Brincar de guerra, mais do que entretenimento para crianças ucranianas

Andrii Shirokih, 13, descansa depois de brincar de guerra em Stoyanka, perto de Kiev
Andrii Shirokih, 13, descansa depois de brincar de guerra em Stoyanka, perto de Kiev

Eles usam capacetes de segunda mão e suas armas não matam. Brincar "de guerra" virou uma realidade para as crianças ucranianas.

Com seu rastro de destruição e sofrimento, a invasão russa impactou as brincadeiras infantis e a forma como as crianças interagem.

"Gosto muito de brincar de guerra. Quero crescer e ser um verdadeiro herói de guerra", diz Maksim Mudrak, um menino de 10 anos com um uniforme de tamanho infantil, um capacete grande demais para sua cabeça e uma arma de plástico.

O pai de Maksim, Oleksii Mudrak, que não era militar, foi morto perto de Kiev no início da invasão russa, no dia que saiu para entregar suprimentos aos voluntários, conta a família.

A avó do menino conta que Maksim passou a se interessar cada vez mais pela guerra desde o início da invasão e desde a morte de seu pai, em 4 de março de 2022, aos 40 anos.

"Ele ficou muito abalado com a morte do pai. Maksim pensa nele o tempo todo. Ele vai ao cemitério e começa a chorar", conta sua avó, Valentina, de 72 anos.

Para Maksim, tornar-se soldado é uma forma de preservar a memória do pai, e ele tem uma ideia muito clara de quem foram os culpados.

"Vejo os russos como meus piores inimigos", diz Maksim, que mora com a avó perto de Kiev, em Stoyanka, e mantém contato com a mãe.

- Os russos "são ruins" -

A guerra significou para muitas crianças ucranianas a perda de entes queridos, o afastamento de suas escolas ou de suas casas e ficar expostas a todos os tipos de horrores.

Mais de 500 crianças morreram desde o início da invasão, segundo dados da ONU.

A psicóloga Katerina Goltsberg explica que as crianças sempre brincaram de guerra em situações de conflito, e que esse recurso é uma forma de processar suas vivências.

Embora todas as crianças ucranianas tenham sido afetadas pela guerra em maior ou menor grau, resta saber até que ponto essas experiências levarão a traumas ao longo da vida.

Lesia Shevchenko conta que sua filha Dana, de 8 anos, costumava perguntar apenas uma coisa quando conhecia outras crianças: "Qual é o seu nome? Vamos brincar!"

Mas em uma viagem em família à Bulgária, após o início da invasão da Ucrânia, Shevchenko percebeu que a filha começava com outra pergunta: o país de origem.

No caso das crianças russas, Dana virava e se afastava em silêncio.

"Não tenho vontade de falar com eles, só isso. Provavelmente porque acho que todos os russos são de uma certa maneira e porque para mim eles são ruins", explica Dana.

Sua mãe, uma dentista de 49 anos, diz que não foi ela que ensinou o comportamento e que, ao contrário, a fez ver que não é possível odiar de maneira indiscriminada.

Mas Dana ficou traumatizada com a guerra e os bombardeios a deixaram com muito medo de barulho.

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