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Brasil virou O Brasil há 62 anos

Ele FOTO: Getty Images/Getty Images

Nelson Rodrigues criou antes da volta olímpica no Rasunda, em Solna, pertinho de Estocolmo, o “Complexo de Vira-Lata”. A versão jabuticaba do “underdog”. Não era só zebra nesse mundo animal. Era uma sensãção de inferioridade do brasileiro dentro de campo e fora dele nas bancadas de torcedores e jornalistas. Tudo daria errado como deu na semifinal de 1938, contra a Itália, na França. Tudo seria o fim do mundo tão próximo de conquistá-lo, como foi o Maracanazo de 1950. Ou tudo seria complô comunista (!?) como a derrota para a Hungria, em 1954.

Entre complôs e complexos, reais ou não, o Brasil foi para a Suécia vaiado pela torcida e desconfiado pela imprensa. Pelé era reserva por lesão e quase não vai para a Copa - não fosse o Marechal da Vitória Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação brasileira. O que deu a chave da Seleção aos jornalistas Paulo Planet Buarque, Ary Silva e Flávio Iazetti, que fizeram minucioso plano de trabalho. Com psicológo e até dentista na preparação técnica, física e cientfica que deu resutado. Apesar dos narizes torcidos de coleguinhas que não foram chamados para fazer parte do trabalho. Ou pelo mesmo bairrismo burro que pedia em São Paulo Oreco no lugar de Nilton Santos. Ou via no estudo feito pelos jornalistas paulistas um bairrismo tacanho que sempre atrapalhou o Brasil desde a Copa de 1930.

Em 1958, o talento superou tudo. Uma boa vitória contra a Áustria na estreia, por 3 a 0. Com Pelé ainda baleado por lesão substituído pelo grande Dida. O enorme Mazzola no lugar do Leão Vavá no comando de ataque. E a inexplicável reserva de Garrincha por “insolência” para Joel (que deveria ser Julinho, não tivesse o atacante da Fiorentina aberto mão da convocação por achar injusto um brasileiro atuando na Itália ficar com o lugar de um brasileiro como Joel atuando pelo Brasil...)

Dino Sani, jogador completo, era o titular com Zito na arquibancada, já que não havia substituições em Copas até o México, em 1970.

O Brasil de Vicente Feola na estreia era bem diferente do Brasil campeão ao final da sexta partida na Suécia, contra a ótima dona da casa.

Já na segunda partida, Vavá entrou como meia-atacante que já havia sido na carreira ao lado de Mazzola. O Brasil empatou sem gols com a Inglaterra. Ironia: o primeiro empate sem gols desde 1930 em um jogo de quem inventou o futebol contra a seleção que melhor o jogou...

Para a partida decisiva contra a forte e “cibernética” União Soviética, a pedidos de Nilton Santos e Didi para Feola, Garrincha de volta à equipe no lugar de Joel. Pelé recuperado como titular ao lado de Vavá. Lesionado, Dino Sani foi substituído por Zito.

Nos “cinco minutos iniciais mais fantásticos da história das Copas”, Garrincha e Pelé construíram o 2 a 0 contra a URSS, num festival de dribles, bola na trave e gol.

Sem Vavá, com Mazzola de volta ao lado de Pelé, Ele marcou seu primeiro golaço em Copas na vitória no jogo mais difícil contra retranca de País de Gales, pelas quartas-de-final.

Na semifinal, com Vavá de volta, e também pela perna quebrada do zagueiro francês Joncquet ainda no primeiro tempo, o Brasil goleou a França por 5 a 2. Três de Pelé.

Na decisão, Djalma Santos entrou no lugar de De Sordi e virou lateral do Mundial em apenas um jogo. O craque Liedholm abriu o placar com 4 minutos. Vavá empatou aos 8 em lance de Garrincha. Replay ao vivo no gol da virada de Vavá.

Na segunda etapa, sob insuspeitos aplausos em grandes lances dos próprios donos da casa, Pelé fez o terceiro. O incansável Zagallo marcou o quarto. A Suécia diminuiu. Pelé, no último lance da Copa, marcou de cabeça o quinto gol brasileiro.

Há 62 anos, o Brasil se tornava O Brasil para o mundo.

Mas ainda nem sempre é O Brasil para o brasileiro.

O que é melhor de, muitas vezes, só existir O Brasil para muitos brasileiros que acham que ninguém tem méritos quando ganha a Copa. É só o Brasil que não ganhou o tri na Inglaterra porque era uma bagunça mal treinada e preparada em 1966; uma equipe rachada e retrancada em 1974; um time medroso e roubado em 1978; apenas uma injustiça eterna em 1982; uma infelicidade em 1986; um time lazarento em 1990; um complô internacional e multinacional em 1998; uma zona em 2006; um tempo ruim em 2010; um Mineirazen sem Neymar em 2014; outro tempo ruim em 2018.

Nunca os rivais têm méritos quando não dá. É O Brasil que deixa de ganhar as Copas em que é superado.

Claro que não é. Jamais será.

Mas quando se vê e revê 1958, com Pelé e Mané em campo, Didi (o craque da Copa) flutuando, Nilton Santos dando aula, O Brasil merece mesmo toda reverência.