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Carne à base de plantas será mais barata que a proteína animal, diz Beyond Meat

Finanças Internacional
·8 minuto de leitura
Ethan Brown, CEO e fundador da Beyond Meat, durante evento nos EUA em agosto de 2019. Foto: Tom Cooper/Getty Images for Wellness Your Way Festival
Ethan Brown, CEO e fundador da Beyond Meat, durante evento nos EUA em agosto de 2019. Foto: Tom Cooper/Getty Images for Wellness Your Way Festival

Uma coisa ficou muito clara quando conversei por telefone com Ethan Brown, fundador e CEO da empresa de carne vegetal norte-americana Beyond Meat: ele tem muitos planos para este verão.

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Alguns passeios de bicicleta pelas ruas majestosas da Itália (nem todo mundo precisa fazer aula de spinning online), levar a filha para o kickboxing e, além de tudo, administrar uma gigante das carnes à base de plantas, uma empresa relativamente jovem que está chegando a um valor de mercado de US$ 10 bilhões em pouco mais de um ano desde a oferta pública inicial.

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Em um dia comum, as responsabilidades de Brown incluem: (1) atividades de prospecção para aumentar a capacidade de produção; (2) assinar novos acordos de distribuição com empresas de fast-food; (3) aprovar produtos como o novo cheeseburger picante sabor churrasco no Carl's Jr. com hambúrguer Beyond Meat; (4) pensar em maneiras de reduzir o preço da carne da empresa (este ano, ele conseguiu fazer isso com novas embalagens tamanho família na Target e no Walmart; e (5) desmentir boatos sobre o relacionamento da empresa com o McDonald's (Brown continua considerando o trabalho com o McDonald's muito importante, e o relacionamento da Beyond Meat com a rede de fast-food vai de vento em popa: um recente teste de produto no Canadá saiu conforme o planejado).

Talvez ele até consiga conferir os preços das ações da empresa uma ou duas vezes por semana no app do Yahoo Finanças (as ações subiram 90% no ano). Brown não confirmou que usa o nosso app, mas vamos presumir que sim.

Ah, esqueci de dizer que ele faz tudo isso (talvez com alguma ajuda, de um jeito ou de outro), em meio à pandemia global de COVID-19. E esse é apenas um dia na rotina desse homem de 48 anos de idade e quase dois metros de altura.

O Yahoo Finanças conversou bastante com Brown sobre o que a Beyond Meat tem pela frente neste ano. Confira a seguir uma versão editada e resumida do nosso bate-papo.

Brian Sozzi: Em maio, você me falou sobre algumas embalagens novas tamanho família que ia lançar. Elas já estão disponíveis nas lojas. Sei que reduzir o preço da carne para aumentar o acesso e o volume de compras é importante para você. Como foi a resposta a essa iniciativa?

Ethan Brown: Há 18 meses, estabelecemos a meta de cinco anos para conseguir oferecer um preço inferior ao da proteína animal em determinadas categorias. Sentimos que estamos no caminho certo para alcançar esse objetivo. Neste semestre, como a COVID-19 atrapalhou os mercados de proteínas animais, ganhamos espaço e conseguimos ajustar nossos preços para nos aproximar dos hambúrgueres tradicionais de carne. Dessa forma, com a embalagem tamanho família, o preço agora é de basicamente US$ 15,99 por 10 hambúrgueres. Dá para encontrar até por US$ 14,99 em alguns supermercados. Então, estamos dentro do preço da carne bovina. Isso muda constantemente, mas estamos dentro do preço de aproximadamente 20% dos hambúrgueres de carne bovina disponíveis no supermercado hoje.

Isso quer dizer que é possível chegar perto da paridade com a carne bovina. Quando começarmos a crescer, teremos os benefícios do material direto e da mão de obra direta, aumentando o volume das nossas instalações e integrando muito mais produção. Mas não há nenhum obstáculo material que impeça o nosso produto de custar menos que a proteína animal no longo prazo, só precisamos continuar trabalhando nisso.

Sozzi: Você acha que é possível que a carne de vocês seja mais barata que a tradicional?

Brown: Com toda certeza. Temos que voltar à ideia básica da cadeia de alimentação. Ou seja, os principais componentes da carne, como ácidos, minerais, vitaminas e água, vêm das plantas, passam pelos animais e chegam até os humanos. Nós estamos pulando todas essas etapas, indo diretamente para a produção de carne na fábrica. Portanto, o único motivo pelo qual nosso produto ainda é um pouco mais caro é a escala.

Sozzi: Como vocês estão aumentando a produção de forma mais ativa?

Brown: Estamos fazendo isso agora com a abertura de uma fábrica na Europa, por exemplo. Também vamos fazer mais alguns investimentos na China. Até o final do ano, vamos investir em infraestrutura de produção. Assim, em 2021 e 2022, começaremos a atingir volumes mais altos, e esse é o caminho para poder oferecer preços mais agressivos. Isso é essencial, temos que oferecer o que chamamos de tríade de benefícios — ou valor de tendência — para continuar reduzindo a distância entre o nosso produto e a proteína comum.

Em segundo lugar, queremos continuar aumentando os benefícios nutricionais dos nossos produtos, cobrindo as necessidades de proteínas e ferro e, ao mesmo tempo, eliminando a parte ruim. Por último, quando chegarmos abaixo do preço da proteína animal, vamos ter uma proposta única no mercado para o consumidor: um produto que tem gosto de carne bovina, mas é melhor para a saúde e ainda é mais barato. Quem não gostaria de comer algo assim? Acreditamos que, assim que acertarmos essas três questões, a maioria dos consumidores vai aprovar.

Sozzi: O que você aprendeu sobre o suprimento de alimentos do país durante a pandemia de COVID-19?

Brown: Duas coisas. A primeira foi que os consumidores estão começando a ter uma ideia de como os alimentos são produzidos. Agora há notícias na TV e na internet sobre a disseminação da COVID-19 em instalações de processamento, então acabamos vendo como essas instalações são administradas, e elas não parecem ser lugares agradáveis. Não são como imaginávamos. Assim, os consumidores começaram a ver como os animais são mutilados, ficam confinados em espaços lotados e coisas desse tipo. Foi como uma amostra do processo pelo qual os alimentos passam até chegar ao prato.

Também pensamos nessas coisas, por isso, a proteína do nosso produto vem direto das plantas e passa por um sistema de aquecimento, resfriamento e pressão.

O segundo aspecto que ficou evidente para mim foi que, mesmo sem ter feito previsões nem planejamentos fora do comum, o nível de risco nas nossas instalações é bem mais baixo, porque não temos linhas de produção tão lotadas. Nosso processo requer muito menos contato porque não separamos pedaços de carne. Portanto, podemos aproveitar muito melhor o espaço e produzir com menos funcionários. Essa foi uma grande revelação.

Sozzi: Parece que chegou a sua hora de brilhar.

Brown: Com certeza. Temos que aproveitar esse momento para beneficiar os consumidores.

Sozzi: A carne à base de plantas já não é mais novidade. Então, como vocês continuam fechando grandes negócios com as redes de fast-food?

Brown: Em primeiro lugar, é muito bom ver que há um grupo novo de executivos que estão percebendo que os consumidores estão em busca de proteínas mais baratas e gostosas. Podemos criar sabores bem parecidos ao frango ou a um hambúrguer, por exemplo, só com plantas, sem nada de origem animal. Os executivos estão atentos a essa tendência e estão tomando medidas, especialmente porque os consumidores mais jovens exigem esse tipo de produto. Essa é uma atitude inteligente, oferecer o que os clientes querem.

Sozzi: Você mencionou investimentos na China. Que tipo de investimentos?

Brown: Estamos investindo em pessoal e infraestrutura. Estou bem empolgado com algumas pessoas que conseguimos contratar. Micky Pant [ex-CEO da Yum! China] é nosso consultor sênior. Ele nos ajudou a abrir as instalações, fazer as contratações e entender a cultura. Esse é o trabalho que estamos fazendo com o pessoal. Para a produção, vamos inaugurar a primeira instalação até o final do ano.

Sozzi: Como é administrar uma empresa em crescimento durante uma pandemia?

Brown: O mais frustrante é a velocidade de implementação de algumas parcerias de serviços de alimentação. Temos uma mentalidade de empreendedorismo, de fazer a empresa crescer. Gostamos de resolver tudo rápido, mas isso não é possível durante uma pandemia porque há muitos riscos. Essa foi a lição mais difícil para nós. Também tivemos que fechar nosso centro de pesquisa e reduzir os turnos e o número de funcionários, aumentar o grau de paciência com os nossos parceiros de restaurantes de serviço rápido e atrasar lançamentos e apresentações de produtos. Essa foi a pior parte, com certeza.

Sozzi: E tem gente que ainda não confia na Beyond Meat. Por exemplo, 10% das ações estão em vendas a descoberto. O que você diria para essas pessoas? Conte para elas quem é Ethan Brown.

Brown: Sou uma pessoa que teve a sorte de trabalhar em uma ideia no momento certo, de oferecer algo de que o mundo precisa. Por algum motivo, pensei nisso há muito tempo, me envolvi com as pessoas certas e tomei boas decisões ao longo do caminho. Assim, consegui fazer parte de um movimento mais amplo e muito inspirador.

Quando acordo e vou trabalhar, não é pelo dinheiro. É pela oportunidade de fazer parte de um grupo de pessoas que se preocupa com a saúde humana e com o clima. Essa é a alma da nossa marca, e é por isso que avançamos tanto.

Brian Sozzi

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