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Cervejas defendem protagonismo negro, feminismo e produção democrática

Carolina Ribeiro
·3 minuto de leitura

Em 2015, o destino das férias da professora de Filosofia e Literatura Leinimar Pires, de 41 anos, foi a cozinha de sua casa, no Riachuelo. “Meu ex-companheiro deu a ideia (e eu adorei) de fazer uma cerveja artesanal”, lembra. “Fizemos uma receita superboa e decidi criar um coletivo feminista para produzir a bebida.” Assim borbulhou a Cerveja da Mulher Guerreira, que cresceu e hoje tem quatro rótulos. “Falo de guerreira não no sentido de mulheres que venceram e sim de pessoas que lutam”, explica Leinimar, que fez um curso on-line de “beer expert” na quarentena.

Na prática, o coletivo tem dez integrantes que se dividem entre todas as etapas da confecção caseira de 30 litros da bebida por semana — dos tipos red ale, blond ale, ipa e stout. Não é um hobby nem uma forma de sobrevivência. “Uma fala comum que me irrita é: ‘Que incrível que têm mulheres fazendo cerveja’. O que estamos fazendo é uma reapropriação desse lugar. As primeiras cervejas da História foram produzidas na Mesopotâmia há seis mil anos e têm as mulheres como protagonistas”, defende a microempreendedora que, em 2017, se juntou a uma corrente ainda maior, o Coletivo de Cervejarias Artesanais Populares do Rio de Janeiro.

Articulado pelo professor de Biologia Felipe Lima, de 35 anos, o grupo tem como meta a “desgourmetização da cerveja” e a democratização do acesso — desde o preço da garrafa até o ensino dos processos de fermentação e produção. “O universo cervejeiro é um meio masculino e elitizado. Com todo respeito às associações de cervejas artesanais, nós não estamos fazendo algo revolucionário. Nossa proposta é mostrar que qualquer um, com o domínio da técnica, é capaz de produzir a própria”, simplifica Felipe, que comanda oficinas gratuitas de fermentação na Cinelândia (interrompidas em função da pandemia). À frente da Queer Beer, que tem sua base em Macaé de Cima, ele faz também uma crítica ao sistema de legalização das embalagens. “A burocratização inviabiliza o trabalho do pequeno produtor”. A escapatória é produzir em pequena escala e por encomendas para amigos ou eventos fechados. “Não podemos comercializar nossas cervejas em prateleiras de supermercados e a vantagem disso é que, além de termos uma relação de proximidade com o consumidor, o nosso produto é sempre fresco”, diz Felipe.

Remam no mesmo barco as cervejas Sem Rótulo, produzida pelo casal Rejane Annunciação, de 46, e Luciene Pereira, de 43, do Morro da Babilônia; Subversiva, preparada por mulheres do Movimento Sem Terra; e Caetés, feita numa cozinha industrial comunitária na Maré. “Fizemos uma vaquinha para montar o espaço. A gente ainda não tinha um fogão profissional quando produziu a nossa primeira cerveja, então brinco que é como se você estivesse operando uma panela de pressão. Primeiro, sente medo e depois, domina”, compara Geandra Nobre, de 37.

A Cerveja Caetés é um dos braços do Coletivo Roça, formado por quatro mulheres e dois homens, que se empenha em levar produtos orgânicos (vendidos numa lojinha de rua) para os moradores da comunidade. “Moro na Maré desde que nasci. Sou uma consumidora da região e é muito impactante quando a gente reflete sobre o acesso aos alimentos, sobretudo a padronização alimentar dos supermercados”, observa Geandra, também atriz, que produz 240 mil litros de cerveja, de oito tipos, por mês. “A gente não é um coletivo cervejeiro e sim um coletivo que produz cerveja. Sabemos quem faz e consome os nossos produtos, e nos sentimos responsáveis, inclusive, pelo consumo consciente de álcool.”