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Capital nacional do carvão teme por sua sobrevivência

·5 min de leitura

CANDIOTA, RS (FOLHAPRESS) - Quando Toríbio Castro Filho, 79, chegou a Candiota (RS), em 1964, o local era apenas uma pequena vila de trabalhadores de uma usina térmica inaugurada três anos antes para aproveitar as reservas de carvão mineral da região.

Candiota era ainda um distrito de Bagé e atraía trabalhadores da região para a usina e para a mina que fornecia o combustível. "O que tinha aqui era só trabalho. Ninguém ficava parado", brinca ele, que é natural de Pelotas.​

Toríbio se casou com uma trabalhadora da cooperativa ligada à usina e seus dois filhos são hoje trabalhadores do setor. A nora, o pai dela e um sobrinho também. "A usina sempre nos deu uma boa condição e decidi seguir o caminho", conta um dos filhos, Alex Madruga Castro, 47.

Histórias como a da família de Toríbio são comuns na cidade: em Candiota, quem não trabalha nessa indústria tem algum parente nela. Com duas minas e duas usinas em operação, a cidade de pouco menos de 10 mil pessoas tem cerca de 10 mil empregos ligados ao carvão, muitos deles ocupados por gente da região.

É uma indústria que, confirmando a percepção de Alex, garante boas condições de vida: segundo os últimos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os trabalhadores formais de Candiota tinham em 2019 o terceiro maior salário médio do país: 5,3 salários mínimos.

Com o reforço na pressão contra combustíveis fósseis, porém, a população vive grande apreensão em relação ao futuro. "Se essas usinas fecharem, é melhor todo mundo fazer as malas e ir embora", resume Adão Marques Teixeira, proprietário de um restaurante.

Nos 60 anos após a inauguração da primeira usina, a cidade cresceu, mas permanece com cara de vila operária. Seus quatro distritos são formados, em geral, por casas padronizadas de um pavimento, que foram construídas ao longo do tempo para receber trabalhadores.

Embora sedie a mais nova térmica a carvão do país, Pampa Sul, inaugurada em 2018, a cidade já sente efeitos do cerco ambiental contra o combustível. Nos últimos anos, duas máquinas geradoras da usina Candiota foram paradas por não atenderem a requisitos de emissões de poluentes.

Mais moderna, a terceira máquina geradora de Candiota tem contrato de fornecimento de energia apenas até 2024. Com a extinção, em 2027, do subsídio para a compra de carvão, terá dificuldades para concorrer em novos leilões.

A Pampa Sul, inaugurada em 2018, tem contrato até 2043, quando dependerá de novos leilões. Sem as usinas, as minas do município não têm razão para operar, já que o transporte do carvão brasileiro é inviabilizado pelo alto teor de cinzas. "Aí, tchê, não tem mais Candiota. É o fim", diz Alex.

Operadora da usina Candiota, a subsidiária da Eletrobras CGT Eletrosul defende que o projeto cumpre todos os limites de emissões de gases poluentes previstos no licenciamento ambiental e que o impacto local é pequeno.

Estudo feito pela EPE (Empresa de Pesquisa Energética) em 2014 e republicado em 2018 indica que Candiota "apresenta condições meteorológicas favoráveis à dispersão de poluentes", tornando viável a construção de novas usinas na região.

Embora a cidade seja a 26ª no ranking brasileiro de emissões de gases do efeito estufa, descontando as emissões de desmatamento, moradores de longa data, como a família de Toríbio, alegam que já viveram dias piores.

Toríbio se recorda de um campeonato de futebol amador que foi paralisado pelo excesso de fuligem no ar. "A gente tirava cinza de casa no balde", completa sua esposa, Ana Anita Madruga Castro, 76.

Hoje, defende o setor, novas tecnologias reduziram a emissão de fuligem e de elementos tóxicos como o enxofre. Pequenos bosques de eucalipto servem como barreiras naturais para evitar o espalhamento da fuligem gerada pela britagem do carvão na usina Candiota.

A mina recém-inaugurada pela mineradora Copelmi do outro lado da cidade para atender a usina Pampa Sul, porém, é fonte de reclamações.

"Desde que a usina começou a operar vem essa poeira para cá", diz o trabalhador rural Elmo Ribeiro Rodrigues, 60, que mora perto da unidade de britagem do carvão. "E tem noite que não dá para dormir, é uma batucada que vem de lá."

Proprietário de um rebanho de gado leiteiro, Aírton Luiz Duarte, 53, diz que após o início das operações da unidade em 2018, começaram a ocorrer casos de aborto com os animais.

"Tem vaca aí com mais de um ano sem dar cria", conta ele, que vive na região há 28 anos e diz ter percebido recentemente também problemas na dentição do gado, supostamente por comer pasto com cinzas.

O gerente de operações da mina, Adolfo Carvalho, admite que a evolução da exploração da jazida trouxe impactos locais não esperados inicialmente e prometeu a Aírton uma barreira natural com árvores em torno de sua propriedade.

Árvores já foram plantadas também ao redor da unidade de britagem do carvão, que vai receber ainda um anteparo chamado "wind fence", que controla a velocidade do vento e contém o espalhamento da poeira.

A mina estava desativada até o início das operações da Pampa Sul. Hoje, com uma capacidade de produção entre 2,8 e 3 milhões de toneladas por ano, fornece para as duas usinas em operação na cidade. Segundo a EPE, as reservas de carvão do município garantiriam a operação de 15 usinas por 25 anos.

"Temos consciência de que vai chegar a transição energética, mas é preciso dar um tempo", afirma o prefeito do município, Luiz Carlos Folador (MDB), defendendo que a indústria tem que ser mantida até que alternativas mais limpas para o uso do carvão sejam viáveis.

Entre elas, diz, está a transformação do carvão em gás ou combustíveis e a produção fertilizantes ou metanol a partir do mineral. "A tecnologia evolui para usarmos o carvão com outro propósito que não a geração de energia", afirma.

Mas para sobreviver até lá, a atividade depende de subsídios, admite o setor, que este mês conseguiu aprovar uma lei no Congresso determinando a contratação obrigatória de térmicas a carvão em Santa Catarina até 2040.

"Esses movimentos de curto prazo, a meu ver, não resistem à economia", diz o coordenador do Portfólio de Energia do ICS (Instituto Clima e Sociedade), Roberto Kishinami. "Hoje as renováveis já são mais baratas, mais competitivas e oferecem segurança energética."

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