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Charlie Hebdo volta a publicar caricaturas de Maomé

Frédéric POUCHOT
·3 minutos de leitura
As vítimas do atentado do Charlie Hebdo pintadas pelo artista Christian Guemy, conhecido como C215, em um muro de Paris em 31 de agosto de 2020
As vítimas do atentado do Charlie Hebdo pintadas pelo artista Christian Guemy, conhecido como C215, em um muro de Paris em 31 de agosto de 2020

O semanário francês Charlie Hebdo voltou a publicar as caricaturas de Maomé que transformaram sua redação em alvo de um atentado jihadista, assegurando que "nunca" se renderá, na véspera do início do julgamento pelo ataque de 2015.

"O ódio que nos atingiu ainda está aí e, desde 2015, teve tempo de se transformar, de mudar de aspecto para passar despercebido e continuar sem ruído sua cruzada implacável”, disse Riss, diretor da publicação satírica, em uma edição cuja capa retoma as caricaturas.

A edição foi liberada nesta terça-feira na internet e chega às bancas na quarta-feira.

Diante do ódio e medo que gera, "nunca nos renderemos, nunca renunciaremos", completou.

As 12 caricaturas de Maomé foram publicadas inicialmente pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten em 30 de setembro de 2005 e depois pelo Charlie Hebdo em 2006.

Os desenhos mostram o profeta com uma bomba na cabeça, ao invés de um turbante, ou armado com uma faca, ao lado de duas mulheres com véu.

Além das caricaturas dinamarquesas, a capa da nova edição do Charlie Hebdo, com o título "Tudo isto por isso", também reproduz a charge do profeta feita pelo chargista Cabu, assassinado no atentado de 7 de janeiro de 2015.

"Desde janeiro de 2015 recebemos com frequência pedidos para produzir outras caricaturas de Maomé. Sempre recusamos, não porque é proibido, a lei autoriza, e sim porque era necessário ter uma boa razão para fazê-lo, uma razão que faça sentido e que aporte algo ao debate", explica o semanário em um editorial.

- Uma publicação "indispensável" -

"Reproduzir estas caricaturas na semana de abertura do processo dos atentados de janeiro de 2015 nos pareceu indispensável", completa a equipe do Charlie Hebdo, que considera os desenhos "elementos de prova" para seus leitores e para o conjunto dos cidadãos.

O julgamento do atentado jihadista contra o Charlie Hebdo, que deixou 12 mortos e que foi seguido poucos dias depois por ataques contra uma policial e um supermercado de alimentos judaicos, começará na quarta-feira e deve prosseguir até 10 de novembro para sentenciar 14 acusados.

A decisão do Charlie Hebdo de voltar a publicar os desenhos, justamente na véspera da abertura do julgamento histórico, provocou muitas reações.

Depois da publicação inicial na Dinamarca, as caricaturas provocaram manifestações violentas em vários países muçulmanos e sua divulgação na revista francesa foi muito criticada.

A representação dos profetas é estritamente proibida pelo islã sunita e ridicularizar ou insultar o profeta Maomé pode resultar em pena de morte.

O presidente do Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM), Mohammed Moussaoui, pediu para que as pessoas "ignorem" as caricaturas e pensem nas vítimas do terrorismo.

"Nada pode justificar a violência", disse Moussaoui, que pediu uma concentração no processo.

"Nós aprendemos a ignorar as caricaturas e pedimos para que todos mantenham esta atitude em qualquer circunstância", disse à AFP.

O Paquistão, por sua vez, condenou a decisão do Charlie Hebdo "com a maior firmeza". "Um ato deliberado desse tipo com o objetivo de ferir os sentimentos de bilhões de muçulmanos não pode ser justificado como um exercício de liberdade de imprensa ou liberdade de expressão", disse o Ministério das Relações Exteriores do país muçulmano no Twitter.

De Beirute, o presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu a "liberdade de blasfemar" e criticar na França, afirmando não ser dever seu classificar as decisões editoriais dos jornalistas.

Macron, porém, lembrou que "com a liberdade de expressão, vem também o direito a não promover discursos de ódio", uma referência às redes sociais, e não às caricaturas do Charlie Hebdo.

Vários integrantes da redação do Charlie Hebdo morreram no atentado, incluindo os desenhistas Cabu, Charb, Honoré, Tignous e Wolinski, o que provocou um movimento de apoio sem precedentes a favor do semanário satírico, na França e no exterior.

A última caricatura de Maomé publicada pela revista apareceu na capa da primeira edição após o atentado. O desenho mostrava um Maomé com uma lágrima no rosto e um cartaz com a frase "Eu sou Charlie". Acima do profeta, a mensagem "Está tudo perdoado".

fpo/sr/rh/jg/pz/pc/mis/fp/cc