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Filme com Antonio Pitanga mergulha nas raízes do Brasil de Beto Freitas

Matheus Pichonelli
·5 minuto de leitura
Antônio Pitanga em cena do filme Casa de Antiguidades
Antônio Pitanga em cena do filme Casa de Antiguidades

Assisti “Casa de Antiguidade” dois dias antes do assassinato, em uma loja do Carrefour em Porto Alegre, de João Alberto Silveira Freitas, 40. O crime aconteceu na véspera do Dia da Consciência Negra.

À medida que assistia às cenas, as reais, e acompanhava a repercussão do caso, o filme de João Paulo Miranda Maria ganhava novos significados. Era um quando assisti e é outro agora. Como se ficção e realidade se fundissem e formasse, num amálgama, uma espécie de predição.

O longa, em cartaz no Cine Belas Artes, em São Paulo, e que estreia em todo o país no começo de 2021, conta a história de Cristovam, personagem de Antônio Pitanga que tenta a vida e encontra a morte em uma cidade pacata e aparentemente idílica no Sul do país.

Sim, Cristovam vai morrer, e não será cercado de cuidados, homenagens, choro ou vela. Vai morrer aos poucos e muito antes do encontro derradeiro com seus algozes.

Essa morte começa quando descobre um furo na luva de seu uniforme em um laticínio de aspecto futurista e antisséptico onde trabalha cada vez mais por cada vez menos.

Naquele laticínio-modelo os funcionários usam equipamentos de proteção num ambiente branco e brilhante, como o material extraído dos animais criados para o abate.

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Ali Cristovam é força de trabalho.

Fora dali é o inimigo a ser abatido.

No caminho do trabalho para casa, marcado pelo estranhamento e pelo silêncio, o protagonista de Pitanga parece encarnar um velho poema de Eduardo Alves da Costa: "Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor de nosso jardim. Na segunda noite, já não se escondem: pisam nas flores, matam nosso cão, e não dizemos nada".

Em casa, Cristovam é atravessado o tempo todo pela hostilidade do mundo exterior. De fato, pouco pode dizer quando as crianças dos vizinhos treinam tiros em sua direção. Até que um dia ele chega em casa e o bicho está à beira da morte, de tanto ser chutado pelas crianças.

No filme "A Fita Branca", que estreou há cerca de dez anos, Michael Haneke acompanha uma série de agressões similares num povoado igualmente idílico. Os eventos parecem apontar a chegada de um novo tempo. Aquela vila alemã ainda não sabe, mas está às vésperas da Primeira Guerra Mundial. A perversidade parece ser a herança dos que sobreviverão para reerguer o país após o conflito.

Seus arquitetos espalharam o terror e o holocausto como estratégia de poder. Foi a maior tragédia humanitária da história. Ainda hoje há quem minimize propositalmente o morticínio. Crentes na superioridade, preferem observar as “coisas boas” do regime assassino às custas de quem espoliava.

Um desses entusiastas é pai de uma governadora que acaba de tomar posse em Santa Catarina. Uma governadora que, ao tomar posse, evitou chatear o pai hitlerista para não ficar mal com a família, uma instituição sagrada, segundo ela; menos para quem perdeu pais, filhos e avôs nos campos de concentração do período.

Mas voltemos ao filme. O que se passa no Sul do país.

Na trama, chega a ser irritante ver as referências quase obscenas de tão escancaradas ao contexto social e político onde fundamos nossa história recente. Como em “A Fita Branca”, as referências tentam captar algo que se não explodiu está prestes a explodir.

Na entrada da casa, os assassinos já não pisam apenas nas flores nem se contentam em espancar nossos cães já machucados. Eles estraçalham os ritos, os símbolos, as imagens da cultura e religião afro. Estraçalham a ancestralidade do personagem negro. E anunciam nos muros e paredes , com os dígitos 17 e outros slogans de campanhas recentes, a chegada de uma nova ordem. Ou seria o retorno de uma ordem antiga?

"Deus assima de todos", escrevem os invasores daquele território simbólico, num erro proposital que, embaralhadas as letras, parecem ganhar um novo sentido. Algo como "Deus assim mata todos".

A tensão daquela cidade armada até os dentes, o fetiche pela espingarda e outros objetos de guerra, e o desprezo por quem vem de fora e agoniza, sem gritar, à medida que se desconecta com o que tem de mais fundamental fazem de "Casa de Antiguidades" um filme de terror, como escreveu Inácio Araújo em sua crítica na Folha de S.Paulo. Um terror sobre os dias atuais.

Como escreveu Araújo, soa como uma espécie de "Bacurau" com sinal invertido. No filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, a história do povoado prestes a ser apagado do mapa é a história da resistência e da reação. Também na base do tiroteio.

O terror de João Paulo Miranda se revela no imobilismo, na poda de laços e da ancestralidade e na paulatina perda de potência de quem substitui a força pela resignação. Quando o personagem de Pitanga percebe ser como os animais daquele laticínio destinados ao abate, é tarde.

A atmosfera letárgica que impede a reação na ficção é incômoda. A princípio porque inverossímil em tempos de resistência e mobilização permanente, inclusive contra estereótipos ainda recorrentes na produção audiovisual, tão branca quanto o laticínio da trama que busca criticar a branquitude.

Mas as notícias do dia dão a dimensão da proximidade entre a distopia daquela vila hostil e armada até os dentes e nossos supermercados, onde 15 pessoas assistem bovinamente à morte de uma pessoa negra sem falar ou fazer nada. Mais do que a vítima, são essas pessoas que estão no centro do filme. Os que observam a matança em silêncio e tiram sua casca porque se beneficiam dela.

É o mesmo país em que as maiores autoridades silenciam ou correm para negar o racismo que mata e esfola à vista de todos.