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O barraco é coisa nossa. No Leblon, no restaurante chique, em Santos ou na sorveteria

Matheus Pichonelli
·5 minutos de leitura
Mulheres de biquíni são atacadas por cliente de bar no Leblon
Mulheres de biquíni são atacadas por cliente de bar no Leblon

Barraco.

Item 1 da definição em destaque no buscador. Casa mal construída ou malconservada.

Item 2. Casa tosca, feita sem planejamento. Construída nas escostas dos morros com paredes de tábuas e teto de zinco, pela população de baixa renda. Barracão. Acima do verbete, um chapéu: Rio de Janeiro.

Os linguistas de plantão podiam ajudar a explicar em que momento a arquitetura precária virou sinônimo de confusão, esta também associada às classes populares. Culpa da novela, talvez.

Quem procura respostas em algum buscador numa segunda-feira recebe de brinde as notícias relacionadas do fim de semana.

No Leblon, área nobre do Rio, um carro conversível estaciona perto de um bar com duas mulheres de biquíni. Como não instituíram (ainda) que trajes usar no projeto em curso da teocracia à brasileira, a cena causa, ou deveria causar, estranhamento apenas pelo deslocamento. Perto dali, maiôs e biquínis se proliferam em caminhadas e mergulhos pelas praias da zona sul ao longo do dia.

Tarde da noite, com frequentadores dos bares bem vestidos e bem comportados, a cena parecia fora de esquadro, o suficiente para alguém se incomodar a ponto de jogar garrafas de água nas ocupantes do automóvel e justificar em público: eram prostitutas.

Ah bom. Algum desavisado poderia imaginar que se tratava de pessoas. Sendo prostitutas, vale a lei da Geni. Faltou agradecer pela gentileza. Na obra original, voavam pedras e fezes.

Quem mandou desfilar naquele ambiente familiar? O que explicar para os filhos? Como ensinar que neste mundo não podemos temer aglomerações por causa de um vírus que já matou 140 mil pessoas no país e sim uma mulher de biquíni que passa à nossa vista enquanto nos aglomeramos em risco?

Notícia relacionada 1: motorista do conversível diz que vai processar agressora. Por causa do arremesso? Não, porque foi chamado de acompanhante de prostitutas. Coisa que ele, trabalhador concursado, não é. Nem elas.

Ah, bom.

Desculpa o mal entendido.

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Notícia relacionada 2: em São Paulo, a alguns quilômetros da praia mais próxima, um médico e integrante de boa família causa ao chegar ao restaurante de luxo que estava para fechar.

O cidadão foi avisado da limitação de horários e respondeu com um barraco.

Os demais comensais, que já estavam de saída, responderam com outro.

Um carteirou, dizendo ser irmão de um delegado.

O outro mandou pegar leve porque não era qualquer um. Era educado, tinha berço. Olha com quem estava falando. Ninguém sacou a arma, só o distintivo do CRM, o Conselho Regional de Medicina.

Ah, bom.

Segunda-feira, para quem escreve e para quem lê, o gosto de ressaca, mesmo para quem não bebeu uma gota no domingo, soa como dejavú.

Outro dia foi numa sorveteria de Campinas. No outro, em um condomínio em Valinhos. No outro ainda, em uma praia em Santos. O barraco muda de endereço. E o tamanho da carteira.

Não, não é o Brasil pós-2018 que autorizou cenas assim. Foram cenas assim que autorizaram o Brasil pós-2018. Um país que não chega a acordo em uma partida de futebol contaminada pelo vírus da estupidez antes do que da pandemia.

Ficamos mais cínicos a ponto de permitir a uma deputada eleita compartilhar post racista relacionando ex-ministros dissidentes a pessoas negras e desempregadas. Nem sempre o racismo foi velado, mas agora chega a gritar.

O componente novo é a revelação, difundida e compartilhada sem passar por tratamento ou edição. Chega às redes contaminado de puritanismo mofado com notas de elitismo esnobe, que ora rasga a multa do guarda, ora desdenha o tratamento de cidadão. Cidadão, não. Engenheiro. Formado. Melhor. Que você.

Há mais de dez anos, uma estudante foi hostilizada em uma universidade privada por causa das roupas consideradas inadequadas. O barraco transformou a vítima em celebridade. Quer entender como este país que desfila o carnaval enquanto segura a cruz numa mão e arremessa garrafas pet na outra? A resposta pode estar pulverizada nas obras de modernistas, dos tropicalistas e dos estudiosos da identidade nacional, de Sergio Buarque, o “avô” da Geni, a Nelson Rodrigues. Mas está também em Geisy Arruda, que destampou o recalque do cidadão médio e o expôs em seu barraco diário e em busca de diploma.

Por definição, a morada que institui a resistência dos corpos que se querem longes, despejados, expulsos, precarizados e soterrados é também sinônimo de confusão. Vira notícia quando o vexame é promovido pelos bem nascidos, bem formados, bem registrados em conselhos, bem relacionados e com o dress code adequado para a vistas de crianças expostas à pandemia.

Puro suco de Brasil, dirá a sentença das redes, como se um país inteiro coubesse na cafonice de restaurantes e bares das áreas nobres que emprestam dos barracos distantes a metáfora de sua concessão à vergonha.

O Brasil é tudo isso, mas não é só isso.

Dos barracos, fico com a festa dos trapos coloridos onde a lua fura o zinco e salpica de estrelas nosso chão. Ali é sempre feriado, cantou o Silvio Caldas. Este feriado não vale uma crônica de segunda. Mas vale a letra do que, na música, ainda temos de melhor.

O Brasil é mais que isso. Tem que ser.