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Brasil pode ter piora no desempenho do Pisa em 2021, avalia Todos Pela Educação

Hugo Passarelli

Para Priscila Cruz, a "militarização das escolas" e "a perseguição de professores" destoam das melhores práticas já conhecidas mundo afora Além da estagnação no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) do ano passado, o Brasil corre risco de, sob a batuta de Abraham Weintraub no Ministério da Educação (MEC), registrar piora no desempenho dos alunos na próxima edição, em 2021. A opinião é de Priscila Cruz, diretora-executiva e cofundadora do movimento Todos Pela Educação.

“Mantida a rota adotada pelo atual governo, o que podemos verificar, pela primeira vez, é uma queda no Pisa”, afirma. Em sua avaliação, as medidas anunciadas por Weintraub destoam das melhores práticas já conhecidas mundo afora.

silvia Zamboni/Valor

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“A militarização das escolas e a perseguição de professores estão rigorosamente na contramão do que os primeiros colocados fazem”, diz.

A especialista considera alarmante a falta de reação da sociedade em meio ao que classifica como uma gestão de protagonismo ideológico do MEC. “Essa violência que tem sido feita com o Brasil, contra a possibilidade de um país que possa crescer e distribuir renda, não tem sido debatida pelas elites do país”, observa.

A trajetória do Brasil no Pisa tem forte correlação com os ambientes econômico e político, explica Priscila. A primeira década dos anos 2000, quando foram registrados os maiores avanços na avaliação internacional, coincidiu com período de crescimento econômico e estabilidade política.

“Em 2000, vínhamos de oito anos da gestão de Paulo Renato no MEC, seguidos por mais sete de Fernando Haddad. Havia estabilidade das políticas, mesmo com eventuais erros”, pondera.

A partir de 2009, ela prossegue, houve uma inversão da situação. “Foi uma década marcada pelo oposto, com muitas trocas de ministros e turbulência política. Além disso, o fato concreto é que o Brasil parou de crescer, o que afetou o investimento por aluno e a renda das famílias”. A especialista lembra que o nível socioeconômico dos pais é um dos preditores mais fortes de desempenho futuro dos estudantes.

Priscila afirma que, a despeito dos movimentos erráticos no MEC nos últimos anos, houve algum amadurecimento de políticas, como a criação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a reforma do ensino médio — ambas, no entanto, estão longe de sair do papel porque o governo federal tem um papel importante de induzir essas alterações e há, no momento, pouca sinalização para Estados e municípios, os executores diretos da educação básica, sobre o rumo a ser adotado.

“A educação não conseguiu nadar contra a corrente dessas turbulências, e as grandes mudanças não chegaram às escolas”, diz. Segundo ela, isso aconteceu pela falta de centralidade nas políticas públicas da área. “Se a educação fosse prioridade política, haveria esforço de preservá-la e blindá-la das turbulências.”