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Britânicos estão estocando alimentos e medicamentos para enfrentar o Brexit

Jo Elgarf tem medo de ficar sem os remédios da filha, Nora. Foto: REUTERS/Henry Nicholls

Por Tom Belger

Um número cada vez maior de britânicos está fazendo estoques de alimentos, medicamentos e outros suprimentos, pelo medo das consequências, caso o Reino Unido deixe a União Europeia sem um acordo em outubro.

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É possível que a população tenha que enfrentar a escassez de alimentos, combustível e remédios, além de atrasos nas fronteiras referentes às importações e exportações do Reino Unido. É o que afirma um relatório vazado do governo britânico intitulado ‘Operation Yellowhammer’, publicado no último domingo.

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Uma pesquisa realizada na semana passada indicou que uma em cada cinco pessoas começou a fazer estoques de emergência, comprando centenas de libras em produtos extras e gastando um total estimado de £4 bilhões (equivalente a mais de R$19 bilhões) até o momento.

O Yahoo Finance UK conversou com quatro britânicos sobre seus medos da escassez de produtos importantes, desde remédios fundamentais para as crianças até o papel higiênico. Alguns deles estão comprando uma quantidade de alimentos enlatados que seria suficiente para meses sem novas compras.

Melvin Burton, 46 anos, Ely: “Eu devo ter cerca de quatro ou cinco meses de estoque de comida”

Melvin Burton começou a construir o seu estoque seis meses após o referendo em 2016. Fotos: Melvin Burton / Handout

Melvin Burton, que trabalha com softwares de TI, tem centenas de latas, vidros e outros produtos alimentícios em sua casa em Ely, suficientes para que sua família sobreviva por “quatro ou cinco meses”.

Ele começou a estocar alimentos seis meses após o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia em 2016, e alertou que seria “complacente” confiar no governo e nas empresas para ter acesso a suprimentos essenciais.

Como havia poucos recursos que pudessem ajudá-lo a montar seu estoque no Reino Unido, na época, ele usou guias de preparação dos Estados Unidos. No entanto, o foco principal deste material era sobreviver “ao apocalipse ou a guerras nucleares”.

Burton, que mora com a mulher e uma filha de oito anos, também consultou um guia mórmon de sobrevivência.

Como muitos dos conselhos relacionados aos Estados Unidos tinham como objetivo “estocar comida por 20 anos”, ele decidiu comprar versões duráveis dos alimentos que já está acostumado a consumir – lentilha, atum, feijão, ervilha, e outros enlatados.

Ele também importou ferramentas dos Estados Unidos para começar a enlatar seus próprios vegetais, e acredita que a família vai consumir a maior parte da comida estocada, mesmo que não seja necessário.

Os suprimentos de Melvin Burton para o Brexit. Foto: Melvin Burton / Handout

Burton instalou uma ducha higiênica no banheiro caso não seja possível encontrar papel higiênico, e também tem estoques de paracetamol e anti-histamínicos.

“Eu fiz uma análise de risco e escrevi o que poderia acontecer,” disse ele. “Se os caminhões ficarem retidos nas fronteiras e isso provocar a escassez nas prateleiras dos supermercados, as pessoas podem comprar desenfreadamente e os produtos vão desaparecer rapidamente”.

“Eu provavelmente vou doar uma parte do meu estoque a um banco de alimentos, se nós ficarmos [na União Europeia],” ele acrescentou.

Emma Burnell, 44 anos, leste de Londres: “Se eu estiver errada, vou parecer um pouco tola, mas já fiz minha compra do mês de novembro”

Emma Burnell está armazenando grandes quantidades dos ingredientes necessários para suas refeições preferidas para enfrentar o Brexit. Foto: Emma Burnell / Handout

Emma Burnell tem 44 anos e mora em Leyton, no leste de Londres. Ela conta que espera que os apoiadores do Brexit estejam certos ao dizer que o fato de não haver acordo será menos desastroso do que a maioria dos especialistas afirma.

“Eu conheço pessoas mais otimistas em relação ao Brexit do que eu. Eu não quero estar certa, só quero estar preparada caso esteja certa,” disse ela. “Se eu estiver errada, vou parecer um pouco tola, mas já fiz minha compra do mês de novembro”.

Emma, que apresenta um podcast e é consultora da campanha Labour for a People’s Vote, diz que gastou cerca de £ 150 estocando os ingredientes necessários para as suas receitas preferidas do Slimming World.

Ela tem estoques extras de tomates, batatas enlatadas, água, arroz, e diversos vegetais congelados e enlatados, e planeja comprar frango congelado quando o Brexit estiver mais próximo.

O fato de trabalhar como freelancer também é um motivo de preocupação em relação a sua renda após um Brexit sem acordo. “Se a economia for para o buraco, eu provavelmente terei muitos problemas. Posso perder a minha casa”.

Jo Elgarf, 43 anos, sudoeste de Londres: “Passar um dia sem os medicamentos da minha filha pode ser catastrófico”

Jo Elgarf com a filha, Nora, em casa em janeiro de 2019. Foto: REUTERS/Henry Nicholls

Jo Elgarf, de 43 anos, tem muito medo do que pode acontecer com os medicamentos dos quais a filha de cinco anos faz uso após o Brexit, em meio a boatos de possíveis interrupções no fornecimento de suprimentos importantes.

“Eu tenho uma filha, Nora, com polimicrogiria e epilepsia severa. Os remédios que ela toma são importados, e passar um dia sem eles pode ser catastrófico,” disse ela ao Yahoo Finance UK.

A dona de casa conta que tem um estoque de cerca de um mês de suprimentos, incluindo alimentos enlatados, macarrão e arroz, “para que eu tenha o suficiente para enfrentar uma possível escassez nas prateleiras”.

Ela diz que tem uma consciência maior dos riscos por causa da sua experiência trabalhando na indústria de alimentos e do seu conhecimento sobre as cadeias de suprimentos.

Este mês, o governo britânico anunciou um contrato de £25 milhões para entregar medicamentos no Reino Unido, e está trabalhando para aumentar os estoques. No entanto, Jo conta que a medida não garante a medicação líquida da filha. “£25 milhões não é nada,” acrescentou.

Ela também se envolveu em uma rede online de pessoas que estão enfrentando preocupações semelhantes, e ajuda a gerenciar um grupo no Facebook chamado 48% Preppers.

No entanto, ela diz que espera não precisar usar os suprimentos: “Eu espero que as pessoas riam de mim pela minha preocupação excessiva, e que eu esteja errada”.

Os suprimentos de Jo Elgarf em janeiro de 2019, data próxima ao prazo original estipulado para o Brexit, em março deste ano. Foto: REUTERS/Henry Nicholls

Helena Adams, 27 anos, Cardiff: “Eu não vou ficar brigando pelo último pacote de pão no Asda”

“Eu tenho mais comida de cachorro do que comida de humanos,” disse Helena Adams, que tem o equivalente a um ano de ração para cães em suprimentos, além de três meses de alimentos para si mesma.

Ela conta que a sua maior preocupação é seu amado cãozinho Charlie: “O governo claramente não vai priorizar comida para cachorros nos portos”.

Helena, de 27 anos, conta que algumas pessoas consideram que seu estoque suficiente para três meses é “ridículo”, mas acrescentou: “Eu comprei cedo para que não fosse prejudicada pelo aumento dos preços, e isso acalmou a minha preocupação”.

Ela mora sozinha, com seu cachorro e um inquilino em Cardiff, e diz que, ao ver seu estoque de suprimentos, seu inquilino decidiu fazer o mesmo.

Sua família também começou a armazenar alimentos, e seu pai está montando um estoque para sua avó, que já tem uma idade avançada.

Helena diz que tem medo porque há “muitos aspectos completamente desconhecidos”, e acredita que a população vai entrar em pânico, caso seja difícil encontrar alguns alimentos no mercado.

“Mesmo considerando os itens que são majoritariamente produzidos no Reino Unido: se um tipo de vegetal importado acabar, as pessoas vão começar a substituí-lo por algo britânico, e o aumento da demanda pode acabar afetando o fornecimento deste item,” ela diz.

“Eu não vou ficar brigando pelo último pacote de pão no Asda. Acho que eu não me daria bem nessa”.