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Todo mês, 55 milhões de brasileiros ficam uma semana sem internet

·4 min de leitura
Young Asian businesswoman sitting on the bench in an urban park working outdoors, logging in to her laptop and holding smartphone on hand with a security key lock icon on the screen. Privacy protection, internet and mobile security concept
Os dados são de uma pesquisa sobre hábitos de uso e navegação
  • O acesso à internet cresce a cada ano no Brasil e ele só tem espaço para avançar entre os mais pobres

  • A modalidade de acesso à internet não é um problema solitário na desigualdade digital

  • A pesquisa mostra que, diante da falta de internet, 66% já deixaram de realizar alguma atividade online

Um quarto da população brasileira fica o equivalente a uma semana sem internet todo mês. Isso acontece porque 45% dos usuários mais pobres (classes C, D e E) possuem planos de telefonia móvel que se esgotam antes de o mês acabar. A duração média de um pacote é de 23 dias, mas chega a 19 dias entre os mais vulneráveis.

Os dados são de uma pesquisa sobre hábitos de uso e navegação na rede realizada pelo Instituto Locomotiva e pelo Idec (Instituto de Defesa do Consumidor). As informações foram coletadas por telefone de 26 de julho a 12 de agosto, com mil pessoas.

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A amostra é de homens e mulheres com 16 anos ou mais que acessam a internet pelo celular e estão nas classes C, D e E, proporcionalmente distribuídas conforme os parâmetros da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A margem de erro é de 3,1 pontos percentuais.

É possível concluir que essas pessoas ficam sem internet porque 91% delas usam o smartphone como principal dispositivo de acesso. Se ficam sem plano móvel, portanto, ficam sem internet. O computador de mesa e o notebook representam 3% e 4% do acesso, respectivamente.

Wi-fi público, privado ou roteamento de internet de outros celulares são as alternativas dessa população que fica privada de acesso por sete dias ou mais.

A última TIC Domicílios, do Cetic (Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação) aponta para dados semelhantes: 90% dos usuários da faixa D e E conectam-se à internet somente por do celular. Na classe C, o índice cai para 58%.

O gasto médio mensal com planos de dados é de R$ 43 (R$ 33 entre os que possuem pré-pago, mesmo valor médio dos usuários da classe D e E).

O acesso à internet cresce a cada ano no Brasil e ele só tem espaço para avançar entre os mais pobres, já que as faixas A e B estão 100% contempladas. Embora 83% dos domicílios tenham alguma conexão, ela acontece de modo desigual: a força do sinal difere de centros para periferias, que têm menos antenas, e as regiões remotas têm infraestrutura de fibra precária ou inexistente se comparadas às metrópoles.

A pesquisa mostra que, diante da falta de internet, 66% já deixaram de realizar alguma atividade online, como pesquisar se uma informação recebida era notícia falsa (30%), acompanhar aulas ou cursos (35%), acessar serviços públicos (33%), transferir dinheiro (43%), agendar um exame (28%), acessar um serviço de saúde (31%) ou buscar informações sobre a Covid-19 (36%).

"A conectividade é um meio de democratizar o acesso à informação e esse acesso diferenciado acentua o gap educacional entre os mais pobres e os mais ricos. Os microempreendedores que sobreviveram na pandemia tinham internet para vender em lojas virtuais, para oferecer seus serviços por aplicativo", afirma Renato Meirelles, presidente do Locomotiva. "Já o jovem pobre teve dez dias a menos de estudo."

A modalidade de acesso à internet não é um problema solitário na desigualdade digital. A quantidade de computadores e celulares por casa e o tipo de aparelho usado também impactam a rotina das famílias. Computador ou o laptop se mostraram essenciais para atividades mais recorrentes durante a pandemia.

Segundo Fabio Senne, coordenador de pesquisas do Cetic.br/NIC.br, 90% dos usuários mais pobres acessam a internet somente pelo celular. "Não tem teletrabalho ou ensino remoto assim. Apenas 13% dessa classe fez algum uso de computador para usar a internet", diz.

Redes sociais

A utilização de redes sociais não se altera diante do fim dos pacotes de dados porque as operadoras no Brasil adotam a prática chamada zero rating, ou acesso patrocinado: não descontam da franquia o uso da internet em alguns aplicativos, como WhatsApp, YouTube ou Facebook.

"Apesar de a situação parecer mais confortável, ela acaba por prender usuários em aplicativos determinados e implicando um enviesamento no uso da internet —o que, inclusive, é proibido pelo Marco Civil da Internet, que determina a garantia de neutralidade de rede", diz a pesquisa.

"A pessoa sem internet fica limitada ao WhatsApp. Se recebe fake news, não consegue conferir a notícia. Isso é preocupante com a aproximação das eleições", diz Camila Leite, advogada de telecomunicações e direitos digitais do Idec. Segundo a especialista, 13% dessas pessoas têm Telegram, mas isso não quer dizer que usem o aplicativo todos os dias.

Além disso, ela diz que o pré-pago, por não ter compromisso de conta mensal, cobra proporcionalmente mais por megabit, "outra manifestação de desigualdade na internet móvel".

Da Folha de S.Paulo

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