Mercado fechado

Candidato em RR promete fim de 'privilégios' de venezuelanos e embaixada responde: 'incita xenofobia e ódio'

João Conrado Kneipp
·4 minutos de leitura
Nicoletti negou que sua postagem faça incitação à xenofobia. (Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados)
Nicoletti negou que sua postagem faça incitação à xenofobia. (Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados)

Candidato a prefeito pelo PSL em Boa Vista (RR), o deputado federal Antônio Nicoletti postou em suas redes sociais um “santinho” no qual promete acabar com “privilégios” supostamente recebidos por imigrantes venezuelanos.

A campanha foi rechaçada pela embaixadora da Venezuela no Brasil nomeada pelo presidente autoproclamado Juan Guaidó. Em nota oficial, a representante avaliou que a propaganda “incita à xenofobia e o ódio”.

“Respeito os venezuelanos de Boa Vista, mas na minha gestão municipal eles não terão privilégio”, escreveu o candidato do PSL, antigo partido do presidente Jair Bolsonaro, na postagem feita nas redes sociais na terça-feira (13).

No Instagram, respondendo a comentários de seguidores, o parlamentar afirma que “quer é direitos iguais pra venezuelanos e brasileiros”.

Nicoletti argumenta que entre os privilégios supostamente recebidos pelos imigrantes que pretende cortar estão a preferência dos venezuelanos para atendimento médico nas unidades de saúde, falta de fiscalização aos vendedores ambulantes estrangeiros e até recebimento de Bolsa Família, deixando famílias brasileiras sem acesso ao benefício.

“O que proponho é justamente garantir o acesso dos brasileiros aos serviços essenciais, para que não ocorra o que acontece atualmente, quando vemos venezuelanos ocuparem praticamente 100% de alguns serviços em Boa Vista.”

Após a repercussão da campanha, a embaixada da República Bolivariana da Venezuela no Brasil se posicionou contrária à fala feita por Nicoletti, classificando-a como “discriminatória”. A embaixadora indicada por Guaidó pediu ainda que o candidato se abstenha de usar essa expressão “que incita à xenofobia e ao ódio”.

“Ficamos surpresos ao ver o uso de forma degradante da imagem dos venezuelanos para ganhar votos. Pedimos, com o nosso maior respeito ao deputado Nicoletti (PSL), que se abstenha de usar na sua campanha essa desafortunada expressão que incita à xenofobia e ao ódio”, assina a representante María Teresa Belandria Expósito.

O candidato nega que sua propaganda, de alguma forma, estimule sentimentos xenófobos. “Defender a igualdade de direitos entre brasileiros e venezuelanos, prevista na Constituição brasileira, jamais será xenofobia”, afirmou, em resposta enviada ao jornal Folha de S. Paulo.

Nascido em Ijuí (RS), Nicoletti, 39, é deputado de primeiro mandato. Fez carreira como policial rodoviário federal e elegeu-se em 2018 na esteira do discurso da segurança pública, seguindo a onda conservadora que levou à vitória de Bolsonaro.

Na Câmara, apresentou um projeto de lei em fevereiro deste ano no qual pede endurecimento das regras e critérios para a entrada de venezuelanos no país.

Num contexto de crise econômica, agravada pela pandemia, a situação tem estimulado sentimentos de preconceito e xenofobia. Em seu programa de governo registrado na Justiça Eleitoral, o candidato não faz nenhuma referência aos venezuelanos. Ao contrário, diz que "mais do que nunca, Boa Vista precisa ser uma cidade para todos os seus cidadãos".

FLUXO VENEZUELANO PARA O BRASIL

A retórica anti-venezuelanos explora o sentimento de parte da população que é contrária à vinda dos imigrantes para o Brasil. Estima-se que entre 10 mil e 30 mil o número de venezuelanos vivendo na capital roraimense, a quase totalidade pessoas que deixaram seu país de origem em razão da crise econômica e da ditadura de Nicolás Maduro.

Muitos deles acabam competindo com brasileiros por empregos de baixa especialização. Como muitas vezes não têm documentação, são contratados por salários mais baixos, e sem nenhum direito trabalhista.

A onda migratória venezuelana se intensificou a partir de 2018. A maior parte entra por terra pela fronteira com Roraima, mas muitos têm sido deslocados para outros estados, por iniciativa do governo federal, num processo conhecido como "interiorização".

Os que permanecem em Roraima são atendidos por uma ação capitaneada pelas Forças Armadas, a Operação Acolhida. Diversos abrigos foram construídos para os migrantes em Boa Vista, mas muitos ainda vivem nas ruas da cidade.

Em decisão nesta quarta-feira (14), a maioria dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) determinou que o governo federal terá de ressarcir metade dos gastos do estado de Roraima com o atendimento a refugiados vindos da Venezuela entre 2016 e 2018.

A ministra Rosa Weber, relatora da ação, acatou parcialmente o pedido do governo de Roraima, que exigia um ressarcimento integral dos gastos públicos para atender os imigrantes do país vizinho.

Entre os gastos citados estão cerca de R$ 138,6 milhões para cobrir o gasto mensal com a saúde dos imigrantes, R$ 16,2 milhões com gastos em segurança pública envolvendo o custo operacional de 10 viaturas no período e R$ 17,9 milhões com ocorrências relacionadas à imigração e ligadas à Polícia Civil do estado.