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'Caos total' no porto de Lagos, à beira de um ataque de nervos

Sophie BOUILLON
·3 minuto de leitura
Um caminhoneiro espera com seu veículo para entrar no porto de Lagos, capital econômica da Nigéria, em 11 de janeiro de 2021

Alguns falam de "caos total" e outros de "desastre". No porto de Lagos, a tentacular megalópole da Nigéria, eles estavam acostumados a condições difíceis. Mas agora todos concordam que nunca viram nada parecido com o que acontece nos últimos meses.

Cargueiros, petroleiros e grandes porta-contêineres desfilam um após o outro na entrada do porto da cidade, num balé lento e monótono.

"Alguns dos meus navios podem esperar até 80 dias antes de entrar no porto", explica o diretor de operações de uma empresa de transporte marítimo. "É inadmissível!", protesta.

"Além disso, e devido ao fato de as águas da costa nigeriana não terem segurança adequada, temos de esperar em Cotonou (Benin) ou Lomé (Togo)", afirma este importante ator do setor.

Antes de 2020, cada terminal podia movimentar entre seis e sete navios porta-contêineres por semana. Agora o tráfego foi reduzido pela metade, com apenas três semanais.

"A situação em Lagos cria congestionamentos em todos os portos da região, de Abidjan (Costa do Marfim) a Pointe-Noire (Congo-Brazzaville)”, explica a mesma fonte.

Lagos, uma gigantesca capital econômica de 20 milhões de habitantes, é quase o único ponto de entrada e saída de todas as mercadorias que transitam pela Nigéria, país de 200 milhões de habitantes.

No início de 2020, pouco antes da crise do coronavírus, 99% das exportações nigerianas e mais de 89% de suas importações circulavam por mar, quase exclusivamente por Lagos.

Com o petróleo, o porto de Lagos é também a segunda fonte de renda do gigante africano.

E apesar disso, a Nigéria perde 55 milhões de dólares diariamente em razão do congestionamento nos portos, segundo a consultora especializada Dynanmar, e perdeu o primeiro lugar entre os portos para contêineres na África ocidental para o Togo, pequeno país de 8 milhões de habitantes.

- Alfândega manual -

Com pressão demográfica crescente, "as importações aumentam anualmente", diz Pascale Jarrouj, diretora comercial da GMT Nigeria Limited, uma importante empresa de logística com sede em Lagos.

"Mas no ano passado - como resultado do confinamento e dos protestos em outubro - caíram cerca de 40% e isso criou ainda mais congestionamento", explica.

A crise econômica e social em que a Nigéria mergulhou desde o início da pandemia agravou problemas estruturais de longa data: falta de investimento público, condições desastrosas das estradas e corrupção endêmica em todos os níveis.

Os descarregamentos funcionam em câmara lenta devido à ausência de uma automatização do processo, registos "manuais" pelos despachantes aduaneiros e, sobretudo, pelo pouco espaço livre disponível para a movimentação dos contêineres.

Soma-se a isso os vinte controles policiais, alfandegários, de agências ou brigadas "especiais" pelas quais os caminhões de mercadorias devem passar para entrar e sair do porto. Em cada controle, quase sempre, tem que pagar uma propina.

Com quase 2.000 caminhões entrando e saindo do porto diariamente, o dinheiro da corrupção chega a quantias estonteantes. Todos esses custos têm impacto direto sobre o preço dos produtos ao consumidor, em um contexto de estrangulamento econômico pós-confinamento, explosão do desemprego e inflação de dois dígitos.

"Não há taxa logística fixa, tudo depende do caos no porto", diz uma transportadora privada que trabalha há 17 anos em Lagos.

Aliko Dangote, o maior empresário da Nigéria, disse que perdeu 55 milhões de euros (cerca de US$ 65 milhões) entre 2017 e 2018 como resultado dos congestionamentos no porto.

A maior parte dos pequenos atores econômicos não consegue enfrentar isso, e as empresas estrangeiras estão cada vez mais relutantes em se lançar neste imenso mercado, com exceção das grandes petroleiras ou grandes multinacionais, que podem absorver esses os exorbitantes.

spb/hba/sba/mar/zm/mr