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Campanha eleitoral começa na Nicarágua com o caminho livre para Ortega

·4 minuto de leitura
Daniel Ortega (AFP/Gustavo IZUS)

A Nicarágua inicia oficialmente neste sábado a campanha para as eleições presidenciais de 7 de novembro, com o caminho livre para que o presidente Daniel Ortega tente um quarto mandato consecutivo após a detenção de seus principais adversários.

Ortega, de 75 anos, está no poder desde 2007 após duas reeleições sucessivas e modificações nas leis que o impediam de se perpetuar no poder.

Ele encabeça a aliança "Nicarágua Triunfa", liderada pela ex-guerrilha de esquerda Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), e integrada por uma dezena de movimentos afins.

Como colega de chapa o acompanha pela segunda vez sua esposa e vice-presidente, Rosario Murillo, a face visível e operacional do governo.

A campanha transcorre em um clima tenso pelas detenções desde junho de 37 opositores até agora, acusados de lavagem de dinheiro, conspiração e promoção de medidas contra a Nicarágua, e pelas sanções internacionais em resposta ao governo de Ortega.

"As pessoas estão convencidas claramente de que aqui vai haver um processo eleitoral nada transparente e que, até certo ponto, está consignado que a Frente Sandinista vai ganhar", disse o ex-diplomata e analista Edgar Parrales.

- Recorrer a velhos símbolos -

Todas as acusações contra os opositores se baseiam em leis recentes aprovadas pelo Parlamento governista.

Ortega assegura que os detidos tentavam gerar "uma onda de terrorismo" durante as eleições e acusa também Washington de financiá-los e de buscar um candidato opositor de sua preferência.

Ele vincula, ainda, estas acusações aos protestos contra seu governo em 2018, cuja repressão deixou mais de 300 mortos e milhares de exilados, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. O governo atribuiu os protestos a um golpe de Estado frustrado.

Recentemente, os sandinistas restituíram em uma colina de Manágua as gigantescas siglas partidárias que usaram em 1980, quando governaram o país pela primeira vez, após a vitória de sua revolução em 1979 contra a ditadura de Anastasio Somoza.

O rótulo tinha sido removido em 1990, quando Ortega perdeu as eleições para Violeta Barrios de Chamorro.

"Precisam recriar o cenário dos anos 90, que é de guerra, e por isso falam de imperialismo e da CIA pagando a oposição", advertiu em julho à AFP Zoilamérica Ortega Murillo, de 53 anos, filha adotiva do presidente, a quem acusou de abuso sexual.

"É no cenário bélico onde jogam melhor", acrescentou, em alusão aos seus pais.

- Sem Cristiana Chamorro -

O ex-guerrilheiro desenvolverá sua campanha contra cinco candidatos de partidos da direita com pouca popularidade, autorizados a participar pelo Conselho Supremo Eleitoral (CSE).

Assim como nas eleições de 2016, os principais partidos da oposição ficaram de fora.

A principal aliança opositora, reunida no Cidadãos pela Liberdade (CXL, direita), foi inibida em julho pelo CSE, argumentando problemas na cédula de identidade de sua presidente, Kitty Monterrey, de nacionalidade nicaraguense e americana. Ela fugiu do país temendo represálias.

Pouco antes, sete aspirantes à Presidência que tentavam em sua maioria definir uma candidatura única sob a bandeira do CXL, foram detidos.

Entre eles, Cristiana Chamorro, filha da ex-presidente Violeta Barrios de Chamorro (1990-1997), e favorita nas pesquisas para enfrentar Ortega.

Ortega "não permitiu outro candidato mais do que ele em seu partido, e agora, segundo parece, não permitirá outro presidente que não seja ele", disse em julho à AFP o jornalista Fabián Medina, autor de uma biografia do presidente.

- Cercear as liberdades -

Aos 37 detidos deste ano, somam-se mais de 120 nicaraguenses presos após terem participado dos protestos contra Ortega em 2018.

"Cercearam nossas liberdades de circulação, de expressão, com prisões e tortura, mas não poderão nos obrigar a participar do seu circo" eleitoral, denunciaram esta semana organizações de presos políticos e libertados.

Na quinta-feira, os chanceleres de Canadá, Colômbia, Equador, França, República Dominicana, Chile, Reino Unido e Estados Unidos emitiram uma declaração sobre o "rompimento" da ordem democrática na Nicarágua.

"Unimo-nos a declarar a Ortega-Murillo que as democracias rejeitarão a repressão política, os abusos dos DH e o desmantelamento da democracia", disse Brian Nichols, vice-secretário de Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado.

A campanha também transcorre com medidas restritivas por uma alta dos contágios da covid-19, sem autorizações para caravanas, nem aglomerações de mais de 200 pessoas em um comício.

A medida contrasta com a negativa das autoridades em decretar quarentenas durante a pandemia e promover atividades recreativas e turísticas com alta participação do público.

"O estranho deste assunto é que a Frente Sandinista vem realizando atos maciços pré-eleitorais ao longo deste ano (...) e agora começam a dizer que ninguém se concentre" por causa da pandemia, observou Parrales.

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