Mercado fechado

Brasil dirá aos EUA que não vê necessidade de nova inspeção de carne no país

MARINA DIAS
***ARQUIVO***PROMISSÃO, SP, 28.06.2012: Funcionário trabalha dentro de uma câmara fria do frigorífico Marfrig Beef, em Promissão (SP). (Foto: Ana Paula Paiva/Valor/Folhapress)

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - O governo brasileiro vai comunicar nesta quarta-feira (20) aos EUA que não vê necessidade de nova inspeção sobre a qualidade da carne bovina in natura no Brasil e buscará alternativas para que os americanos derrubem de vez o veto ao produto e reabram seu mercado ao país.

A emissária do Planalto é a ministra Tereza Cristina (Agricultura), que viajou a Washington nesta semana e vai se reunir com o secretário do Departamento de Agricultura americano, Sonny Perdue.

"Eu vou com uma proposta de dizer que existe uma relação de confiança entre os nossos serviços [sanitários] e que os pontos podem ser esclarecidos não necessariamente com uma missão, que é sempre mais complicada e mais morosa", afirmou Tereza Cristina nesta segunda-feira (18) na capital americana. 

"Eles [EUA] pediram alguns pontos técnicos que já foram respondidos e vamos colocar à mesa para dizer que não vemos necessidade de uma nova missão. Podemos esclarecer, mandar técnicos do Ministério da Agricultura aqui [nos EUA], ou eles [americanos] mandem lá [no Brasil], mas não uma nova missão, que só aconteceria no ano que vem."

Em outubro, os EUA frustraram o governo Jair Bolsonaro ao manter o veto à carne bovina brasileira. Após uma inspeção técnica, os americanos produziram um relatório em que solicitavam informações adicionais ao Brasil e estabeleceram que uma nova inspeção deveria ser realizada no país, porém, ainda sem data marcada. Apesar de dizer que não vai "flexibilizar nada" quando o assunto for o comércio de carne bovina com os EUA, a ministra admite que trocas burocráticas podem ser negociadas na quarta-feira.

Uma das opções, por exemplo, é tentar resolver o problema de adaptação dos EUA ao novo certificado brasileiro sobre a carne, que tem prejudicando a exportação do produto americano para o país.

"Temos alguns assuntos que vão ser colocados à mesa e que podem facilitar, como esse certificado de carne dos EUA para o Brasil. É um tema muito burocrático, o Brasil mudou o certificado e os EUA têm dificuldade de se adaptar. Vamos colocar como pode ser feito, mas não vai ter troca nenhuma", completou a ministra.

Tereza Cristina insiste que o comércio de carne é um debate técnico. No entanto, a discussão sobre a reabertura do mercado americano dura anos e os EUA insistem que os obstáculos não estão completamente resolvidos. 

Entre os quatro pontos apresentados no mês passado como motivo para manter as barreiras, por exemplo, estão problemas no processo de maturação e melhorias na coleta para testes microbiológicos.

Uma das questões que mais incomodam os EUA é o fato de as carnes brasileiras terem abcessos, causados pela vacinação contra a febre aftosa. Orlando Leite Ribeiro, secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, contemporizou o problema e disse que essa não é uma questão sanitária. 

"Não há problema em consumir a carne, é uma carne fria mas não imprópria ao consumo", declarou o diplomata, que acompanha a ministra na viagem.

Em entrevista a jornalistas em Washington, nesta segunda, Tereza Cristina chegou a afirmar que o mercado brasileiro vive um bom momento e que o comércio de carne com outros países, como a China, por exemplo, são hoje mais vantajosos para o país do que o flux com os americanos. A potência asiática está em guerra comercial com os EUA há quase dois anos.

"Hoje o mercado brasileiro vive um boom muito interessante que nem sei se, nesse momento, a gente exportaria carne para os EUA, porque hoje o preço de outros mercados, principalmente da China, são mais compensadores. Agora é importante ter os EUA abertos, não tem dúvida, para alguns tipos de carne."

A viagem da ministra aos EUA já estava marcada há algum tempo, com reuniões no BID e no Banco Mundial, que tratarão do financiamento de projetos para a agropecuária no Norte e Nordeste do Brasil. 

O novo capítulo da crise da carne, porém, fez com que a ministra marcasse a reunião com o Secretário de Agricultura americano de última hora.

Os EUA suspenderam a compra de carne bovina in natura do Brasil em meados de 2017, na esteira da operação Carne Fraca, que revelou um esquema de adulteração do produto vendido no mercado interno e externo com atestados de qualidade obtidos mediante corrupção de funcionários do governo. 

Desde então, o governo brasileiro vem tentando a reabertura desse mercado --um esforço que sempre encontrou resistência dos produtores americanos de proteína animal.

A expectativa do governo Bolsonaro era que a proximidade com Trump e as concessões feitas pelo Brasil a Washington ajudassem na liberação de carne bovina, mas isso ainda não aconteceu.