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Caso Henry Borel: o que se sabe sobre a morte da criança de 4 anos e prisão da mãe e do padrasto

·7 minuto de leitura
Dr. Jairinho
O vereador Dr. Jairinho (foto) e sua namorada, Monique Medeiros, são investigados pela morte do menino Henry Borel Medeiros, de 4 anos

O vereador carioca Dr. Jairinho (expulso do partido Solidariedade) e a namorada dele, Monique Medeiros, foram presos em 8/4 sob suspeita de atrapalhar as investigações sobre a morte de Henry Borel Medeiros, de 4 anos, ocorrida um mês antes. O caso ganhou grandes proporções depois que o casal passou a ser considerado suspeito da morte, cercada de perguntas sem resposta.

O garoto, filho de Monique, foi encontrado morto no apartamento onde morava mãe dele e o namorado com diversas lesões graves pelo corpo. O casal disse à polícia que Henry teria sofrido um acidente doméstico no dia.

O laudo do Instituto Médico-Legal (IML), porém, apontou que o garoto sofreu diversas lesões graves em diversas partes do corpo. A perícia apontou ainda que a causa da morte foi uma hemorragia interna e uma laceração no fígado causada por uma ação contundente. Isso levou a polícia a descartar um acidente como a causa da morte.

Segundo o delegado responsável pela investigação, Henrique Damasceno, hoje o casal é investigado por homicídio duplamente qualificado. Isso porque teria sido usada tortura e por emprego de recursos que causaram impossibilidade de defesa da vítima, segundo ele.

Dr Jairinho
Dr. Jairinho é vereador no Rio

O delegado disse que a babá do garoto, Thayná de Oliveira Ferreira, que tinha um vínculo estreito com o casal, mentiu durante o depoimento. Isso indica, segundo ele, que houve uma interferência dos investigados.

A investigação também identificou, por meio de capturas de tela de celulares, que a criança sofria uma rotina de sofrimento e agressão.

A Polícia Civil disse que o casal deve ser indiciado e, caso o promotor aceite a denúncia, os dois serão denunciados e levados a julgamento.

De acordo com a polícia, Dr. Jairinho também é investigado por agredir a filha de uma ex-namorada dele. O político também foi identificado pela voz por jornalistas do veículo O Dia durante a tortura a que eles foram submetidos por causa de uma reportagem investigativa sobre milícias na zona oeste do Rio, em 2008. Dr. Jairinho e o pai, Coronel Jairo, negam envolvimento com milícias.

O delegado disse, em entrevista coletiva à imprensa em 8/4, que foram "reunidas provas fundadas" que apontam o casal como responsável pelo crime. Os dois foram encontrados no momento da prisão em um endereço que eles não tinham informado no inquérito. Eles negam o crime.

Segundo reportagem do portal UOL, Monique foi recebida por outras detentas do presídio para o qual foi levada com gritos de "uh, vai morrer".

Chutes e rasteira

O delegado responsável pelo caso revelou ainda conversas trocadas no dia 12 de fevereiro (pouco menos de 30 dias antes da morte do garoto) entre a babá e Monique, a mãe de Henry. No diálogo, a funcionária relata agressões cometidas por Dr. Jairinho contra a criança.

Em um dos diálogos, a funcionária conta que Dr. Jairinho e Henry ficaram trancados no quarto por alguns minutos com a TV ligada com um volume alto. Quando a criança saiu do cômodo, teria contado a ela que levou chutes e uma rasteira, além de reclamar de dores no joelho e na cabeça.

Segundo o delegado Henrique Damasceno, isso prova que a babá mentiu no depoimento, já que ela disse que a relação entre eles era muito boa.

"Está bastante evidenciado de que ela mentiu. Ao invés de narrar qualquer incidente dentro daquela residência, ela disse que era uma relação harmoniosa. Verificamos que testemunhas estavam sendo influenciadas. Foi urgente a prisão porque havia um prejuízo nas investigações com a liberdade dos investigados", afirmou Damasceno.

Monique Medeiros (foto), mãe de Henry
Mensagens encontradas no celular de Monique Medeiros (foto), mãe de Henry, foram fundamentais na investigação, segundo a polícia

Mesmo sabendo das agressões, o delegado diz que a mãe de Henry não procurou a polícia e também não afastou a vítima do agressor. No dia da morte do garoto, a babá não estava no apartamento.

De acordo com o delegado, Dr Jairinho não queria que o corpo do menino fosse para o IML e pediu para que o atestado de óbito fosse liberado ainda no hospital. O argumento que ele deu em depoimento foi de que ela queria "virar logo essa página".

Mas um "executivo da área da saúde", segundo o delegado, negou o pedido.

Polícia usou software para recuperar mensagens apagadas do celular

Um dos principais caminhos nesta busca por respostas é um sofisticado programa de computador israelense, que permitiu à polícia do Rio de Janeiro desbloquear aparelhos e resgatar mensagens de texto e imagens que teriam sido apagadas dos celulares de Dr. Jairinho e de namorada, Monique Medeiros, mãe de Henry.

Reprodução de site criado pelo casal para se defender; eles alegam que Henry sofreu um acidente doméstico
Reprodução de site criado pelo casal para se defender; eles alegam que Henry sofreu um acidente doméstico

O software, chamado Cellebrite Premium, tem uso restrito para autoridades e já foi usado no Brasil em investigações importantes como a Operação Lava Jato e os assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018.

Em entrevista coletiva no dia 8 de abril, o delegado Antenor Lopes, diretor do DGPC (Departamento Geral de Polícia da Capital), afirmou que o celular da mãe de Henry foi uma das peças-chave no quebra-cabeças que se transformou a investigação.

"Nós encontramos no celular da mãe prints de conversa que foram uma prova extremamente relevante, já que são do dia 12 de fevereiro. E o que nos chamou a atenção é que era uma conversa entre a mãe e a babá que revelava uma rotina de violência que o Henry sofria. A babá relata que Henry contou a ela que o padrasto o pegou pelo braço, deu uma rasteira e o chutou. Ficou bastante claro que houve lesão ali. A própria babá fala que o Henry estava mancando."

Segundo Lopes, o programa de computador israelense permitiu que a polícia resgatasse as mensagens. que se podem se tornar provas técnicas na apuração.

O delegado responsável pela investigação, Henrique Damasceno
Segundo o delegado responsável pela investigação, Henrique Damasceno, hoje o casal é investigado por homicídio duplamente qualificado

"Hoje temos todos os elementos probatórios e podemos sim afirmar que temos provas que essa criança foi assassinada e não foi vítima de um acidente doméstico", disse Lopes.

"O Cellebrite foi uma prova técnica essencial, muito forte, onde o delegado embasou seu pedido de prisão, que é corroborado pelo Ministério Público e acabou sendo deferido pela juíza do 2º Tribunal do Júri", afirmou, em referência ao mandado de prisão expedido pelo colega Damasceno contra o casal.

"As mensagens que foram obtidas através de uma prova técnica de fato comprovam que essa criança vinha sofrendo agressões dentro do apartamento. Agressões praticadas pelo vereador e médico Dr. Jairinho. Todas as provas técnicas serão juntadas ao inquérito policial, mas neste momento podemos afirmar sim que houve toda uma arquitetura incompreensível caso fosse um acidente, a combinação de depoimentos. Algo que não se espera de uma família enlutada. Todas as provas técnicas estão sendo finalizadas", disse Lopes.

À imprensa, no último dia 8, outra delegada que participa das investigações afirmou que o casal lançou celulares pela janela quando a polícia se aproximou, em uma suposta tentativa de eliminar provas.

Em entrevista ao programa Fantástico, da TV Globo, Fernando José Fernandes afirmou que o casal é inocente e alvo de prisão irregular.

"Eu não tenho medo. Olha, coloca bem bonitinho aí que nós não temos medo de nada, tá? Eu ainda acredito que têm dois inocentes, tá? Mas isso ainda pode ser provado. Vou esperar, aguardar. Minha filha está presa, tem um monte de irregularidade. Eu não posso comentar para não atrapalhar a investigação", disse Fernandes, avô de Henry e pai de Monique.

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