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Campanha de Lula enfrenta desafio para atrair classe média

(Bloomberg) -- Atrair os eleitores da classe média é a maior preocupação da coordenação de campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à medida que sua liderança nas pesquisas de opinião se estagnou a poucas semanas da eleição presidencial, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto.

Esse segmento do eleitorado é um dos principais obstáculos aos esforços de aumentar as intenções de voto no petista, em torno de 43% a 45%, disseram as pessoas, que pediram anonimato. O presidente Jair Bolsonaro tem mais apoio entre os trabalhadores com salários entre R$ 2.400 e R$ 12.000, de acordo com pesquisa DataFolha divulgada em 18 de agosto.

O apoio da classe média brasileira, que representa cerca de um quarto da população, é um importante trunfo eleitoral que impulsionou Lula à sua primeira vitória presidencial em 2002. Esses eleitores mais tarde viraram as costas para Lula e o PT quando passaram a enfrentar uma série de acusações de corrupção, a partir de 2006.

Mais recentemente, esse segmento se tornou o principal beneficiário dos cortes de impostos de Bolsonaro, enquanto Lula tem priorizado os mais pobres, desviando sua atenção da classe média, segundo Deysi Cioccari, professora de ciências políticas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

“No passado, quando Lula apareceu com promessas de melhorias, a classe média foi se tornando simpática ao PT e parte considerável dela votou em Lula e contribuiu para sua eleição”, disse Cioccari. “Mas o PT adotou um discurso de ascensão das classes D e E, sem entender a classe C.”

Alguns assessores aconselham Lula a adotar um tom mais pragmático em seus discursos, se afastar um pouco de sua base de apoio de esquerda e melhorar seu apelo em relação à economia para atrair eleitores de centro e da classe média, segundo dois coordenadores de campanha. A aposta deles é que muitos nesse segmento querem encontrar motivos para votar em Lula porque discordam da visão conservadoras e da retórica agressiva de Bolsonaro.

Na noite desta quinta-feira, Lula concederá entrevista de 40 minutos ao Jornal Nacional, da Rede Globo, noticiário de televisão mais assistido do país. No início desta semana, Bolsonaro procurou alcançar mais brasileiros e conquistar votos moderados por meio de sua aparição no programa.

A classe média brasileira ganha entre R$ 1.350 e R$ 9.000 por mês e gasta cerca de 20% de sua renda em saúde e educação, de acordo com o Ipea. Embora ela tenha sido atingida por inflação e juros altos, Bolsonaro promover certo alívio com cortes de impostos sobre combustíveis e serviços públicos que levaram à maior queda de preços ao consumidor no meio do mês já registrada, bem como o fim das taxas sobre bens diretamente ligados à classe média, como videogames, skates e whey protein.

A cinco semanas do primeiro turno, os planos de Lula para conquistar a classe média não estão claros. O ex-líder sindical prometeu simplificar o sistema tributário para garantir que os ricos contribuam mais e os pobres paguem menos. Não há menção a um alivio tributário para a classe média.

Outra proposta de Lula é isentar o imposto de renda dos que recebem abaixo de R$ 5.000, sem detalhatar nenhum benefício para a massa trabalhadora que ganha um pouco mais do que isso.

Essa falta de propostas claras para este segmento do eleitorado tem reflexo direto nas pesquisas de opinião. Cerca de 41% dos brasileiros que ganham entre R$ 2.400 e R$ 6.000 apoiam Bolsonaro, ante 38% para o ex-presidente, segundo pesquisa DataFolha.

Entre os eleitores que ganham de R$ 6.000 a R$ 12.000, a diferença é ainda maior, de 47% para o titular e 34% para seu rival de esquerda. No geral, Lula ganharia 47% dos votos no primeiro turno, contra 32% de Bolsonaro, mostrou a pesquisa.

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