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Casamento de Skaf com Bolsonaro expõe o racha na Fiesp

O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, durante coletiva em 2010. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

A declaração de guerra veio assinada a seis mãos. 

Em artigo publicado na terça-feira, na Folha de S.Paulo, Horácio Lafer Piva, Pedro Passos e Pedro Wongtschowski, integrantes dos conselhos de administração das gigantes Klabin, Natura&Co e da Ultrapar, questionaram “como podem alguns políticos, sabedores do oportunismo das adesões da casa, dar a ela espaço e duvidoso prestígio?”.

O petardo tinha mira: a avenida Paulista, número 1.313, sede da Fiesp, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

Sem citar nomes, os executivos expunham ao público o desconforto com as andanças políticas de Paulo Skaf, presidente da entidade desde 2004 e que desde então concilia uma espécie de dupla jornada. Ele já tentou se eleger governador em 2010, pelo PSB e em 2014 e 2018, pelo PMDB.

Há mais cinco anos, ele transformou a sede da entidade em um trincheira em defesa do impeachment de Dilma Rousseff.

Cada pato de borracha distribuído pela entidade nas manifestações contra os ex-aliados petistas era um empurrão para que o companheiro de partido, Michel Temer, chegasse à Presidência.

Em 2018, Skaf por pouco não chegou ao segundo turno. Como seu rival, João Doria (PSDB), ele buscava os votos àquela altura consolidados ao candidato favorito à Presidência Jair Bolsonaro, em quem declarou o voto.

O apoio parecia ter saído pela culatra quando, em dezembro de 2018, prestes a assumir o Ministério da Economia, Paulo Guedes afirmou a uma plateia de empresários, no Rio, que era preciso “meter a faca no sistema S” -- o que atingiria a jugular da entidade presidida por Skaf, e os cursos profissionalizantes promovidos por Sesi e Senai.

Apesar da faca, ou em razão dela, o espírito de sobrevivência do dirigente político deu a Bolsonaro a sua maior base de apoio em São Paulo, estado comandado pelos adversários tucanos.

Skaf recebeu do presidente a missão de estruturar o apoio dos empresários ao governo. À boca pequena, dizem que já está certa a sua filiação ao futuro partido de Bolsonaro, o Aliança pelo Brasil. 

Há pouco tempo, o dirigente organizou um jantar com representantes do setor cultural para definir quem substituiria Katiane Gouvêa, suspeita de irregularidade em sua campanha a deputada, na secretaria do Audiovisual. Estava presente na reunião o secretário de Cultura Roberto Alvim, demitido após fazer apologia ao nazismo em um pronunciamento.

É com essa turma que Skaf tem andado.

No citado artigo, Piva, Passos e Wongtschowski dizem que a “Fiesp está em acelerado processo de destruição”.

“Temos defendido ao longo da vida os valores republicanos, democráticos e civilizatórios. Não acreditamos em sociedade bem-sucedida que se ancora em duas ou três variáveis e estamos longe de concordar que a economia, sozinha, traga a paz. Ao contrário, embora assim pensem colegas amantes do reducionismo das ideologias que não respeitam as instituições”.

A bronca com a aproximação com um governo que abria quem já plagiou um líder nazista, contesta dados científicos, ataca artistas e mandar jornalistas calar a boca não era à toa: a certa altura do artigo, os autores criticavam “o recorrente desprezo com a pesquisa e a inovação, e um descaso histórico com a educação, a cultura e a sustentabilidade” que explicariam parte da perda de espaço da indústria na economia.

O sociólogo Celso Rocha de Barros já havia dado a letra: “associando-se ao bolsonarismo, Skaf está amarrando a elite do estado mais dinâmico do Brasil ao que há de mais imundo e atrasado na tradição política brasileira”.

Sob ataque, Skaf respondeu, também com um artigo, a quem pergunta se a Fiesp é fascista. “Apoiamos o governo? Sim. Ele promove a agenda econômica que sempre defendemos, de controle de gastos públicos, reformas estruturais, redução de juros, desburocratização”.

E disse mais: “Bolsonaro colocou o país no rumo certo e tem dado demonstrações concretas de estar comprometido com o crescimento e a geração de empregos”.

Skaf reforça, assim, a ideia, corrente, de que o PIB, para crescer, aceita tudo, até mesmo o esgarçamento das instituições democráticas.

Em seu artigo-resposta, ele reforça o caráter político da instituição que preside, e atrela essa escolha ao sucesso de um governo que promete crescimento em terra arrasada. 

Se não entregar, Skaf não terá problemas em pular do barco -- como tem feito desde sua primeira disputa para o governo do estado.