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CEO da Petrobras não planeja deixar empresa por pressões de Bolsonaro, dizem fontes

Rodrigo Viga Gaier e Marta Nogueira
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Roberto Castello Branco

Por Rodrigo Viga Gaier e Marta Nogueira

SÃO PAULO (Reuters) - O presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, não pretende pedir demissão da companhia, apesar de pressões do presidente Jair Bolsonaro devido a questões relacionadas a aumentos dos combustíveis, disseram três fontes com conhecimento direto do assunto à Reuters, nesta sexta-feira.

"Não vai ceder e não pretende sair", disse uma das fontes, sob a condição de anonimato, referindo-se a Castello Branco.

"Já houve um tempo em que o conselho (de administração da empresa) era pró-governo, e agora é independente", acrescentou a fonte, argumentando que o CEO tem apoio para continuar na empresa.

De acordo com o estatuto da Petrobras, compete ao conselho de administração a eleição e a destituição de membros da Diretoria Executiva.

Nesta sexta-feira, Bolsonaro reiterou que mudanças serão feitas na Petrobras, sem dar detalhes, após longos comentários sobre o assunto na véspera que incluíram críticas a reajustes de preços da estatal.

Acompanhando uma alta das cotações internacionais do petróleo, a Petrobras já reajustou o preço do diesel em mais de 27% no acumulado do ano, enquanto a gasolina nas refinarias da empresa subiu 35%.

Nesta sexta-feira, Bolsonaro afirmou que "jamais" vai interferir na estatal, mas reclamou novamente que "o povo não pode ser surpreendido" com os reajustes nos combustíveis.

Quando fala sobre o tema, o presidente busca acenar especialmente aos caminhoneiros, que formam importante base de apoio, e vez ou outra ameaçam com greves.

Os comentários do Bolsonaro vieram após o anúncio na quinta-feira pela Petrobras de que a empresa elevará em cerca de 15% o preço médio do diesel nas refinarias e em mais de 10% o da gasolina, a partir desta sexta-feira.

Enquanto isso, as ações da Petrobras ampliaram as perdas iniciais e caíam mais de 6% nesta sexta, no caso das preferenciais, enquanto o papel ON recuava mais de 7%, com o mercado temendo que a empresa perca a sua independência na política de preços. O Ibovespa perdia 0,6%, por volta das 15h.

SEM PEDIDO

Ainda não houve um pedido de demissão do presidente da Petrobras, apenas ameaças públicas, segundo uma fonte próxima do assunto, que acrescentou que o conselho decidiria sobre o tema se houvesse uma carta do ministro de Minas e Energia Bento Albuquerque nesse sentido.

"(Nesse cenário hipotético) o conselho teria que analisar esse fato e decidir se aceita isso ou não", disse a fonte.

O colegiado de conselheiros da Petrobras é composto por 11 membros, sendo que sete são indicados pelo acionista controlador --incluindo Castello Branco. Três são representantes dos minoritários e um representa os funcionários, de acordo com informações do site da empresa.

CONSEQUÊNCIA

O estopim para a crise se deu na véspera, quando Bolsonaro afirmou em transmissão pelas redes sociais que "obviamente" vai ter consequência a fala do presidente da Petrobras, que dias atrás havia dito que a ameaça de greve de caminhoneiros não era problema da estatal.

Bolsonaro anunciou ainda na noite de quinta-feira que vai zerar em definitivo os impostos federais sobre o gás de cozinha e por dois meses os que incidem sobre o diesel, neste caso, com o objetivo de "contrabalançar" o reajuste que considerou "excessivo" da Petrobras.

Em meio a uma alta dos preços do petróleo, o reajuste foi o segundo anunciado para ambos os combustíveis em fevereiro, depois de a petroleira estatal ter sofrido com temores do mercado sobre possíveis interferências políticas na sua prática de preços.

Após uma reunião convocada por Bolsonaro no início do mês para discutir combustíveis, Castello Branco disse que o presidente nunca interferiu em políticas de preços da empresa.

Desde então, a estatal tem buscado reforçar que sua política segue alinhada aos preços internacionais e outros parâmetros de mercado e é fundamental para garantir que o mercado siga sendo suprido sem riscos de desabastecimento pelos diferentes atores responsáveis pelo atendimento às diversas regiões brasileiras.

A isenção de impostos é mais um dos acenos que o governo tem feito aos caminhoneiros, uma categoria que vem sendo contemplada com decisões favoráveis do presidente. Integrantes da categoria ameaçaram com uma greve no início do mês, mas o movimento não ganhou adesão para parar o transporte e rodovias.

Bolsonaro também defendeu novamente na véspera a aprovação de um projeto, enviado pelo governo ao Congresso na semana passada, que tem por objetivo reduzir a volatilidade na alíquota do ICMS que incide sobre combustíveis.

Ele ainda disse que o governo prepara um decreto para obrigar os postos de combustíveis a divulgar qual o percentual de custos de cada um dos tributos na composição do insumo para venda ao consumidor.

A decisão do aumento de preços da Petrobras, de outro lado, foi bem recebida pelo mercado, com especialistas dizendo que o reajuste levou os valores de volta ou para perto da paridade de importação, o que evitaria perdas para a companhia.