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Chatbots médicos são nova aposta de startups

Foto: Getty Images

Por Matheus Mans

Depois de algumas formalidades iniciais, a conversa no aplicativo de saúde Vitalk evolui rapidamente. Na tela, pipocam diversas perguntas sobre bem-estar, saúde e cuidado psicológico e, em seguida, sugestões para ter uma vida melhor começam a ser compartilhadas, como métodos de relaxamento e meios de encarar ansiedade e depressão.

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O app é a principal plataforma de inteligência artificial da startup brasileira TNH Health. Quem faz as perguntas e está “do outro lado” é uma máquina, desenvolvida e programada pela startup para dar conselhos e fazer o primeiro contato com o paciente.

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“A Vic, que é o nome da nossa robô, começa com vários instrumentos clínicos para determinar níveis de risco em saúde mental. Qual o nível de depressão, ansiedade, burnout, uso de drogas e álcool?”, explica Michael Kapp, CEO da startup. “Depois, você segue com algumas linhas de cuidado com o robô. Caso precise, pode acionar um médico humano”.

Esta não é a primeira e nem será a última experiência da TNH Health com uma tecnologia do tipo. A empresa, nos últimos anos, está focada em desenvolver chatbots médicos. Dentre outros, já fez sistemas que conversam e encaminham pacientes, em um primeiro momento, com problemas bem específicos, como leptospirose e mortalidade infantil. 

Nesse esquema, já atingiu cerca de 500 mil pessoas com parcerias firmadas com governos e prefeituras. A cidade de Marechal Deodoro, em Alagoas, usou os serviços duas vezes.

Agora, a startup encontrou na Vitalk, focada em saúde mental, uma forma de “entrar na conversa” sobre saúde com os pacientes. Segundo Kapp, a partir de conversas sobre as questões mentais do paciente, pode-se avançar para dores físicas. “São coisas que, muitas vezes, estão conectadas”, diz o executivo. “A Vic será a nossa porta de entrada médica”.

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Apesar de parecer algo futurista ou até mesmo fora da normalidade, as consultas e as terapias digitais estão cada vez mais comuns. Várias startups ao redor do país — e do mundo — estão olhando para o ambiente digital como uma forma de agilizar tratamentos, incluir pessoas e, principalmente, facilitar o primeiro contato e o primeiro diagnóstico.

Michael Kapp, CEO da TNH Health (Foto: Divulgação)

No Brasil, algumas outras empresas começam a experimentar o ambiente digital. A Hisnëk, por exemplo, saiu da área de clube de assinatura saudável para desenvolver um robô que faz acompanhamento psicológico em empresas. Outras startups, enquanto isso, fornecem o consultório digital para que pacientes entrem em contato rapidamente com seus médicos.

O mercado de chatbots, porém, ainda é incipiente. A TNH Health é uma das poucas que apostam no formato direcionado para o usuário final por meio de um aplicativo. Mas é algo que tende a crescer. No Reino Unido, mesmo após protestos, o sistema de saúde público firmou parceria com startups que fazem atendimento primário via inteligência artificial.

Além disso, há redução de gastos com atendimento primário via chatbot. Segundo estudo da Juniper Research, a economia de custo anual decorrente da adoção de chatbots nos cuidados com a saúde deverá atingir a marca de até US$ 3,6 bilhões globalmente em 2022.

A ideia geral, assim, é que os chatbots não substituam o tratamento feito na vida real, com médicos e psicólogos. O objetivo é que a inteligência artificial seja apenas o contato fixo das pessoas com o mundo da saúde. O chatbot, dessa maneira, poderá fazer um acompanhamento de perto. Caso algo saia da normalidade, avisa o médico do usuário.

“As pessoas não possuem o costume de manter um acompanhamento médico ou psicológico, muitas vezes por conta do preço”, afirma Kapp. “Chatbots reduzem esse gasto e facilitam o contato entre pacientes e comunidade médica. A ideia, assim, é sermos uma ligação entre as partes e encaminharmos a pessoa já com um diagnóstico inicial”.

Regulamentação

A regulação do setor é “complicada”, segundo fontes consultadas pela reportagem. Não há regras específicas para chatbots em normas do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e do Conselho Federal de Medicina (CFM) — ainda que elas tenham sido atualizadas no final de 2019 para tratamentos e consultas digitais. Elas, também, não proíbem o acompanhamento.

“São tantas coisas que precisam ser discutidas”, afirma, aos risos, a professora Edna Kalazans, professora de psicologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “O CFP atualizou normas de atendimento digital, algo que precisava ter sido feito há séculos. E ignorou novas tecnologias. Agora, de novo, a inovação irá à frente da legislação”.

No âmbito da medicina, o assunto é ainda mais polêmico. No começo de 2019, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou a norma 2.227/2018, que regulariza o exercício de medicina via meios digitais. Mas foi revogada dias depois após protestos de parte da comunidade médica, o que fez uma norma de 2002 voltar à ativa. Atualização só em 2020.

“Muitas startups estão segurando a ida para atendimento digital de medicina por conta desse entrave burocrático”, avalia o pesquisador em direito médico, Júlio Souza. “Acabam se dedicando ao tratamento psicológico, que permite esse acompanhamento e esse suporte digital. O fato é que muita coisa ainda vai acontecer. Mas será difícil parar essa inovação”.