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Na primeira eleição pós-covid, Brasil coloca na balança a velha onda antipolítica

Matheus Pichonelli
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A demonstrator holds up a sign that reads AI-5 that means Institutional Act Number 5 of the military dictatorship period during motorcade to protest against the recommendations for social isolation of the Governor of Sao Paulo, Joao Doria, during the coronavirus disease (COVID-19) outbreak in Santos, Brazil, April 19, 2020. (Photo by Felipe Beltrame/NurPhoto via Getty Images)
Cansaço com a política se converteu em atos antidemocráticos, com incitação a golpe e elogios à ditadura, pelo Brasil. Foto: Felipe Beltrame/NurPhoto (via Getty Images)

O Brasil vai às urnas neste domingo (15) escolher seus futuros prefeitos e vereadores em um cenário bem distinto das últimas eleições municipais.

Se há quatro anos o sentimento antipolítica já fermentava, hoje falar no assunto já não parece causar repulsa.

Traumatizado pela pandemia da covid-19, o país parece não estar mais tão disposto a deixar na mão de aventureiros, novatos ou franco atiradores as gestões de municípios enquanto uma segunda onda de coronavírus se desenha. Ah, sim, tem também a hecatombe econômica para lidar, algo que não se aprende por tutorial no YouTube.

É cedo, ainda, para dizer se o apelo por uma “nova política” ficou velho. Mas é fato que experiência e sobriedade viraram trunfos num momento em que as sucessivas crises políticas, sanitárias e econômicas se acirram sob o comando de quem até ontem se vendia como solução a “tudo isso que está aí” mas não tinha exatamente uma ideia para colocar no lugar.

Dois anos após a onda antipolítica estourar nos espelhos d’água em Brasília, muitos eleitores parecem estar menos encantados, e mais desconfiados, com promessas mágicas e disrupção. Os estragos do despreparo na pandemia ainda estão recentes na memória.

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Nas principais cidades, as pesquisas de opinião apontam que devem ser premiados com uma nova chance quem mostrou um mínimo de equilíbrio/empatia na condução da crise sanitária. Alexandre Kalil (PSD), que procurou respaldo científico na gestão da crise, deve sair das urnas com desempenho três vezes superior ao de todos os outros candidatos de Belo Horizonte juntos --a maioria novatos.

As pesquisas apontam que devem ser mantidos os trabalhos de grupos políticos que já governam cidades como São Paulo, Curitiba, Salvador, Recife e Fortaleza.

Por ironia, no momento em que candidatos como Bruno Covas (PSDB), favorito para se reeleger na capital paulista, levam para a campanha um discurso de reconciliação entre a população e a política, que faz questão de classificar como um trabalho como outro qualquer, a figura dos padrinhos políticos ficou desgastada ou terá pouco peso na decisão, ao menos pelo que projetam as pesquisas.

Em 2016, enquanto falava de nova política e a necessidade de levar as bases da iniciativa privada à gestão pública, João Doria (PSDB) era carregado nos ombros e braços do governador Geraldo Alckmin, a quem viria a substituir. Quatro anos depois, nem Doria nem Alckmin apareceram na campanha de Bruno Covas.

Lula, que tinha fama de eleger qualquer poste há até pouco tempo, não conseguiu alavancar o candidato petista na maior cidade do país. Nem, ao que tudo indica, na segunda maior, o Rio de Janeiro.

Jair Bolsonaro evitou entrar de cabeça nas campanhas, mas pediu votos a paulistanos e cariocas para Celso Russomanno e Marcelo Crivella, respectivamente. O primeiro derreteu nas pesquisas, embora ainda esteja vivo e com chances. O segundo empacou.

O peso dos outrora padrinhos políticos hoje vem em forma de âncora. Basta ver o índice de rejeição nas capitais.

Uma curiosidade é que, após a eleição do ex-deputado do baixo clero para a Presidência em 2018, mais gente se animou, neste ano, a tentar a sorte numa disputa majoritária. Segundo o portal G1, o número de candidatos a prefeito aumentou em mais de 40% das cidades do país. Algumas delas chegavam a ter 16 concorrentes.

Em São Paulo, foram 14 nomes (se contar o candidato do Novo, que desistiu antes do pleito), contra 11 da disputa anterior. O mesmo aconteceu no Rio. Na terceira maior cidade do país, Salvador, foram nove candidatos, dois a mais do que em 2016.

O resultado das urnas pode indicar um país mais diverso do que em anos anteriores. Embora sejam ainda minoritárias na disputa, mulheres e pessoas negras se engajaram na campanha deste ano sob o discurso da representatividade —ao menos nas eleições para vereador, essa é uma onda que pode tomar forma. Mulheres têm chance de ao menos ir ao segundo turno no Rio, em Salvador e Porto Alegre. Todas tem alguma experiência na política ou em cargos públicos.

Numa disputa que envolve 5.570 municípios, apontar tendências é tão arriscado quanto improvável. Mas em cidades-chave, de onde costumam sair as lideranças nacionais, as urnas a serem abertas neste domingo darão a primeira grande resposta de um país marcado pela onda antipolítica, as sucessivas crises, os estragos da pandemia e as cotoveladas da polarização, das fake news e de manifestações antidemocráticas que eclodiram no Brasil sob Bolsonaro.