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Campos vê melhora na atividade e diz que meta de inflação ‘não foi abandonada’

Fabio Graner, Alex Ribeiro e Estevão Taiar
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Segundo o presidente do BC, política monetária estimulativa e incentivos como o auxílio emergencial aumentam as chances de uma queda do PIB menor do que a prevista O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, reforçou nesta quinta-feira que a política monetária está estimulando a economia. Ele indicou ver mais chances de que a retração do PIB neste ano seja menor do que as projeções sugerem. "A mensagem que a gente procura dar é que entende que a política monetária está estimulativa", disse em entrevista coletiva para comentar o Relatório Trimestral de Inflação (RTI). Segundo ele, ao contrário da reunião de maio do Comitê de Política Monetária (Copom), atualmente o BC tem viés mais otimista para a atividade econômica. Ele afirmou que o distanciamento social e as medidas de estímulo à economia atuam em sentidos opostos sobre a economia. As medidas adotadas pelo governo, por exemplo, têm dado impulso à atividade. Campos Neto disse considerar bastante pessimista a projeção de queda de 9,1% no PIB brasileiro feita pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e reiterou a mensagem de que o BC considera chances maiores de o PIB ser menos pior do que a queda de 6,4% anunciada hoje pela autoridade monetária. “A gente olha dados de consumo de energia, tráfego, confiança, a gente vê que isso começou a melhorar. Entendemos que estamos numa curva de melhora” O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, acredita que a queda no PIB possa ser menor do que a previsão oficial Leonardo Rodrigues/Valor Outro ponto levado em conta é a eventual prorrogação do auxílio emergencial, como sinalizado pelo governo federal. Segundo Campos Neto, esse é um fator que pode incentivar o consumo e garantir uma retração menor na atividade neste ano. Ele afirmou, porém, que não tem mais informações sobre a possível prorrogação do benefício. "Entendemos, e isso foi mencionado inclusive na linguagem oficial, que esse fator pode gerar essa assimetria, essa concentração de renda neste tempo, fazendo ser um elemento incentivador de consumo", afirmou. O presidente do BC reforçou que a autoridade monetária segue perseguindo a meta de inflação e que o "Copom está atento a revisões do cenário econômico e de expectativas de inflação para o horizonte relevante de política monetária". "A mensagem de forma alguma é que a meta foi abandonada e que o BC passou a olhar a meta de outra forma", disse. Na avaliação de Campos Neto, ainda há espaço para usar a política monetária por meio da taxa básica de juros. Caso o BC considere que não poderá usar mais a Selic, diz, avaliará quais os outros instrumentos têm à disposição para levar à inflação para a meta. "Temos instrumentos e olhamos esses instrumentos em ordem de prioridade. Acreditamos que a política monetária ainda tem espaço. Ainda tem um gap (intervalo) em que acreditamos que o que fizemos vai fazer efeito", disse em entrevista coletiva. "Não abandonamos 2021. A partir do momento em que acharmos que não temos espaço, não vamos abandonar a meta, vamos olhar outras opções." Campos também detalhou as discussões a respeito de como o Comitê de Política Monetária (Copom) enxerga o chamado “lower bound”, um potencial limite para quedas da taxa básica de juros. "Vários fatores foram mencionados. Falamos muito sobre condições financeiras. Será que tenho um juro que, a partir de um limite, gera as condições financeiras contrárias ao que eu pensava?", afirmou. "Outro ângulo que olhamos é o prudencial, com um juro que vai caindo e muda a forma como o sistema financeiro trabalha, se capta em um instrumento, se capta em outro." Outro aspecto discutido foi "quais componentes fazem o canal da politica monetária fluir". "Entendemos que estamos em uma situação em que os bancos levam em conta mais a liquidez que o custo de fundeio", disse, destacando que o colegiado também abordou no debate "reformas e outros equilíbrios". "Discutimos isso com vários ângulos. A análise [sobre o lower bound] embute uma avaliação de risco e retorno" O presidente do BC reforçou a mensagem sobre a necessidade de garantir um horizonte de solidez fiscal no longo prazo. “O fiscal é sim muito importante. Não acredito e o mercado não está reagindo como se o país estivesse em dominância fiscal. Entendemos que se a convergência fiscal ficar desestabilizada, teremos um juro neutro diferente do de hoje”, disse. Ele fez uma avaliação positiva sobre o comportamento do crédito no Brasil nesse período de crise, apesar de ser um dos pontos que vinha sendo mais criticado pelo setor privado. Segundo ele, as medidas do governo foram efetivas no sentido de aumentar a oferta de recursos para empresas e a sensação de insuficiência decorre de um aumento de demanda muito forte, sobretudo das pequenas e médias empresas. “Entendemos que esse canal terá crescimento”, disse. O BC hoje revisou para expectativa de alta de 10% no crédito para pessoa jurídica. Câmbio Campos Neto também comentou que a desvalorização cambial não está levando a problemas, diante de uma menor exposição das empresas ao dólar. A volatilidade do câmbio no Brasil subiu nas últimas semanas, o que tem impactos na economia real, afirmou. Ele reforçou, no entanto, que a autoridade monetária continua considerando que o câmbio deve flutuar. "Acreditamos que o câmbio é flutuante", disse. "No âmbito de câmbio flutuante, dizemos sempre que a nossa forma de intervir não é para ter uma banda, faixa ou limite. É mais para suprir gaps de liquidez. Às vezes entendemos que existe uma precificação relativa que é disfuncional, e essa disfuncionalidade acaba contaminando outros mercados." De acordo com ele, o aumento da volatilidade do câmbio nas últimas semanas tem a ver com a maior liquidez do real na comparação com as moedas de outros países emergentes. "Ou seja: os investidores procuram hedge quando têm algum tipo de problema. Tem tido uma entrada e saída grandes nesse sentido. A gente tem visto que parte da volatilidade recente tem sido gerada por notícias externas", disse. "O BC olha essa alta volatilidade. Obviamente, uma moeda que tem volatilidade muito alta acaba tendo consequências no operacional, principalmente no setor real, então estamos olhando isso", afirmou.