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A calmaria, o inconveniente e brincadeiras: As 48 horas de Mourão no comando do país

·3 minuto de leitura

BRASÍLIA - Enquanto o presidente Jair Bolsonaro disseminava informações falsas no púlpito da ONU em Nova York, seu vice Hamilton Mourão cumpria uma breve interinidade evitando holofotes e colecionando silenciosamente alguns dissabores. Nas 48 horas em que esteve à frente do Poder Executivo, Mourão foi ignorado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e ainda viu um pedido pessoal ao chanceler Carlos França não ter surtido efeito.

Na segunda-feira, num breve contato com jornalistas, Mourão anunciara que o ministro da Economia tinha ficado no Brasil para resolver questões da política econômica, uma delas o espinhoso imbróglio dos precatórios - um míssil de R$ 89 bilhões que se aproxima do orçamento de 2020. E foi justamente de Guedes que partiu o inconveniente registrado na interinidade do vice no Palácio do Planalto. O ministro foi para uma reunião com os presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), para tratar dos precatórios e sequer comunicou o chefe em exercício. O silêncio foi sentido por Mourão.

No período em que Bolsonaro esteve fora, eles não se falaram. O último contato ocorreu no domingo - com direito a um abraço, algo pouco visto entre um presidente e um vice que já não escondem mais as diferenças. Na despedida, nenhum recado ao chefe, mas, sim, a dois auxiliares dele. Mourão pediu ao chanceler, Carlos França, e ao ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, ambos integrantes da comitiva, que ajudassem o presidente a fazer um discurso moderado para a reunião internacional. Não surtiu efeito, só não se sabe se o pleito do vice ou a tentativa de intervenção de França e Leite.

O colunista do GLOBO Lauro Jardim revelou que, de fato, a dupla escreveu um texto, mas que foi alterado por Bolsonaro. Ao fim, o presidente subiu ao púlpito e, entre outras coisas, defendeu o uso do que chama de tratamento precoce contra a Covid-19, cuja eficácia não é comprovada pela ciência.

Na interinidade, Mourão preferiu a discrição e, de posse da caneta mais importante do Brasil nas mãos, assinou apenas despachos burocráticos. E evitou um encontro polêmico como uma audiência solicitada pelos irmãos Chiquinho Brazão (Avante-RJ), deputado federal, e Chiquinho Brazão, conselheiro de Tribunal de Contas do Rio (TCE-RJ) e suspeito de participação no assassinato da vereadora Marielle Franco.

O vice-presidente, ao saber que assumiria o posto enquanto o Bolsonaro estivesse no exterior, dispensou a estrutura-extra a que teria direito. Além dos três carros com seguranças que os acompanham diariamente, ele poderia contar com outros dois automóveis e uma ambulância. Também rejeitou ocupar o gabinete presidencial no terceiro andar do Palácio do Planalto e continuou despachando de sua sala, no anexo.

- Sigo a lógica militar: subcomandante não senta na cadeira do comandante - costuma justificar a pessoas de confiança.

Ao falar com a imprensa na segunda, reagiu com bom humor quando lhe perguntaram do time de coração, o Flamengo. A paixão flamenguista está à mostra no escudo do clube que exibe na sua máscara de proteção. Ao ouvir provocações sobre a derrota de seu time para o Grêmio no dia anterior, brincou com os jornalistas que o aguardavam.

- Assim vou-me embora. É só para zoar comigo.

Com o retorno de Bolsonaro ao país na madrugada desta quarta-feira, Mourão retornou ao posto de vice sem criar marolas com Bolsonaro. A interlocutores de confiança, fez uma brincadeira. Disse que, até o retorno do presidente, iria pensar se aceitaria a sugestão dada por um meme e assinaria um decreto que proíbe a entrada no Brasil de pessoas que não tenham tomado as duas doses da vacina - a exemplo do presidente da República.

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