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Cigarro contrabandeado reina em uma Venezuela falida

Javier TOVAR
·2 minuto de leitura
Jovem vende cigarros contrabandeados em Catia, um bairro pobre de Caracas

"Ibiza barato, barato!", grita um homem em Catia, bairro pobre de Caracas cheio de gente, onde comerciantes informais vendem cigarros que chegam à Venezuela contrabandeados e que, por custarem menos, invadem o mercado.

Um maço de Ibiza, a marca mais popular do contrabando, vale 1 dólar neste país com hiperinflação, sete anos de recessão e afetado por sanções econômicas.

Já os produtos da Bigott, pertencente ao grupo British American Tobacco, são vendidos por cerca de 2 dólares, mais do que o equivalente a um salário mínimo mensal.

Na Venezuela, sempre foi comum que os comerciantes ofereçam cigarros por unidade: abrem um maço e vendem cada um a cerca de 5 centavos de dólar no caso do Ibiza, e o dobro, no do Belmont, a marca mais popular da Bigott.

O contrabando se aprofundou com a crise.

"Quando você tem uma população dura (sem dinheiro)", o contrabando às vezes é "a única forma" de ter acesso a um produto, disse à AFP Felipe Capozzolo, presidente da Câmara de Comércio (Consecomercio).

Ele afirma que os comerciantes foram afetados por esta prática que anda de mãos dadas com o comércio informal.

- 15 cigarros em impostos -

O "boom" do contrabando atingiu o Tesouro, do qual o tabaco é um dos principais contribuintes, segundo o diretor jurídico da Bigott, Miguel Benzo.

Ele destaca que os cigarros vendidos por sua empresa têm uma carga tributária de 73%.

De acordo com um estudo financiado pela empresa, o consumo de cigarros contrabandeados cresceu por volta de 300% desde 2019 e abrange 30% do mercado venezuelano. O número chega a 80% em estados fronteiriços como Zulia, limítrofe com a Colômbia.

O consumo de cigarros de contrabando funciona como exemplo de uma economia informal que é o destaque de uma economia em crise.

Bigott estima que o Estado deixa de arrecadar 130 milhões de dólares ao ano em impostos, devido à venda informal deste produto prejudicial à saúde.

Benzo afirma que foram identificadas cerca de 130 marcas de contrabando.

Para competir com o contrabando, sua empresa lançou cigarros mais baratos no mercado, mas fechou um dos três turnos de operações de sua fábrica em Caracas, deixando 130 pessoas desempregadas. Sua compra de tabaco, toda de origem venezuelana, caiu de 6.000 toneladas em 2017 para 2.000 toneladas atualmente.

A venda de tabaco na Venezuela é tudo, menos clandestina. Com isso, as marcas legalizadas perdem espaço. Não acontece somente em bairros pobres, já que em quiosques de áreas nobres de Caracas as marcas de contrabando também convivem com as marcas legalizadas.

A AFP tentou ouvir o governo sobre suas políticas de combate ao contrabando, mas não obteve resposta.

jt/erc/mr/rsr/aa/tt