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Como a China tornou-se a capital global da inovação

Xangai, na China, é a capital financeira do país e principal lar dos maiores unicórnios asiáticos (Foto: Getty Images)

Por Matheus Mans

Quando se fala em ecossistema de inovação, o primeiro lugar que vem à mente é o Vale do Silício, nos Estados Unidos. No entanto, um país está avançando ferozmente para tentar tomar esse lugar: a China.

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Segundo o Instituto de Pesquisa Hurun, a China viu nascer 21 novos unicórnios — startups avaliadas em US$ 1 bilhão — apenas no primeiro trimestre de 2019. É quase o dobro da quantidade de startups criadas no país no mesmo período de 2018.

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Com esse crescimento, já são 202 unicórnios chineses. Para efeito de comparação, até agora, o Brasil há seis. Além disso, a China tem atraído capital de risco do mundo inteiro, ultrapassando a América do Norte no segundo trimestre de 2018. Neste período, investidores aportaram US$ 19,3 bilhões apenas em empresas asiáticas.

Assim, o país avançou três posições, em 2018, no Índice Global de Inovação. Saltou do 17º para o 14º lugar. E é a líder em qualidade de inovação entre as economias de renda média.

“O ocidente deixou de ver a China como um lugar de produtos de baixa qualidade. Hoje, só os dinossauros ainda têm essa visão”, afirma Evan Zeng, analista sênior da consultoria Gartner. “A maioria das pessoas respeita o ecossistema de inovação chinês”.

Os motivos para o crescimento da China

Segundo especialistas de mercado, são vários os motivos esse crescimento. O primeiro é o tamanho da população, de 1,3 bilhão de habitantes. “São 800 milhões de usuários de internet. É quatro vezes o tamanho do Brasil”, afirma Paula Gomes, coordenadora de Internacionalização da Apex Brasil. “Isso facilita a adesão de novos produtos de startups”.

Além disso, a China tem tomado caminhos que fortalecem a inovação de maneira mais direta. O governo fez do empreendedorismo um pilar educacional. As pessoas saem das escolas prontas para abrir seus próprios negócios, com conhecimento aprofundado em temas como finanças e responsabilidades.

Há também um olhar mais atento do governo chinês para o ecossistema de inovação como um todo. “O governo firmou um pacto com a população e colocou a inovação e o crescimento sustentável como alguns dos pilares”, diz Rafael Ribeiro, Diretor Executivo da Associação Brasileira de Startups. “Isso tem mudado a forma como o sistema é encarado”.

Jack Ma, CEO da Alibaba, tornou-se um dos principais investidores do movimento chinês de startups (Foto: Philippe Lopez/AFP/Getty Images)

Dentre as mudanças que foram sentidas, está uma menor burocracia para abertura e fechamento de empresas, maior incentivo do governo à entrada de empresas privadas no ecossistema e incentivos fiscais e trabalhistas. Isso deixa empresas mais à vontade para inovar e, na maioria dos casos, errar. E companhias privadas também passam a inovar.

“Quando o governo chinês instituiu seus pilares de crescimento, facilitou a inovação para todo mundo. Educação, governo, empresas privadas e startups começaram a caminhar para o mesmo lado”, explica Paula Gomes, da Apex Brasil.

Evan Zeng, da consultoria Gartner, ainda destaca que as particularidades do País dificultaram que empresas de fora trouxessem seus produtos para a população. Com isso, a China conseguiu desenvolver sua tecnologia de maneira independente. “Cultura, diferenças no mercado e regulação são algumas das barreiras locais no ecossistema chinês”, afirma.

Setorização

Os mais notórios unicórnios são empresas gigantescas como Alibaba, Huawei, Xiaomi e Tencent. Elas possuem presença global e transcenderam o termo de startup. “Agora é decacórnio. Ou seja: empresas que valem mais do que US$ 10 bilhões”, explica José Ricardo dos Santos Luz Júnior, CEO da LIDE China, grupo de empresários que realizam acordos entre o Brasil e o país asiático.

Bytedance, dona do Tik Tok, é uma das maiores startups da China - e já começa seus planos de expansão global (Foto: Chesnot/Getty Images)

No entanto, saindo dessas grandes empresas, quatro setores chamam a atenção de especialistas: inteligência artificial, logística, meios de pagamento e construção civil. Rafael Ribeiro, da ABStartups, acabou de passar 20 dias na China para estudar o ecossistema de inovação de lá. Segundo ele, esses setores estão passando por profunda transformação.

“As construtechs me impressionaram. Conseguem construir um prédio de 10 andares, com segurança, em menos de 24 horas”, afirma Ribeiro. “Além disso, está claro que as startups chinesas já conseguiram revolucionar o sistema de pagamento. Ninguém mais anda com dinheiro ou cartão de crédito. Tudo é pelo celular. Agora, o próximo passo das fintechs chinesas é possibilitar que as pessoas paguem por meio de um reconhecimento facial”.

Modelo de exportação

Ccomo trazer esse modelo para o Brasil? Para a coordenadora da Apex Brasil, é importante manter as devidas proporções. “A China é um ecossistema diferente, com uma população diferente, e de tamanho diferente do Brasil. Não é justo fazer uma comparação direta”, afirma. “É preciso pensar diferente aqui”.

No entanto, especialistas apontam alguns caminhos que podem ser seguidos, entre eles o aprendizado com o país asiático. O StartOut — programa de aceleração realizado por SEBRAE, APEX Brasil e Governo Federal — vai levar 20 startups brasileiras para um período em Xangai.

“A imersão pode mostrar ao empreendedor brasileiro o tipo de competição que ele enfrentará na internacionalização”, afirma Igor Manhães Nazareth, Subsecretário de Inovação do Ministério da Economia. “E, eventualmente, o tipo de concorrência que irá encontrar quando as startups estrangeiras começarem entrarem no nosso mercado”.

Além disso, é importante reduzir a burocracia e os processos para abertura e fechamento de empresas. “É preciso ter um modelo de burocracia mais solto. O que não significa, é claro, que seja relaxado”, afirma José Ricardo dos Santos Luz Júnior, CEO da LIDE China.

No entanto, Rafael Ribeiro destaca o principal ponto a ser transformado. “A gente não vai conseguir alcançar a China enquanto eles levam um dia pra construir um prédio e a gente leva dois anos para fazer uma escola no interior”, diz. “Enquanto não entendermos que inovação e educação andam juntos, não vai adiantar. Isso é a base pro nosso crescimento.”