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Camarão e Pedrinho: dupla popular no Recreio surfa sem jet-ski ou colete e se arrisca no mar grande por puro prazer

·6 minuto de leitura

RIO — Lucas Cruz, de 23 anos, conhecido como Camarão, e Pedro Ribeiro, 24 anos, o Pedrinho, cresceram no Recreio e desde crianças surfam juntos. Na verdade, a dupla está sempre junta, como sabe quem costuma frequentar as praias do Recreio e da Macumba bem cedinho. No dia da entrevista, depois do trabalho, Camarão foi para a casa de Pedrinho para jantar e fazer aula de inglês. Os dois, inclusive, selecionaram juntos as imagens que compõem esta reportagem. No mar, não é diferente. Quando as ondas estão grandes, daquelas que deixam inclusive muitos outros surfistas ressabiados, é que Camarão e Pedrinho saem à caça de aventura. Entram juntos na água (de pranchão ou pranchinha, depende das ondas e dos objetivos) e, como não têm equipe de apoio, jet-ski ou coletes, um faz a segurança do outro.

— Tentamos até mesmo pegar a mesma onda, para não deixar o outro sozinho dentro do mar, e não nos perdemos de vista — conta Pedrinho. — Não temos dinheiro para pagar jet-ski e entramos na disposição, remando. O surfe é um esporte de luxo. Não usamos nem streps, porque eles não resistem no mar grande.

A paixão pelas ondas é o que move a dupla, que vive de dar aulas na praia. Participar de campeonatos, sonho de muitos surfistas, simplesmente não está nos seus planos. A graça é se desafiar e desafiar as ondas, como aconteceu no fim de abril, quando uma ressaca encheu as praias da cidade de ondas grandes e eles se esbaldaram nas praias da Barra, do Recreio e de Copacabana. E conversar com a galera que está na areia e costuma abordá-los para comentar sobre sua performance.

Pedrinho conta que o surfe o estimula a querer evoluir e chegar a seu limite. Dentro d’água, afirma, não pensa em nada. É puro relaxamento. Quer dizer, nem sempre:

— Eu fico conectado com aquele momento. Mas o mar grande acelera meu coração e me faz querer ondas cada vez maiores.

Filmes e vídeos inspiraram Camarão a buscar o mar grande. A adrenalina é o que o move.

— Claro que temos medo, faz parte, mas é preciso saber controlá-lo. Para estar no mar grande tem que saber manter a calma, não entrar em desespero, porque, caso contrário, é afogamento na certa. O mar me traz paz, liberdade e conexão com a natureza e comigo mesmo — destaca.

Pedrinho foi morar no Recreio com poucos meses de vida. Quando era pequeno, seus pais não o deixavam brincar na rua, mas à praia ele podia ir. Com 7 anos, ganhou sua primeira prancha.

— Meu pai, que nunca surfou, me ensinou o esporte, e foi bem natural. Como eu não podia ficar na rua, vivia na praia — recorda.

Já Camarão ganhou a primeira prancha, usada, aos 11 anos. Lembra que ela custou cerca de R$ 200, e era a que sua mãe tinha condições de comprar:

— Com 8 anos eu ia para a praia sozinho. Toda vez que minha mãe me procurava, era lá que eu estava. Um dia, um guarda-vida disse para ela me matricular em uma escolinha, para a minha segurança. Foi quando eu comecei a pegar onda. Antes era só bodysurf (esporte semelhante ao bodyboard).

Ídolos como Andy Irons, Bruce Irons, Kelly Slater, Clay Marzo, Kai Lenny, Pedro Calado, Lucas Chumbo, Felipe Toledo e John John Florence inspiram os jovens. O último, Pedrinho teve chance de conhecer quando morou no Havaí de 2015 a 2016.

— Mesmo sendo o cara mais sinistro, ele é muito humilde — conta o mineiro.

Pedrinho foi morar no Havaí quando terminou a escola e não sabia qual faculdade cursar. As ondas foram fundamentais na escolha do seu destino.

— Foi lá que me acostumei a surfar ondas grandes. Quando voltei, já não sentia tanto medo. Além de surfar, arrumei um trabalho e aprendi inglês — diz ele, que na volta se formou em Relações Internacionais.

Camarão quer estudar Educação Física. Aulas de surfe, hoje, já são sua fonte de renda:

— Ninguém na minha família surfava, e hoje minha mãe acha maneiro que eu viva do esporte. Quando eu era mais novo, me diziam que isso era coisa de vagabundo. Mas fiz a minha vida e já moro sozinho. Comecei com uma prancha e depois consegui mais equipamentos.

O surfe também é uma forma de criar ou estreitar laços. Foi o esporte que o aproximou de seu irmão mais velho, de 45 anos:

— Antes, não éramos amigos. Dei aula para ele e hoje, quando chego à praia, às 5h, váris vezes ele já está na água.

Pedrinho, que também dá aulas, é outro que quer cursar Educação Física. Os jovens precisam do diploma para terem suas próprias escolinhas.

— É muito legal ver o desenvolvimento dos alunos. Até quem não fica nem em pé no começo se vicia rápido no esporte — destaca.

Além de Pipeline e Jaws, no Havaí, o mineiro já surfou na Califórnia e no Peru. Agora, sonha com as ondas de Shipstern Buff, na Tasmânia. Camarão já esteve no México e tem uma lista de lugares que pretende conhecer: Havaí, Austrália, Ilhas Mentawai (na Indonésia), Taiti, Costa Rica, Portugal, Nicarágua, El Salvador, Marrocos. Juntos, os dois já fizeram três surf trips, para Arraial do Cabo, Cabo Frio e Itamambuca (SP).

— Depois da faculdade, quero juntar uma grana para ir atrás das ondas, virar free surfer. Surfo por amor. As ondas grandes me fazem me superar — conta Camarão.

Pedrinho foi bicampeão carioca de longboard na categoria sub 18. Camarão, que na adolescência sonhava se tornar profissional, chegou a competir, aos 14 anos. Em uma prova de ondas bravas, em Angra dos Reis, ficou em segundo lugar. Mas aos poucos ambos foram percebendo que seu prazer era surfar sem compromisso.

— E aqui no Rio os campeonatos não são bem remunerados. Mesmo se a gente ganhasse, sairia no prejuízo financeiro — acredita Pedrinho.

Embora não queiram ficar famosos nem vencer competições, os dois dizem que não seria nada mal ter um patrocinador.

— Vamos na adrenalina do momento, é isso que nos move. O patrocínio nos ajudaria a conquistar nossos objetivos com mais facilidade e conforto — diz o mineiro.

Camarão acredita que a dupla faz sucesso pela atitude:

— Entramos em mares em que poucas pessoas entram. Não são todos os que gostam dessa adrenalina e têm coragem. Por isso, acho que tem gente que nos acompanha e admira.

Para ver a performance da dupla, é só chegar cedo, muito cedo, à Praia da Macumba. Se eles não estiverem por lá, é porque foram para outro ponto do Recreio, ou decidiram variar e rumaram para Copabacana, na altura do Posto 5. Ou para o Leme.

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