Mercado fechado
  • BOVESPA

    115.202,23
    +2.512,05 (+2,23%)
     
  • MERVAL

    38.390,84
    +233,89 (+0,61%)
     
  • MXX

    46.342,54
    +338,35 (+0,74%)
     
  • PETROLEO CRU

    66,28
    +2,45 (+3,84%)
     
  • OURO

    1.698,20
    -2,50 (-0,15%)
     
  • BTC-USD

    50.552,06
    +3.022,85 (+6,36%)
     
  • CMC Crypto 200

    982,93
    +39,75 (+4,21%)
     
  • S&P500

    3.841,94
    +73,47 (+1,95%)
     
  • DOW JONES

    31.496,30
    +572,16 (+1,85%)
     
  • FTSE

    6.630,52
    -20,36 (-0,31%)
     
  • HANG SENG

    29.098,29
    -138,50 (-0,47%)
     
  • NIKKEI

    28.864,32
    -65,78 (-0,23%)
     
  • NASDAQ

    12.652,50
    +197,50 (+1,59%)
     
  • BATS 1000 Index

    0,0000
    0,0000 (0,00%)
     
  • EURO/R$

    6,7780
    -0,0079 (-0,12%)
     

Chicletes com leite condensado levam Bolsonaro à congestão

Matheus Pichonelli
·5 minuto de leitura
Brazil's President Jair Bolsonaro reacts during the Thanksgiving ceremony, at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil, December 16, 2020. REUTERS/Ueslei Marcelino
O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

A crônica política brasileira é recheada de excentricidades.

Fernando Collor de Mello não caiu por causa do Fiat Elba, mas é do Fiat Elba que todos se lembram quando instigados a descrever de cabeça, ou em 280 caracteres, a sinopse de sua passagem pelo Palácio do Planalto.

No encurtamento das histórias mal contadas, Luiz Inácio Lula da Silva trocou oito anos de governo e aprovação popular superior a 80% por um tríplex que visitou no Guarujá e nunca morou.

Poucos conseguem ligar lé com cré quando falam sobre pedaladas e Dilma Rousseff, mas o impulso ao pedal, materializado na imagem dos exercícios matinais da presidenta, é a primeira palavra que vem à cabeça quando se fala de sua queda.

Dólares na cueca, mala de dinheiro na pizzaria, conversas sobre o preço do silêncio com dono de frigorífico, tapioca com cartão corporativo: antes da gravidade dos fatos, a simbologia da ação é o que detona a atenção e os fragmentos de memória nos espectadores mais sonolentos da cena política.

Jair Bolsonaro surfou em cada um desses escândalos para dizer que era diferente de tudo isso que está aí.

Seu passado (ainda) não o condena, mas lança justa suspeita em episódios envolvendo rachadinhas e outros nomes e apelidos bonitos ao que, no varejo, se resumem à velha e má corrupção.

Leia também:

Em parte pelo capital político de quem foi eleito outro dia mesmo com 57,7 milhões de votos, em parte pela abstração de quem não consegue colocar no mesmo sítio as andanças de um suposto operador por Rio das Pedras, Alerj, Atibaia e interior da Bahia, onde um amigo foi morto em emboscada, Bolsonaro cruzou a metade do mandato relativamente distante, ao menos na cabeça de seus apoiadores, dos escândalos mais facilmente traduzíveis ao grande público. Com certa habilidade, ele conseguiu se desviar, diante do grosso da população, das laranjas de seu (agora) ex-ministro do Turismo, das acusações de interferência na PF levantadas por Sergio Moro, das rotas de um voo oficial recheado de cocaína para a Espanha e até de um edital pra lá de suspeito para levar laptops ao ensino público --não fosse a Controladoria Geral da União, cada aluno de uma escola em Minas Gerais receberia 117 notebooks.

Até hoje, como não cansa de lembrar Elio Gaspari em suas colunas, ninguém sabe como o jabuti, removido a tempo de ser detonado como escândalo, foi parar ali.

Na pandemia, as compras notadamente precipitadas em escala injustificável de cloroquina não parecem tirar da letargia o cidadão meio de olho/meio alheio às notícias do Planalto. Com sua lábia, Bolsonaro conseguiu jogar para o limbo a gravidade do caso argumentando que não existe comprovação científica dos benefícios do medicamento no chamado tratamento precoce do coronavírus, mas também não há prova em contrário. Aceitar ou não o argumento é questão de fé, embora não seja suficiente para livrar o presidente da alçada das cortes superiores onde pode ser julgado por ações e omissões.

Aos poucos, porém, a fama de mito incorruptível vendida em campanha começa a fazer água. Muitos começam a perceber que o herói tem pés de lata.

No começo da semana, um caminhão de leite condensado estacionou ao redor do presidente que gosta de atolar a iguaria em seu pão no café da manhã, numa imagem que encheu de lágrimas os olhos de quem via em sua mesa matinal um exemplo de homem humilde com hábitos alimentares estranhos, porém frugais.

Nas redes, os gastos de R$ 15 milhões com um produto aparentemente supérfluo (ao menos até que alguém venha a público esclarecer a urgência nas compras) virou assunto, meme e descambou em pedido de investigação por parte da oposição. Era bola quicando demais para não ser chutada.

Mesmo se tratando de compras governamentais ao longo do ano, e que poderiam ser mais bem dimensionado à luz de alguma comparação histórica e um pouco mais de contexto, as buscas pela tag “leite condensado” e “bolsonaro” explodiram. Competiam apenas com a palavra “chiclete”, outro item do carrinho de supermercado que custou 2 milhões aos cofres públicos.

Até quem não consegue fazer bola com goma de mascar sabe, ou deveria saber, que esse carregamento não chegou de caminhão à porta do Alvorada para alguma festa de fim de ano promovida pelo presidente, mas do mesmo modo que o eleitor ligava, em meio a tantos ruídos noticiosos, o dinheiro que sobrava ao cafofo do ex-ministro Geddel Vieira Lima à grana que faltava em seu bolso no auge da crise, é inevitável pensar que no país onde falta oxigênio hospitalar tenha sobrado dinheiro para o governo comprar chicletes e leite condensado.

Ao longo do dia, curiosos e espíritos investigativos de plantão publicaram o resultado de suas contas relacionadas ao preço médio e o número de itens de terceira, quarta ou quinta necessidades distribuídas em 2020, ano marcado pelo coronavírus e pelo tombo na economia.

Fossem outros tempos, Bolsonaro e seu gabinete do ódio não pensariam duas vezes em fazer correr nas redes e grupos de WhatsApp das melhores famílias todo tipo de conteúdo relacionado à gula alimentícia e desviante dos adversários. Mamadeira com bico de pênis não teria tanto apelo quanto a montanha de latas de leite condensado e chicletes adquiridos em sua gestão.

Tirando uma nota aqui e outra ali, o assunto da compra governamental foi ignorado pelos jornais até o momento. Nas redes, porém, virou o ingrediente perfeito para colar em Bolsonaro uma fama que nem as compras suspeitas da área da Saúde conseguiram colar. É como se finalmente o capitão que infantiliza o debate público com fantasmas relacionados a kit gay e outras mamadeiras experimentasse seu próprio veneno --um pouco mais adocicado, mas ainda assim com potencial destrutivo em tempos de reputação construída e desconstruída pelas redes.

O silêncio constrangedor das primeiras horas e o repentino apagão do portal da Transparência do governo, que chegou a ficar fora do ar no auge da comoção, são ingredientes a mais na congestão que o governo, ao menos até agora, não sabe como debelar.

Já são quase 220 mil mortos na pandemia.