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Por que o Brasil tem tantas startups de educação

Lucas Gomes, cofundador da Quero Educação (Foto: Divulgação)

por Matheus Mans

De acordo com dados da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), há mais de 300 edtechs espalhadas em 25 dos 26 estados brasileiros — só Tocantins não tem uma startup de educação para chamar de sua. Mas qual o motivo dessa explosão de edtechs pelo Brasil? Há uma vocação no País para a tecnologia de educação?

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Segundo Leo Gmeiner, diretor do comitê da categoria na ABStartups, é uma onda global que chegou ao Brasil. “Não é uma vocação brasileira, mas é algo visto globalmente”, disse o analista, que também é fundador da startup Filho sem Fila, para facilitar o embarque e desembarque de crianças na escola. “São mais de 15 mil edtechs no mundo todo”, afirma.

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Ainda que não seja uma qualidade verde e amarela, há de se destacar o alcance das startups de educação no país. Só este setor representa 7,8% das startups brasileiras, avançando num ritmo de crescimento de 20% ao ano. É um mercado enorme só no Brasil.

Motivos para o crescimento

Para todos os executivos consultados pela reportagem sobre o cenário de edtechs no país, há uma indicação unânime: é um mercado que apresenta potencial por conta das deficiências e do tamanho do setor.

A startup Agenda Edu, por exemplo, nasceu no Ceará em 2014. O objetivo da empresa é fornecer um app de gestão que auxilia escolas, universidades e cursos a organizar compromissos, boletins, lista de presença, dentre outros. Com cinco anos no mercado, a empresa já conta com um alcance de 1,5 mil escolas e 1 milhão de usuários em todo País.

“Se formos fazer uma comparação, a educação brasileira é uma caixa de Pandora. Ou quase isso. Afinal, são problemas que surgem e que nem surpreendem mais”, afirma Anderson Morais, CEO e fundador da startup. “Por isso, é tão natural que surjam startups e empreendedores dispostos a mudar esse cenário. Há vontade de ter inovação no setor”.

Além disso, há o tamanho do mercado de escolas particulares: 87,9% das quase 2,5 mil instituições de ensino superior no Brasil são privadas, segundo dados divulgados pelo Ministério da Educação. No ensino básico, 21,7% das instituições são de grupos privados.

A Quero Educação é uma startup que cresce de olho nesses números. A empresa é uma plataforma de marketplace educacional que, por meio do site Quero Bolsa, conecta alunos com instituições de ensino particulares que ofereçam descontos em suas mensalidades. Já são 6 mil instituições cadastradas e mais de 500 mil alunos matriculados pela plataforma.

“Nós começamos a trabalhar no mercado de educação em 2010. De lá pra cá, muita coisa mudou. Mas principalmente o papel do governo na educação”, explica Lucas Gomes, cofundador da startup. “Agora, a situação acabou exigindo um protagonismo maior do setor privado e estamos trabalhando para fazer a conexão entre instituições e possíveis alunos”.

Além da gestão

Ainda de acordo com o levantamento da ABStartups, 47% das edtechs brasileiras atuam no setor de educação básica. Quanto à especialização, 58% trabalham com sistemas de gerenciamento educacional e de conteúdo. O restante fica dividido em pequenas parcelas de educação corporativa, ensino de idiomas, jogos educativos, plataformas adaptativas, etc.

A perspectiva de analistas é que o setor continue a crescer, ganhando tamanho em outras frentes que não são trabalhadas hoje. “O Brasil cria muitas possibilidades. Acredito que as edtechs vão crescer ainda mais, em segmentos que se complementam”, afirma Leo Gmeiner, do comitê de edtechs da ABStartups. “O mercado vai se consolidar em breve”.

Um setor que chama a atenção, e que deve ganhar ainda mais corpo, é o da educação corporativa. Hoje, só representa 8% das edtechs no País, mas já tem alguns casos de sucesso interessantes. É o caso da Witseed, startup com uma plataforma para empresas que compram a licença de uso. É por ali que são oferecidos cursos diversos e contínuos.

A startup já tem um alcance de 6 mil funcionários e conta com 30 clientes — dentre eles, empresas como Natura, Gerdau, Saint-Gobain, Braskem, Sabesp, Vale e Grupo Fleury.

“Somos uma plataforma de desenvolvimento educacional e profissional. Uma universidade corporativa perpétua. Queremos causar um impacto grande na educação, no mercado corporativo e também no setor público”, contextualiza Miguel Fernandes, cofundador da startup, que oferece cursos como automação, inteligência artificial e transformação digital.

A Qranio, enquanto isso, trabalha com a área de jogos educacionais. Num modelo parecido com o do Duolingo, a empresa traz questões sobre diversos assuntos para o usuário. Ele, por sua vez, ganha moedas a serem trocadas por recompensas dentro do app. Hoje, a startup também atua no setor corporativo, com capacitação e treinamento gamificado.

Para Samir Iásbeck, CEO e fundador do Qranio, a graça das edtechs é essa imensa diversidade entre elas. “Quando falamos em educação, podemos estar lidando com bebês ou com pessoas depois da faculdade. Cada um tem um desafio e um tipo de conteúdo que pode originar novas startups”, diz o empreendedor. “É impossível unificar esse setor”.

Por fim, ressalta a importância da releitura do mercado. “A tecnologia fica à frente da educação. As escolas distribuem tablets, mas não sabem o que fazer”, ressalta o empreendedor. “O professor, neste momento, vai ter um papel de facilitador na jornada do aprendizado e de mentor do conhecimento disponível, que é enorme, mas desorganizado”.