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'Caminhão de ossos' no Rio é disputado por população com fome

·3 minuto de leitura

RIO DE JANEIRO, RJ, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A crise econômica gerada pela pandemia trouxe de volta uma ameaça para parte dos brasileiros: a fome. Com inflação e desemprego elevados, o país passa a registrar mais cenas de pessoas em busca de doações de alimentos e até de itens rejeitados por supermercados.

O caso mais recente a ganhar repercussão ocorreu na zona sul do Rio de Janeiro. Reportagem do jornal Extra mostrou, nesta quarta-feira (29), que um caminhão com restos de carne e ossos virou ponto de distribuição para moradores que têm fome e não possuem dinheiro suficiente para comprar alimento.

Comerciantes da região relataram à reportagem que a cena costuma ocorrer durante a manhã, em parte da semana. A reportagem tentou contato com os responsáveis pela distribuição, mas não obteve retorno.

Cenas como essa não são exclusividade do Rio. Durante a pandemia, cidades como Cuiabá (MT) também registraram filas de pessoas em busca de doações de restos de ossos de boi. Os resquícios de carne acabam virando prato principal na casa de quem sofre com dificuldades financeiras.

A organização social Viva Rio afirma que percebeu um aumento na fome com a chegada da pandemia. Por isso, ajudou a promover uma campanha de doações de alimentos na fase inicial da crise sanitária. Segundo a organização, cerca de 400 comunidades do estado do Rio foram beneficiadas.

Como mostrou reportagem do jornal Folha de S.Paulo em julho, nem o feijão com arroz escapou da alta da inflação e do desemprego. A aceleração de preços e renda em queda mudaram o cardápio dos brasileiros mais pobres, que se viram obrigados a optar por produtos mais baratos. Moradores de periferia passaram a recorrer até a pé de frango contra fome.

Em 2020, a fome atingiu 19 milhões de brasileiros, conforme dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, conduzido pela Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional). O levantamento foi divulgado em abril.

Durante sessão da CPI da Covid nesta quarta-feira, o senador Humberto Costa (PT-PE) comentou, com críticas ao governo, o caso de pessoas garimpando restos de carne entre ossos no Rio.

"Não sei se o senhor viu, na foto de um jornal, um bocado de carcaça de osso e umas pessoas querendo levar aquilo ali, que antigamente compravam pra dar para os cachorros, e hoje as pessoas compram para fazer sopa e comer o resto da carne", disse, durante sua fala no depoimento do empresário bolsonarista Luciano Hang.

O senador disse que "é isto que este governo e esse projeto causaram ao nosso país: uma tragédia sanitária, econômica, social e política".

"É o governo que gerou a maior crise ambiental que este país já teve. Uma vergonha -uma vergonha- no mundo, uma crise energética, apagão. Coisa que a gente pensava que nunca ia mais acontecer, por quê? Porque esse presidente não governa, ele terceirizou o governo, ele entregou pra mão de todo mundo", afirmou.

A crise gerada pela Covid-19 trouxe consigo uma combinação que atinge em cheio o bolso dos brasileiros: aumento do desemprego e da inflação. Em conjunto, esses fatores reduzem o poder de compra da população, sobretudo entre os mais pobres.

Dados compilados pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) ajudam a entender o cenário. Para as famílias de renda mais baixa, a inflação acumulada em 12 meses até agosto alcançou 10,63%, a maior marca entre as seis faixas de rendimento pesquisadas.

No segundo trimestre deste ano, a taxa de desemprego recuou para 14,1% no país, conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Contudo, o país ainda registrava um exército de 14,4 milhões de desempregados.

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