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Candidato em Porto Alegre, Valter Nageltein critica eleição de vereadores negros do PSOL: “Sem nenhuma tradição política”

Anita Efraim
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Valter Nagelman declarou apoio a Sebastião Melo no segundo turno (Foto: Reprodução/Instagram)
Valter Nagelman declarou apoio a Sebastião Melo no segundo turno (Foto: Reprodução/Instagram)

Valter Nagelstein (PSD), que foi candidato à prefeitura de Porto Alegre no primeiro turno, fez críticas à eleição de vereadores negros do PSOL. Em áudio enviado a apoiadores, ele afirma que os eleitos não têm “nenhuma tradição política”.

“Em primeiro lugar, muito obrigada, é o Valter que está falando, pelo apoio que tive. E rapidamente queria fazer duas ou três reflexões com vocês. A primeira delas, fica cada vez mais evidente que a ocupação que a esquerda promoveu, nos últimos 40 anos, da universidade, das escolas, do jornalismo e da cultura, produzem os seus resultados. Basta a gente ver a composição da Câmara, cinco vereadores do PSOL. Muitos deles, jovens, negros. Quer dizer, o eco aquele discurso que o PSOL fica incutindo na cabeça das pessoas. Pessoas, vereadores esses sem nenhuma tradição política, sem nenhuma experiência, sem nenhum trabalho e com pouquíssima qualificação formal”, disse Nagelstein. O PSOL teve cinco vereadores eleitos em Porto Alegre no último dia 15.

Ao G1, o candidato confirmou a veracidade e autoria do áudio. De acordo com a assessoria de comunicação de Nagelstein, ele fazia uma “análise do cenário pós-eleição”. Ele ainda declarou apoio a Sebastião Melo (MDB), opositor de Manuela D’Ávila (PCdoB) no segundo turno.

Na nota enviada ao portal, ele negou que tenha sido racista, mas repetiu que os vereadores eleitos têm “pouca qualificação”.

“Quero esclarecer qualquer polêmica. Eu disse algo que eu vou repetir: o PSOL faz um discurso há muitos anos de que há um racismo estrutural no Brasil, que a sociedade brasileira é racista, é excludente, que neste racismo os jovens negros das periferias estão sendo exterminados. Esse discurso eles fazem dentro das universidades, no parlamento, nas escolas. E esse discurso encontrou eco agora nessa eleição e elegeu uma bancada jovem e negra isso é fato, não há nenhum preconceito, nenhuma discriminação. Só quem queira por razões ou interesses políticos queira me desqualificar vai dizer que eu sou racista ou preconceituoso né. As pessoas que me conhecem sabem que evidentemente isso passa longe de mim. A outra questão é que eu falei que esses vereadores que se elegeram desse partido têm pouca qualificação e eu falo isso de novo: acho que eles têm pouca qualificação. É uma opinião minha e eu tenho o direito de dar.”

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Valter Nagelstein é judeu e, durante a campanha, apareceu com frequência na campanha com a bandeira de Israel. No entanto, encontrou resistência dentro da própria comunidade judaica do Rio Grande do Sul.

Mais de mil judeus se juntaram em uma nota de repúdio, proposta pelo Núcleo de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O texto começa com a declaração de que Nagelstein não representa a comunidade judaica.

“A comunidade judaica gaúcha não é uma massa uniforme e, embora alguns de seus membros se achem no direito de representá-la e falar em seu nome, é preciso que o lugar histórico de luta dessa coletividade seja restabelecido. Esta comunidade esteve sempre ao lado dos direitos humanos, da luta antirracista, da luta pelos direitos civis, como demonstrado em inúmeras oportunidades em que suas entidades representativas lutaram lado a lado à comunidade negra e LGBTQI+, como por exemplo no combate ao revisionismo histórico e aos grupos neonazistas que assolam o Sul do país”, diz o texto.

À reportagem, a Federação Israelita do Rio Grande do Sul também se posicionou de forma contrária às declarações de Valter Nagelstein. “Da nossa parte, nos cabe saudar o fato de termos finalizado o primeiro turno da votação em um ambiente de tranquilidade e normalidade democrática, e saudar que a escolha da sociedade trouxe mudanças significativas como a ampliação do número de mulheres e de pessoas negras no parlamento. Nós reafirmamos valores como a liberdade, com a igualdade e o Estado democrático de direito. Repudiamos o racismo e o antissemitismo. Ambos igualmente proliferam e encontram, de tempos em tempos, guarida junto a diferentes grupos. Sob disfarce de causas nobres, ambos tem florescido, não só no Brasil, mas em diversos outros países e continentes”, disse Sebastian Watenberg, presidente da Federação Israelita do Rio Grande do Sul.

Ao G1, o PSOL afirmou que a eleição de candidatos negros se deve “ao Movimento Negro Brasileiro, que vem batalhando há anos por uma igualdade, por uma equidade, por respeito, por oportunidade”.