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Chegada de milhares de menores desacompanhados aos EUA é primeiro desafio de Biden na fronteira

Laura BONILLA
·3 minuto de leitura

A chegada de milhares de menores sem documentos aos Estados Unidos pela fronteira sul coloca o governo de Joe Biden sob o risco de uma crise numa das regiões politicamente mais sensíveis do país.

O presidente democrata assumiu o cargo com a promessa de uma política migratória mais humana que a de seu antecessor, Donald Trump, mas, para alguns defensores dos imigrantes, as próprias decisões de Biden contribuem em parte para o aumento da chegada de menores desacompanhados.

Aplicando uma normativa aprovada por Trump devido à pandemia, o governo Biden está deportando a maioria dos imigrantes sem papéis detidos na fronteira, originários, principalmente, da América Central. Mas Biden, ao contrário de Trump, decidiu não expulsar os menores que chegam desacompanhados fugindo da violência e miséria, os quais lotam os abrigos, que estão com a capacidade reduzida devido à pandemia.

- 'Crise em formação' -

É uma crise em formação, advertem ativistas, segundo os quais aceitar apenas os menores que chegam sozinhos leva muitos pais a se separarem dos filhos, às vezes para sempre, e a enviá-los a uma viagem extremamente perigosa. Além disso, após a chegada aos Estados Unidos, crianças e jovens podem passar um longo tempo em centros de detenção, onde podem ser vítimas de abusos, alertam.

"As políticas de Trump a Biden são as causadoras do que está acontecendo. Muitas de nossas políticas fronteiriças colocam os pais em uma posição na qual sua única opção é enviar o filho sozinho para que fique seguro" nos Estados Unidos", opina a advogada Allegra Love, do Santa Fe Dreamers Project, que oferece serviços legais gratuitos a imigrantes.

A maioria dos menores que chegam sozinhos, alguns de apenas 6 anos, têm que cumprir uma quarentena de 10 dias e, após dois testes de Covid-19 negativos, ficam detidos em outras instalações do país enquanto autoridades tentam localizar seus parentes nos Estados Unidos. A estadia nesses centros, onde já foram denunciados abusos, pode se prolongar por meses.

"As autoridades estão gerando uma crise e colocando os menores numa situação em que eles certamente serão prejudicados e ficarão traumatizados", alerta Joshua Rubin, ativista da organização Witness at the Border (Testemunha na Fronteira).

O governo Biden prefere não falar em crise. "É um desafio estressante. Esse é, francamente, o motivo pelo qual estamos trabalhando tão duro", declarou esta semana o secretário de Segurança Interior, Alejandro Mayorkas.

"O governo está em uma posição nada invejável" e é criticado por todos os lados, comenta a advogada Jennifer Podkul, da organização Kids in Need of Defense (KIND), que trabalhou na fronteira. "É muito duro, tem que começar do zero. Trump destruiu o sistema de proteção de imigrantes nos Estados Unidos, e o governo Biden não começa de um ponto neutro, e sim com um déficit."

- 'Experiência terríveis' -

Os menores que viajam sozinhos "são alvo de exploração sexual, prostituição e trabalho forçado. Muitos têm experiências terríveis e fogem de narcotraficantes e quadrilhas", conta Belinda Bradford, vice-diretora do Good Neighbor Settlement House, abrigo que alimenta e auxilia famílias que solicitam asilo em Bronxville, Texas, em frente à cidade mexicana de Matamoros.

O governo Biden reabriu recentemente em Carrizo Springs, Texas, um abrigo temporário para alojar cerca de 700 imigrantes adolescentes, e planeja a reabertura de outro, ainda maior, em Homestead, Flórida, diz Joshua Rubin. "Nossa esperança é de que não permaneçam abertos por muito tempo", disse Biden na semana passada, em entrevista ao canal Univisión.

A cifra total de imigrantes sem papéis que chegam à fronteira passou a cair em meados de 2019, quando Trump aprovou medidas para impedir a entrada dos mesmos nos Estados Unidos. Mas o número voltou a crescer em abril passado. Em janeiro, mais de 5,8 mil menores desacompanhados foram detidos pela patrulha fronteiriça.

A cifra, no entanto, não supera os níveis dos governos Trump ou Barack Obama. Em maio de 2019, por exemplo, um recorde de 11 mil menores entraram no país. "Não acredito que a chegada de imigrantes vá terminar", estimou Belinda Bradford. "Durante séculos, os Estados Unidos têm sido uma terra de oportunidades, de recomeços."

lbc/gm/lb