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Califórnia é vítima da guerra comercial de Trump com a China

Por Javier TOVAR
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Contêineres sendo carregados em barcos no Porto de Long Beach, Califórnia, em 6 de julho de 2018

De motores de carros e chips de computadores a pistaches e amêndoas, passando pelo vinho: a poderosa economia da Califórnia será seriamente impactada, se a guerra comercial entre Estados Unidos e China se aprofundar.

São bilhões de dólares e inúmeros postos de emprego em risco no estado mais rico e populoso do país, considerado um bastião da oposição ao presidente Donald Trump.

"Se há uma região nos Estados Unidos que será impactada por esta guerra comercial é Los Angeles", disse à AFP Stephen Cheung, ex-diretor de Comércio Internacional do Porto de Los Angeles e presidente da ONG World Trade Center Los Angeles.

"No ano passado, tivemos (nos portos da região) mais de 170 bilhões em importações e exportações diretamente com a China, é nosso principal parceiro comercial", explicou.

As duas maiores economias do mundo atravessam uma disputa árdua, que ameaça desequilibrar o comércio internacional.

Cada ação dos Estados Unidos é respondida por Pequim com uma represália imediata e equivalente.

"Nosso temor é que esse ciclo continue crescendo a um ponto de recuo da economia", apontou Cheung.

- 'Muito preocupados' -

A Califórnia é a quinta maior economia do mundo, com um PIB de 2,7 trilhões de dólares, superior ao da Grã-Bretanha.

Neste estado de 40 milhões de habitantes funcionam as poderosíssimas empresas do Vale do Silício e os grandes estúdios de Hollywood.

São exportados carros elétricos, motores, autopeças e resíduos de papel e alumínio, além de alimentos.

Pistaches, amêndoas, laranjas, nozes, ameixas, limões e morangos estão entre os produtos agrícolas impactados pelas represálias chinesas.

"Embora não conheçamos as ramificações exatas que essas tarifas terão em nossos cultivos, entendemos que a perda do mercado chinês levará outros fornecedores estrangeiros a entrarem, gerando a perda de oportunidades de vendas a longo prazo para nossos agricultores", disse à AFP Sara Neagu-Reed, da federação agrícola da Califórnia (CFBF).

A China foi o terceiro maior mercado para a agricultura da Califórnia, depois da União Europeia e do Canadá, com um valor de 2 bilhões de dólares em 2016.

"Estamos muito preocupados", disse Holly King, chefe do conselho de produtores de amêndoas da Califórnia, de onde 518 milhões de dólares foram exportados em 2016, segundo a CFBF, e agora têm uma tarifa de 50%.

Os pistaches, que representaram 530 milhões de dólares, encaram um imposto de 45%.

Casey Cramer, vice-presidente da Mutual de cítricos da Califórnia, que representa 2.500 produtores, indicou que por ora a organização está "focada em apoiar o governo" ante às "práticas comerciais [chinesas] que prejudicaram a indústria".

Trump, que quer reduzir o déficit com a China, acusou outros países de se aproveitarem dos Estados Unidos.

Muitos produtores concordam que existem práticas desleais da potência asiática, mas "em vez de usar as tarifas como tática", sugeriu Cheung, "a solução é negociar de boa-fé" e alcançar um acordo benéfico para todos.

- 'Frustrante' -

O vinho recebeu uma tarifa de importação de 35% na China, interrompendo o negócio de Michael Honig, que tem uma vinícola em Napa.

"Começamos a exportar há dez anos para a China e construímos um bom mercado", disse à AFP. "E agora vimos que tudo parou": seu comprador na Ásia quer ver o que vai acontecer antes de voltar a comprar. "É frustrante".

Mario Cordero, CEO do porto de Long Beach, que, com o de Los Angeles, movimentou 7,5 milhões de contêineres em 2017, disse à AFP que até agora não viu "nenhuma alteração". "Em seis meses teremos uma ideia" dos efeitos, estimou.

A ONG California Budget & Policy Center alertou que as indústrias afetadas neste estado têm mais de 285.000 empregos.

Para Cheung, a alta no preço ao consumidor deve ser sentida nas próximas semanas, aumentando a preocupação dos importadores com suas aquisições.