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Brasil é mais sensível ao PIB chinês do que ao do restante do mundo, diz BC

Anaïs Fernandes, Estevão Taiar e Fabio Graner

Projeção da autoridade monetária para a economia brasileira foi revisada de 2,2% para zero A economia brasileira é mais sensível às variações do Produto Interno Bruto (PIB) da China do que do restante do mundo, observa o Banco Central em seu Relatório de Inflação divulgado nesta quinta-feira.

A autoridade monetária fez dois exercícios para tentar mensurar os impactos da crise da covid-19 no PIB do Brasil. No primeiro, usou dados históricos para estimar a correlação entre o crescimento da economia brasileira, o desempenho da atividade chinesa e os números do mundo exceto China.

Economia chinesa foi a primeira impactada pela crise de coronavírus

Chinatopix vía AP

“As elasticidades obtidas mostram que o PIB brasileiro se mostrou mais sensível ao PIB chinês do que ao do restante do mundo”, afirma o relatório.

Segundo o BC, no contexto atual, em que as revisões para baixo nas projeções de crescimento em 2020 são maiores para a China do que para o restante do mundo, “tal resultado sinaliza impacto ao redor de -1 p.p. sobre o crescimento da economia brasileira”.

No exercício seguinte, a autoridade monetária estimou a relação entre o crescimento do PIB brasileiro e variáveis financeiras, como taxa de câmbio, índices de bolsa e preços de commodities, usando valores observados até a primeira metade de março.

“Sob a hipótese de estabilidade dos preços dos ativos no patamar recente ante a alternativa de estabilidade em nível observado antes do início do surto de covid-19, os resultados das regressões também sugerem impacto ao redor de -1 p.p. no PIB brasileiro em 2020”, afirma.

O BC observa que de acordo com o questionário pré-Copom, enviado o dia 6 de março para instituições financeiras e consultorias, havia consenso entre os respondentes acerca do impacto negativo no PIB local, com estimativa média de -0,5 p.p.

A expectativa oficial do BC foi revisada de avanço de 2,2% para zero.

"As expectativas se alteraram rapidamente ao longo das primeiras semanas de março, em contexto de recrudescimento do ambiente de incerteza, e indicam impactos expressivos sobre a atividade, tanto doméstica quanto global em magnitudes consideravelmente superiores aos que vinham sendo apontados até meados de fevereiro", diz o relatório.

Segundo o diretor de política econômica do Banco Central (BC), Fabio Kanczuk, desde a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), na semana passada, a indústria e os serviços sofreram "impacto expressivo" ligado à disseminação do coronavírus.

Kanczuk destacou o fechamento de estabelecimentos comerciais, o cancelamento "elevado" de voos e a interrupção de produção em setores da indústria, como o automotivo. Ele também chamou a atenção para a "intensificação de medidas de isolamento social no Brasil e no mundo para combater a disseminação do coronavírus".

No relatório, autoridade monetária afirmou que “continuará fazendo uso de todo o seu arsenal de medidas de políticas monetária, cambial e de estabilidade financeira no enfrentamento da crise atual”.

O BC ainda reiterou a mensagem de política monetária da última reunião do Copom, quando cortou a taxa básica de juros de 4,25% para 3,75% ao ano.

“O Copom entende que a atual conjuntura prescreve cautela na condução da política monetária, e neste momento vê como adequada a manutenção da taxa Selic em seu novo patamar”, disse.

“No entanto, o Comitê reconhece que se elevou a variância do seu balanço de riscos e novas informações sobre a conjuntura econômica serão essenciais para definir seus próximos passos”.

Mundo em desaceleração

No relatório, os técnicos afirmam que os indicadores mensais de atividade divulgados para Estados Unidos, China e União Europeia - o chamado grupo G-3 - já revelam desaceleração como cenário central. “Mas ainda não refletem, por completo, os impactos severos” da pandemia do coronavírus, que devem aparecer nas próximas divulgações para o primeiro trimestre, afirmou.

Na avaliação do BC, os riscos de uma desaceleração maior da economia chinesa, por exemplo, aumentaram.

“Os bancos centrais têm atuado oportunamente para dar respostas tempestivas e consistentes com a mudança no cenário para a inflação e a atividade”, disse a autoridade monetária brasileira.

“O movimento sincronizado de afrouxamento das políticas monetárias pelos bancos centrais evidencia a relevância do cenário externo e procura mitigar os impactos sobre o crescimento global.”

Nos cálculos do BC, os preços ao consumidor e os núcleos de inflação nas principais economias “permanecem abaixo das metas de médio prazo e com riscos assimétricos para baixo”.

“A continuidade do uso da política monetária depende, entretanto, do espaço disponível em cada economia e do cenário prospectivo para a inflação e para a atividade”, disse.

Petróleo

No contexto externo, a disputa entre Rússia e Arábia Saudita sobre os preços do petróleo traz incertezas adicionais para a economia mundial, segundo o Banco Central (BC).

“As decisões sobre os níveis de produção dos principais exportadores de petróleo e prováveis choques de oferta nos próximos meses ampliam a incerteza no horizonte relevante”, disse o BC no relatório.

“Simultaneamente à escalada do coronavírus, movimentos recentes na oferta de petróleo contribuíram para reduzir os preços internacionais a patamares que, se sustentados por um período prolongado, podem inviabilizar a produção do produto em alguns países”.