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Cautela com pandemia intensifica busca por proteção do dólar

Lucas Hirata

O solavanco na reabertura econômica da Califórnia – maior Estado do país em termos de contribuição para o PIB americano – intensificou a busca por proteção do dólar em um dia que as moedas latino-americanas já sofriam com uma certa cautela. O anúncio de novas medidas de restrição devido ao aumento de casos da covid-19 adiciona incertezas sobre o ritmo de recuperação econômica dos Estados Unidos, levando ao tombo de ativos de risco.

Por aqui, o dólar comercial fechou em alta de 1,28%, aos R$ 5,3890, bem próximo da máxima no dia, de R$ 5,3925. Como resultado, o real teve um dos piores desempenhos da sessão numa lista das principais divisas globais, com uma perda bem próxima a do peso mexicano, que viu o dólar se valorizar cerca de 1,40% no fim da tarde.

O nervosismo tomou conta do mercado depois que o governador da Califórnia, Gavin Newsom, ordenou o fechamento de todos os estabelecimentos com operações internas, como restaurantes, bares e cinemas, enquanto os casos da covid-19 continuem subindo no Estado. Vale dizer, porém, que a preocupação com o aumento de casos da doença em diversas regiões do mundo já trazia pressão para o dólar desde cedo nos mercados latino-americanos.

Para os analistas da Capital Economics, a disseminação contínua do coronavírus significa que a recuperação econômica da América Latina será mais lenta do que na maioria das outras regiões. “E o fraco estado das finanças públicas nas maiores economias, principalmente Brasil e México, significa que um retorno à austeridade é provável quando a crise terminar, retendo a demanda”, afirmam em relatório.

E tendo em vista a liquidez elevada do mercado brasileiro e o ambiente de juros baixos por aqui, o real acaba sofrendo com maior intensidade por causa da demanda por “hedge” (proteção), que é montado numa posição favorável ao dólar e contrária a divisa brasileira.

Na avaliação do estrategista-chefe do banco Mizuho no Brasil, Luciano Rostagno, as notícias em torno da pandemia da covid-19 não são positivas e ainda inspiram cautela no mercado. Algumas regiões nos Estados Unidos e em outras partes do mundo têm registrado novo aumento de casos de contágio. Isso implica em alta do dólar contra o real, apesar do avanço de bolsas pelo mundo.

Rostagno explica que o ganho dos mercados de ações vai além da dinâmica da pandemia. “Nas bolsas, tem a questão de todos os estímulos que foram inseridos na economia e o ambiente de juros baixos”, explica o profissional. Já o câmbio brasileiro fica para trás, sendo usado para operações de “hedge”, já que não teria uma tese tão sólida de investimento.

Gestores de fundos multimercados, por exemplo, têm mostrado uma visão mais neutra no câmbio. É o caso da Quantitas, que vê vetores em direções opostas para a moeda local. Por um lado, os juros baixos e o crescimento lento jogam contra o real, mas elevação de liquidez global e equilíbrio em conta corrente contribuiriam para a moeda. Em bolsa, a gestora mantém posição comprada, explicada não pelo otimismo com atividade, mas sim pela elevação da liquidez global e fluxos da renda fixa para renda variável. O foco, assim, é em alocações que impliquem em exposição a ativos reais sólidos.

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