que cidade queremos falar? Quais cidades vão existir quando este tempo também passar?

São perguntas que ganham novos sentidos diante da perspectiva de vivermos para dentro mais tempo do que podemos suportar. Com ou sem pandemia.