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Caminhoneiros dizem que polarização política atrapalha mobilização

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A postura de caminhoneiros diante dos recentes aumentos de preço dos combustíveis vem sendo influenciada pela polarização política que divide a categoria, segundo entidades ouvidas pela reportagem.

Enquanto muitos mantêm apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL), como em 2018, outros se decepcionaram e fazem críticas ao mandatário.

As lideranças também acusam umas às outras de interesses pessoais, que estariam minando a capacidade de mobilização.

Uma caravana contra a atual política de preços da Petrobras, marcada para começar no dia 20 em Curitiba (PR), por exemplo, estaria sendo atrapalhada por esse racha político, afirma José Roberto Stringasci, representante em São Paulo da ANTB (Associação Nacional de Transporte do Brasil).

Ele diz que já foi chamado de bolsonarista e de comunista. "A maioria [das lideranças] não luta para melhorar nada para o Brasil, luta por si próprio ou para tentar algum benefício para as entidades deles. Uns são a favor do governo, outros são contra, mas acho que deveriam ver mais o lado dos brasileiros, esquecendo um pouco essa parte política", diz.

Para contornar as acusações e reforçar o caráter apartidário da caravana, ele afirma que resolveu pintar a carreta de verde, amarelo e vermelho --seria uma forma "não desagradar ninguém", diz.

Presidente da CNTRC (Confederação Nacional do Transporte Rodoviário de Cargas), Plínio Dias avalia que o calendário político tem feito com que várias lideranças dos caminhoneiros prefiram ser cautelosos para não bater de frente com os apoiadores de Bolsonaro.

Como Stringasci, ele também tenta articular uma mobilização --nesse caso, para 21 de maio, data de início da paralisação de 2018, que parou o país.

"Quando a gente lança um grito de mobilização, [algumas lideranças] querem confundir as pessoas, como se estivéssemos fazendo movimento político para tirar Bolsonaro do governo, coisa que não existe na nossa pauta."

Na sua visão, a intenção desses dirigentes é usar o nome da categoria para se lançar candidato nas eleições no final do ano.

Dias afirma ter votado no presidente em 2018, mas agora prefere se manter neutro, apesar de ser filiado ao Progressistas, partido que faz parte da base do governo no Congresso.

"Não estou declarando o meu voto para o Bolsonaro porque eu atendo gente da direita, da esquerda, do centro, tudo certinho. Na campanha passada, gastei do meu bolso viagens para fazer campanha para o presidente Bolsonaro. Mas hoje não faço mais isso não", diz ele, apesar de não descartar a possibilidade de votar novamente em Bolsonaro.

Dias afirma ter esperança de que a desarticulação da categoria mude à medida que outros estados sigam os caminhoneiros autônomos do Espírito Santo, que decidiram começar uma paralisação a partir desta quinta-feira (12).

Para Carlos Alberto Dahmer, diretor da CNTTL (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transporte e Logística), o calendário eleitoral não tem atrapalhado, mas sim os interesses pessoais de algumas lideranças.

"Daqueles que conheço, nenhum teve uma postura que tenha me surpreendido. É aquela turma que, entra governo, sai governo, e eles estão naquela postura do 'hay gobierno, soy' totalmente favorável", diz.

Ele defende a participação na caravana do dia 20, apesar da polarização e dos mal entendidos que têm acompanhado a sua organização.

"Existem várias críticas porque a caravana é de centro, é de esquerda, tem [crítica] de tudo que é jeito. Mas do meu ponto de vista estou nela porque defende o que eu defendo, que é o fim do PPI (Paridade de Preços Internacionais)", afirma Dahmer.

Stringasci, da ANTB, e Dias, da CNTRC, criticam a postura da CNT (Confederação Nacional do Transporte), que representa as transportadoras, e da CNTA (Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos), dos caminhoneiros autônomos, por considerar que não atuam adequadamente na defesa dos interesses dos caminhoneiros nem das transportadoras, no caso da CNT.

"Elas deveriam organizar reuniões, chamar os representantes dos sindicatos, os representantes estaduais, para discutir os problemas do setor, mas não fazem isso", diz Dias.

Procurada pela reportagem, a CNTA afirmou, por meio de sua assessoria, que não iria comentar as críticas à atuação da entidade por preferir "se abster em comentar assuntos com caráter político".

Por meio de nota pública, a CNTA defendeu "uma ação conjunta de todos os setores que dependem do diesel para o exercício de sua atividade econômica", com foco na recomposição dos valores dos serviços prestados pelo caminhoneiro autônomo.

A CNT informou, por meio de sua assessoria, que o presidente da conferedação, Wander Costa, estava em reunião e não poderia comentar as críticas.

Em nota pública do mês passado, a entidade defendeu o repasse dos aumentos do preço do diesel para os fretes pagos aos caminhoneiros.

"O transporte rodoviário de cargas é um serviço essencial e se mostrou imprescindível durante a pandemia, contudo, é inviável que as empresas continuem absorvendo as altas dos preços do combustível", afirmou.

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