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Café pode gerar riqueza no pobre Vale do Jequitinhonha

MARCELO TOLEDO

CAPELINHA, MG (FOLHAPRESS) - O cafeicultor Erildo José de Oliveira, 58, ficou pensativo quando soube que seu vizinho, que assim como ele é dono de uma pequena propriedade, viu seu café ser avaliado como de alta qualidade, e o dele, não. "Se meu vizinho tem café bom, imagino que produzo café de qualidade, pois nossas condições são as mesmas", disse.

Oliveira mora no Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais pobres do país. Está há 20 anos em Chapadinha, distrito de Capelinha, que reúne, num raio de apenas três quilômetros, mais de 40 pequenos produtores. Por safra, produz 200 sacas em 5 hectares (o equivalente a sete campos de futebol).

Mas Oliveira não sabe nem a altitude de sua propriedade em relação ao nível do mar -altitudes maiores são benéficas para o café-, tampouco a qualidade comprovada de sua produção. O que ele sabe é que precisa ganhar mais e, como outros pequenos produtores, resolveu procurar o ICCM (Instituto do Café da Chapada de Minas), lançado na terça-feira (12) em Capelinha (MG), uma das 22 cidades incluídas num programa em parceria com o Sebrae-MG.

O projeto consiste em demarcar áreas de produção de qualidade, implantar governança atuante, rastrear toda a produção, emitir selo de origem e gerar impacto coletivo aos produtores e região, segundo Cláudio Castro, analista técnico do Sebrae que atuou na implantação do programa.

Há café na região desde a década de 1970, mas dificuldades como a escassez hídrica -só choveu três dias nos últimos quatro meses- fizeram com que muitos produtores deixassem o setor e migrassem para a produção de eucalipto. Além disso, falta dinheiro para investir no café.

O PIB (Produto Interno Bruto) de todo o vale equivale a menos de 2% do total de Minas Gerais, mas, com 5.800 produtores de café na região da Chapada de Minas, cafeicultores e entidades apostam no programa como forma de ajudar a reduzir a pobreza na região. O investimento é de cerca de R$ 1 milhão, a maior parte bancada pelo Sebrae.

Entre as especificidades da região que tem como vegetação predominante o cerrado, estão solo, altitude (entre 700 metros e 1.300 metros acima do nível do mar) e clima favoráveis à produção.

Um hectare hoje custa no máximo R$ 20 mil, ante preços que podem chegar a R$ 40 mil em outras regiões mineiras, como o sul do estado. No espaço, produtores plantam em média 4.000 pés de café.

A cultura na região atinge até 400 mil sacas por ano, é produzida numa área de 30 mil hectares (42 mil campos de futebol) e gera 20 mil empregos diretos e indiretos em uma população total de 362 mil habitantes.

Vizinho de Oliveira, Agenaldo Cordeiro Gomes, 39, conseguiu vender 571 sacas, das cerca de 800 que produz por safra, como café de qualidade superior --acima de 80 pontos, numa classificação que vai até 100.

"A gente tem qualidade, mas só nós sabemos disso. Agora, todos saberão", afirmou. A qualidade, porém, não resultou em grandes ganhos até aqui: recebeu apenas R$ 20 a mais por saca de 60 quilos (hoje vendida a menos de R$ 400). Cafés com pontuações semelhantes e que participam de concursos chegam a ser comercializados por valores que superam R$ 3.000 em outros locais do país.

Os cafés da região têm sabores adocicado, achocolatado e caramelo com notas de frutas vermelhas, com aroma intenso e amanteigado e corpo intenso e aveludado, resultado das características de solo, clima e relevo locais.

A avaliação é do instituto, que foi lançado com 70 associados, entre pequenos, médios e grandes produtores.

Após colhido, o café verde (não torrado) será avaliado pelo ICCM, que concederá a certificação aos lotes com notas acima de 80 pontos --o que o inclui numa lista de cafés de qualidade superior. Com o selo em mãos, o cafeicultor poderá vender a produção para quem quiser, com preços mais elevados.

"A origem controlada é um instrumento de desenvolvimento e trará evolução para o produtor e mais compradores e interessados à região, principalmente por ser uma região como o Jequitinhonha", afirmou Paulo Vischi, consultor do Sebrae.

Há municípios no vale cujos moradores dependem quase que exclusivamente de empregos públicos ou programas sociais, especialmente após a mecanização das lavouras de cana no interior de São Paulo, para onde migravam anualmente.

"Não se toma só um café mais, vive-se uma experiência. É o que queremos aqui", disse Lidia Meireles, presidente do instituto. Processos semelhantes já foram desenvolvidos em outras regiões mineiras, como o cerrado, Mantiqueira e Matas de Minas. Há, ainda, o chamado café vulcânico, na região de Poços de Caldas.

A identidade local também quebra a disputa entre regiões sobre quem produz o melhor café, na avaliação do superintendente do Sebrae-MG, Afonso Maria Rocha, por realçar as características de cada um.

A indústria vê o lançamento da marca de forma a valorizar o café da região. Também produtor rural, o empresário Ildeu Geraldo Caldeira disse que o setor vai melhorar por colocar selos de origem nas embalagens que produz, ganhando mercado no país. Há cerca de 15 torrefadoras no entorno de Capelinha.

"Se difunde muito a pobreza da região, mas ela tem muito potencial. Nosso café é mais reconhecido [em concursos] do que efetivamente conhecido. Agora isso pode mudar", afirmou o produtor Marcilio Rocha, 29, um dos membros do instituto.