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Trump recebe Trudeau em meio a 'dura' rodada de negociações do Nafta

Por Alina DIESTE
Reunião em Ottawa com os representantes dos governos do Canadá, México e Estados Unidos, no dia 27 de setembro de 2017

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, considerou "dura" a renegociação do Tratado de Livre-Comércio Norte-Americano (Nafta), reiniciada nesta quarta-feira (11), e voltou a sugerir que pode abandoná-lo após se reunir com o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau.

"Vamos ver se podemos fazer as mudanças que precisamos", disse Trump ao receber Trudeau na Casa Branca, no dia em que foram retomadas as discussões, lançadas em agosto para modernizar o acordo vigente entre os Estados Unidos, México e Canadá há 23 anos.

"Temos que proteger nossos trabalhadores", acrescentou o presidente, que culpa o pacto pela perda de milhões de empregos e pelo déficit comercial do país.

Como tem feito desde a campanha eleitoral, ele reiterou a possibilidade de os Estados Unidos deixarem o Nafta. "Talvez não seja necessário, mas ele tem que ser justo para ambos países", afirmou, diante do dirigente canadense, com quem tem "uma relação incrivelmente próxima".

Trump disse na véspera que prefere os acordos bilaterais, em mais um ataque ao "pior acordo comercial já feito pelos Estados Unidos".

Trudeau chegou em meio a fortes tensões pelo conflito entre a construtora aeronáutica canadense Bombardier e a americana Boeing, sua concorrente. Na última rodada de discussões, o Canadá criticou a decisão do departamento de Comércio americano de impor uma taxação de 220% aos aviões CSeries da Bombardier, acusada pela Boeing de receber subsídios públicos e praticar dumping.

Em resposta, Ottawa ameaçou cancelar um pedido bilionário de 18 caças Super Hornet da Boeing.

"Indiquei que era inaceitável o que o Departamento de Comércio e a Boeing decidiram em relação à Bombardier, e que era inconcebível fazer compras militares com a Boeing se ela atua desta maneira", disse o primeiro-ministro canadense à imprensa após reunir-se com Trump.

"As tentativas da Boeing de deixar desempregados milhares de trabalhadores aeronáuticos no Canadá não são algo que consideremos positivo", acrescentou.

Os Estados Unidos são o destino de três quartos das exportações do Canadá, e de 80% das exportações do México, mas as relações trilaterais foram manchadas pelo discurso protecionista de Trump, o que deu origem à renegociação do Nafta.

- 'Perturbações' para todos -

A quarta rodada de negociações sobre o Nafta foi aberta nesta quarta em Arlington, subúrbio de Washington, com o objetivo de cobrir "mais de duas dezenas de temas", disse Robert Lighthizer, representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) e negociador-chefe americano.

"Espero vários dias de trabalho duro", disse, anunciando num comunicado o encerramento do capítulo sobre concorrência, que, segundo explicou, "atualiza substancialmente" o anterior, com "maior equidade processual" e mais "transparência".

"Aqui, o importante é destacar que vamos tratar de conseguir uma renegociação que sirva para todos", disse o ministro de Economia mexicano, Ildefonso Guajardo, à emissora Imagen Radio.

Segundo o último informe do Fundo Monetário Internacional (FMI), "uma mudança para o protecionismo reduziria o comércio e os fluxos de investimento transfronteiriços, prejudicando o crescimento global".

Todos os países do Nafta enfrentariam "perturbações" em suas economias se o acordo fosse interrompido, alertou nesta terça o economista-chefe do FMI, Maurice Obstfeld.

Empresários de Estados Unidos e México expressaram na terça sua preocupação com as propostas mais polêmicas do governo Trump para o Nafta, que podem "condenar" o acordo com o Canadá

Entre as iniciativas que preocupam, estão o endurecimento das regras de origem, a inclusão de uma cláusula de revisão obrigatória a cada cinco anos e a eliminação do mecanismo de solução de controvérsias, alertou Tom Donohue, presidente da US Chamber of Commerce, a maior organização empresarial dos Estados Unidos.

"Há várias propostas ainda na mesa que podem condenar o tratado inteiro", afirmou.