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Cineastas afegãos temem perseguição com possível volta do Taleban ao poder

·4 minuto de leitura

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Cineastas afegãos passaram os últimos 20 anos denunciando as atrocidades cometidas pelo Taleban e levaram às telas as histórias de como era a vida sob o comando da organização radical. Agora, porém, eles assistem ao provável retorno do grupo ao poder --e temem ser os primeiros alvos de sua vingança.

Um dos diretores mais conhecidos do país, Siddiq Barmak (do filme "Osama", de 2003), enviou uma carta a festivais estrangeiros pedindo que ajudassem a chamar a atenção do mundo para essa situação. O texto é assinado também pelo diretor iraniano Mohsen Makhmalbaf ("O Silêncio", 1998).

"Ninguém se importa com os cineastas independentes afegãos que fizeram filmes críticos contra o Taleban durante todos estes últimos anos", diz a carta, que chegou à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. "Acreditamos que a vida desses cineastas está realmente em perigo, e a comunidade mundial de cinema deveria tomar uma ação imediata para salvá-los."

O Taleban tomou o poder no Afeganistão em 1996, impondo um regime radical. A invasão dos EUA em 2001 desalojou essa facção. O governo americano estava em busca de Osama Bin Laden, depois dos atentados de 11 de Setembro --o Taleban permitia que a organização terrorista Al Qaeda, de Bin Laden, operasse livremente no país.

A presença de soldados americanos e estrangeiros no país manteve a ameaça do Taleban sob algum controle, apesar de nunca por completo. Mas o atual presidente Joe Biden deu início em maio à retirada das tropas, afirmando que era chegada "a hora de encerrar a guerra eterna".

Biden quer se afastar dos conflitos que herdou e reduzir, também, a presença americana no Oriente Médio. Até o fim de agosto, os Estados Unidos já devem ter saído do país --para analistas, deixando uma fruta madura para o Taleban colher. Segundo o Long War Journal, o grupo triplicou o número de distritos que controla no Afeganistão nos últimos três meses, desde que os EUA começaram a sua retirada.

Eram 73 distritos em meados de abril, e o número saltou para 221 em meados de julho. Houve 5.183 civis mortos e feridos no país no primeiro semestre do ano, um aumento de 47% em relação a 2020, segundo os dados das ONU. É o número mais alto desde o início da contagem, em 2009.

"A situação no Afeganistão tem piorado cada vez mais", diz Barmak à reportagem por telefone. Ele fala da França, onde vive exilado com a família por questões de segurança. Segundo ele, os cineastas --como outros artistas, além de jornalistas-- são alvos do Taleban porque a facção quer silenciar os afegãos. Como já tinha feito de 1996 a 2001, quando esteve no poder.

"O cinema é um meio potente para dar consciência às pessoas, para dar uma ideia de liberdade para elas, de como respeitar os outros", diz. "Nestes 20 anos desde o colapso do Taleban, o Afeganistão se tornou um país forte, com liberdade de expressão, e sabemos o valor disso. Isso é uma coisa perigosa para regimes totalitários e religiosos. É contrário à política deles."

O filme mais conhecido de Barmak, "Osama", retrata justamente a vida de uma garota afegã sob o regime do Taleban. Ela se disfarça de menino para poder trabalhar. Acaba recrutada para uma escola religiosa fundamentalista, onde é descoberta e punida pelos radicais. O longa --o primeiro totalmente gravado no Afeganistão desde a tomada da facção em 1996-- venceu um Globo de Ouro e causou comoção no mundo.

Começaram, então, as ameaças que fizeram o diretor deixar seu país. E isso quando as tropas estrangeiras ainda estavam por ali. "Cabul se tornou um lugar muito perigoso para mim e para a minha família, porque o Taleban podia aparecer a qualquer momento."

Barmak cita alguns exemplos de cineastas que seguem no Afeganistão e precisam de ajuda para deixá-lo. Um deles é Ahmad Zia Arash, de "The Bird Was Not a Bird" (2017), a história de um garoto que viaja ao Paquistão para aprender a ser homem-bomba. Outro exemplo é Mirwais Rekab, de "Kabul Cinema", sobre um rapaz que cria um cinema ambulante. No filme, o garoto é perseguido pelo Taleban --justamente o destino que os cineastas afegãos querem evitar.

Em comum, esses filmes denunciam as consequências nefastas do regime violento e fundamentalista do Taleban no Afeganistão. Louvam, por outro lado, as jornadas daqueles que conseguem desafiar os radicais, ainda que acabem punidos no fim.

Não está claro o que pode ser feito, neste momento, para evitar que o Taleban se vingue dos cineastas. Os EUA estão penando para retirar os milhares de tradutores que trabalharam com o país e, por isso, se tornaram alvo da organização radical. Não há sinal de que haja vontade política para retirar, também, os artistas.

Mas a carta de Barmak e Makhmalbaf tem ao menos circulado entre comunidades artísticas no mundo, entre produtores culturais que buscam uma maneira de amparar os cineastas. "Estamos tentando encontrar uma solução para ajudá-los", diz Barmak. "Os cineastas não sabem usar armas. Eles têm a câmera, a caneta, as palavras. Mas, agora, não sabem como se proteger."

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