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Cantora Francinne, brasileira que virou estrela do K-pop, fala da vida na Coreia do Sul após viver relação abusiva no Brasil

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Em menos de um ano, a cantora Francinne mudou o rumo da sua carreira para o outro lado do mundo, entrando no ritmo pop da Coreia do Sul como a primeira brasileira sem ascendência asiática no K-pop.

— Com certeza (esse trabalho) representa uma nova fase na minha vida. Eu venho de uma fase de quase desistir da minha carreira, sabe? E aí aconteceu tudo isso em menos de um ano. Eu fui para a Coreia, coisas que eu não esperava que fossem acontecer na minha vida. Eu me senti realmente valorizada, pelo meu talento, minha arte — afirmou Francinne que, no último ano, passou por um momento conturbado após expor que viveu um "relacionamento extremamente abusivo, controlador e violento".

Durante dois meses, julho e agosto deste ano, ela estudou a pronúncia do coreano em Seul para gravar seu novo single "Fading like a moon", lançado nesta quarta-feira, dia 27, junto com o MV, também filmado lá. Ao EXTRA, ela contou detalhes sobre a viagem, a guinada que deu no meio musical e o quanto ficou ainda mais encantada pela cultura sul-coreana.

— A viagem (para a Coreia do Sul) foi uma coisa muito inesperada. Aconteceu tudo muito rápido. Meu empresário chegou assim: “você tem passaporte? Você tem visto? Vamos tirar o visto da Coreia”. E eu falei: “tá”, mas, assim, sempre com os pés no chão, “tá, ok”. Aí depois, ele diz: “Semana que vem a gente vai para a Coreia”. E eu: “oi?? Sério?” Eu não estava acreditando. Foi uma coisa muito rápida, sabe? — disse Francinne, diante do computador em sua casa na conversa por vídeo com a reportagem. — Eu me senti muito abraçada, muito acolhida pela cultura. Foi um refresh na minha vida, na minha carreira. Estou muito feliz nessa fase.

Embora essa experiência marque a estreia de Francinne como solista no K-pop, esse não foi o primeiro contato dela com a música pop sul-coreana. Em 2020, ela foi convidada para fazer uma colabração com o cantor Spax, ex-membro do Blanc7. Os dois gravaram uma versão de "Te Quiero mas" com trechos da letra em português e em coreano. Para ela, essa oportunidade foi fundamental para sua mudança na carreira.

— O feat. com o Spax foi o principal motivo para eu entrar nesse mundo porque foram as fãs dele que vieram até mim — relatou. — Elas que me ensinaram palavras em coreano. Eu não sabia nada. Me mandaram uns dramas pra assistir, umas músicas. Eu gostava do K-pop, mas eu acompanhava fazia muito tempo atrás, desde o 2NE1. Eu não tinha mergulhado de fato na cultura coreana.

Ao conversar com o Spax, Francinne lembrou de uma sugestão de música que ele lhe deu, dizendo que combinaria com sua voz. Então ela decidiu treinar cantá-la, até que fez um vídeo e postou no Instagram.

— Chamei a atenção dos empresários coreanos aqui no Brasil. E, aí, menina, eu tô aqui. Foi uma coisa que eu não esperava, uma coisa ligou na outra e juntou. Em menos de um ano, fui, voltei da Coreia, gravei clipe, gravei música. E estou muito feliz. Eu digo que a Coreia salvou a minha vida, salvou minha carreira, salvou os meus sonhos.

Sobre "Fading like a moon", Francinne contou que a proposta foi seguir a "fórmula do K-pop".

— A música é toda em coreano, e o refrão é em inglês, para fazer cantar junto. Hoje em dia eles (os idols) já têm feito músicas só em inglês para atingir o público mundial, mas como essa proposta era fazer K-pop, a gente fez em coreano — afirmou.

Por isso, ela destacou que não poderia faltar uma coreografia com passos de dança marcantes do refrão, que se tornam o símbolo daquela música, assim como ela nota nos videoclipes dos grupos.

— Quando a gente fala de K-pop, a primeira coisa que vem (à mente) é a coreografia. Tem que ter coreografia. O principal foco do clipe é a coreografia. Já preparamos as dancinhas de TikTok. Cada clipe no K-pop tem um movimento, uma coisa que fica na cabeça, né? — disse ela, fazendo um passo de dança da música “Next Level”, do aespa, marcado por um gesto específico com o braço e a mão. — Então, a minha também vai ter um negocinho.

Para o videoclipe, sua equipe pediu referências de grupos de K-pop que adotam um conceito girl crush, como 2NE1, Blackpink e aespa, ou seja, que entregam um estilo com empoderamento e valorização da liberdade feminina.

— Querendo ou não, eu não sei se eles fizeram essa música pensando em mim, porque tem muito a ver com a minha história, sabe? Fala de liberdade, de dar a volta por cima, diz “eu sou livre, você cortou as minhas asas, mas agora eu vou voar”. Eu falei “mas gente, ele fez pra mim essa música?”

Como principal diferença entre a realização do trabalho no Brasil e na Coreia do Sul, a cantora mencionou os ensaios que ela fez na viagem antes de entrar no estúdio para começar a gravar.

— Eu não sei se eles fazem isso com todos os cantores, mas eu ensaiei umas três vezes no estúdio junto com o produtor por causa da pronúncia. Ele pegava o violão, fazia eu cantar. Dizia: “aí eu quero que você cante com tristeza porque você está falando que foi deixada para trás”. Sabe? Então tinha toda essa coisa teatral que ele queria que eu passasse na voz. Foi quase que uma direção de clipe. Ele dirigiu a minha voz. Achei muito legal. A gente fez esses ensaios todos antes de gravar de fato.

O maior desafio dela ao chegar a seu destino não teve, contudo, qualquer relação com o trabalho, mas, sim, com as medidas de controle da pandemia. Francinne disse ter precisado ficar hospedada numa acomodação do governo sul-coreano por duas semanas, sem poder sair do quarto. O que mais lhe aliviou nesse período foi, conforme ela destacou, o contato com os fãs através das redes sociais. Ter Wi-Fi no local fez, portanto, toda a diferença, ela disse, explicando que não tinha ainda um chip de celular para usar por lá.

— (Em julho) eu fiquei de quarentena real, oficial. Sofri — admitiu. — Eles viram que meu passaporte era brasileiro e falaram assim “você vai para cá”, botaram uma placa vermelha no meu pescoço, e eu comecei a ficar desesperada, me separaram de todo mundo com quem eu estava, me botaram numa fila indiana e tipo “você vai para a acomodação do governo”. Já comecei a chorar no aeroporto, “ai, meu Deus, mal sei falar inglês, mal sei falar coreano, nem português eu sei falar direito (risos)”. E aí, menina, me botaram no hotel do governo. A gente tem que pagar tudo na entrada, 14 dias. E logo na entrada tem um papel que fala assim “quando você entra, você não pode sair”. Começou a dar ansiedade, crise. Era muito restrito, não podia abrir a porta que tocava alarme. Eu estava me sentindo num filme de ficção científica.

Passado o período de isolamento, Francinne contou que chegou enfim o momento de felicidade, quando caiu a ficha de que ela realmente estava na Coreia do Sul para realizar um sonho. Ela disse que escutou a música pela primeira vez quando ainda estava no Brasil, mas os produtores acharam melhor fazer o treinamento no exterior, junto deles, para que não houvesse errinhos de pronúncia, ainda que a cantora já faça aulas de coreano.

— Mas, assim, eu só sei o básico do básico do básico, tipo “oi”, “tchau” e “banheiro”. Não sei nem falar “onde está o banheiro?”, só “banheiro” — brincou, em meio a risadas.

Antes de viajar, Francinne fez o teste da Covid-19 e, ao chegar, fez novamente, assim como ao longo da quarentena no hotel. Ela explicou que, mesmo sem o passageiro apresentar quaisquer sintomas, é necessário ficar isolado ao desembarcar no país.

— Foi tenso, mas foram os fãs que me ajudaram a passar dessa fase e que fizeram os dias passarem mais rápido. Comecei a gravar meu café da manhã, mostrar as comidas, a comer com eles (usando a Wi-Fi). Nem chip eu tinha! Estava rezando pra não passar um vento na antena (para não perder a internet), porque se não, eu estava ferrada — lembrou, citando as dicas de meditação que recebia.

Quando pôde finalmente conhecer a capital sul-coreana, Francinne disse que se sentiu muito acolhida. Ela também elogiou a segurança do lugar e curtiu a liberdade de usar o celular na rua para aproveitar o passeio e tirar fotos sem medo de assaltos.

— Caiu a ficha realmente quando eu saí da quarentena, conheci a cidade de Seul. Juro para você, eu me senti em casa. Eu sou dorameira (termo usado para fã de séries do Leste asiático, chamadas de dramas), K-poppeira (fã de K-pop). Só assisto a K-dramas (séries sul-coreanas), então já estou acostumada com a língua, falei “gente, tô em casa. Adorei! Eu quero ficar aqui pra sempre” — contou, descrevendo a experiência como "incrível". — Jamais esperava essa reviravolta na minha vida. Então, eu estava assim muito grata. Podiam acontecer todos os perrengues do mundo, mas eu falava “ah, cara, eu estou na Coreia!” Muita gratidão!

Para se comunicar, Francinne contou com a ajuda do empresário num primeiro momento, que é coreano, mas fala português por já morar no Brasil. Depois, ela foi acompanhada por uma intérprete, o que facilitou bastante a interação com as pessoas.

— Como te falei, me encantei com a cidade. Eu já tinha me encantado com a cultura, com a comida, com a música. E depois que a gente vai para lá, a gente não quer ir embora mais.

Um dos acontecimentos na viagem que mais empolgou Francinne foi o encontro com a idol brasileira Leia, do Blackswan, cujo nome civil é Larissa Ayumi.

— Eu já acompanhava o trabalho dela, mas a gente não tinha contato, então as empresas, a dela e a minha, agitaram o encontro. A gente foi num café. E foi assim, parecia que éramos duas irmãs se encontrando. A gente virou best friends forever (melhores amigas para sempre)! Foi muito legal. Agora a gente já trocou contato, se fala sempre. Estou sempre torcendo por ela. Falei para ela que quando ela vier pro Brasil vai ficar aqui em casa. A gente já combinou (risos). Não é um meio fácil que ela vive lá, mas acredito que vai dar tudo certo. Ela é muito talentosa e vai mandar muito!

Como planos para um futuro breve, Francinne disse estar animada para se encontrar pessoalmente com os fãs novamente em shows presenciais.

— Eu prometo trazer um show com muita coreografia! Aquela coisa de cantar e dançar que eu sempre quis fazer. É uma coisa que eu adoro: performance. Um show ainda neste ano, em breve, mais informações. É o início agora, a gente está retomando toda a carreira, reformulando todo o show e montando uma coisa bem especial.

Francinne ganhou notoriedade na época em que fazia covers de Britney Spears. Por isso, sua paixão por se apresentar no palco é antiga.

— Um momento memorável era quando os fãs choravam falando assim “eu estou vendo ‘A’ Britney na minha frente”. Eu não me acho parecida, mas no palco eu pensava assim “vou encarnar essa mulher”. Eu ficava muito feliz de poder passar um pouquinho disso para eles — lembrou.

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