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Boxe levou Jucielen a ler e se perceber como mulher negra de periferia

·5 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na tela em que Jucielen Romeu aparece para a entrevista que concede à reportagem, um objeto ao fundo chama a atenção. É um pequeno bordado, redondo, único adereço preso na parede branca, à esquerda da pugilista.

O desenho central é de uma boxeadora lançando um golpe, e foi inspirado na medalha de prata da brasileira nos Jogos Pan-Americanos de 2019, na categoria 57 kg. Em volta dele, está escrito: "lute como uma garota".

"Eu sou uma garota, tenho que lutar como sou. Não lutar tentando ser um homem ou lutar tentando me adaptar a um padrão. Tenho que lutar apenas. Uma garota, uma menina, uma mulher, apenas eu", diz, no mesmo dia em que fez as malas para viajar ao Japão, onde vai disputar sua primeira edição das Olimpíadas na carreira.

Natural de Rio Claro, a 173 km da capital São Paulo, ela cresceu no periférico bairro Jardim Guanabara. Lembra que sua infância era dedicada a ir à escola e brincar com os amigos. Pela família, foi apresentada à capoeira, luta que o tio ensinava, mas que não a cativou.

Com pouco mais de 10 anos, conheceu um projeto social de boxe. Chegando lá, ela e os amigos souberam que era totalmente de graça, e para todas as idades. Jucielen pegou gosto pelo esporte.

O projeto era organizado pelo treinador Marcos Macedo e seus filhos, Breno e Leonardo, a quem ela chama de "irmãos". Eles mantêm até hoje a academia MM Boxe, no centro de Rio Claro, local onde a pugilista passaria a treinar poucos anos depois.

"Foi ele que descobriu ela, ele tem esse perfil de garimpar atletas", conta Leonardo sobre o pai, que começou no boxe na capital e depois levou a família para o interior.

Atualmente, Léo é o técnico de Jucielen na seleção brasileira. Ambos moram em São Paulo, treinam no Centro Olímpico e estão em Tóquio. Breno se divide entre a academia em Rio Claro, com o pai, e o projeto de boxe popular chamado Boxe Autônomo, na cidade de São Paulo.

Jucielen lembra que, além dos treinos, os professores também juntavam os pequenos lutadores e organizavam rodas de leitura e debate. Ela recorda que cada criança ou adolecente lia um trecho de algum texto selecionado.

"A MM Boxe me viu crescer: criança, adolescente, até a mulher que sou hoje. Lembro que eram textos referentes à cultura negra, pela maioria de nós sermos negros e de periferia. Me fez perceber que sou uma menina negra de uma periferia. Perceber as desigualdades, os preconceitos que existem no mundo e no Brasil", diz a pugilista.

"[No esporte] tem esse estereótipo de que atleta é burro, ainda mais no boxe. Que só sabemos dar porrada, receber porrada e nada mais. O que é mentira, eu estudei, a criançada que está lá, estuda. O Breno cobra que, se for mal na escola, não vai treinar", acrescenta.

Ela comemora o fato de que, quando viaja para visitar as suas duas famílias em Rio Claro (a de sangue e a de luta), vê que a tradição se mantém. Entende que é importante porque, infelizmente, muitas daquelas crianças não se tornarão atletas de alto rendimento.

Lamenta, por outro lado, que, no Brasil, o atleta muitas vezes seja o maior penalizado quando tenta se posicionar por questões sociais --perdendo patrocínio, clube ou apoio da torcida.

"Infelizmente, quando a gente se posiciona, é odiado por metade do Brasil e amado pela outra metade. E, às vezes, pode ser que depois que a gente sair da mídia, nem mesmo o lado que a gente estava defendendo vai estar lá para apoiar a gente", diz.

Se antes da pandemia ela se dizia uma pessoa meio desapegada, conta que com a quarentena e o isolamento se aproximou da família, que agora sempre visita quando pode --normalmente nos finais de semana em que não há competição.

E quando consegue ir a Rio Claro, além de passar um tempo com seus pais e seus irmãos, também tenta ver como está a MM Boxe, seu berço.

A academia, sobretudo antes da pandemia, além de organizar treinos e campeonatos de boxe, também funcionava como espaço cultural e fazia excursões para fora do país.

Foi assim que Jucielen fez sua primeira viagem internacional, em uma expedição organizada pelo Breno para o México.

"Lembro que nos primeiros dias algo deu errado na nossa estadia e ficamos dormindo num banheiro de um ginásio. Depois nos acertamos e ficamos na casa de uma família", conta, rindo, a lutadora.

Apesar dos obstáculos, Jucielen não lembra aquele como um período difícil, mas como a melhor viagem de sua vida até a ida para as Olimpíadas de Tóquio.

Difícil, diz ela, foi o período que viveu em 2017. Campeã paulista e brasileira de boxe àquela altura, quase abandonou o esporte.

"Já estava na idade de não querer depender dos meus pais. Então, eu pensei, sinceramente, em parar de lutar. Estava quase parando, com um pezinho ali já. Nos quarenta e cinco do segundo tempo, eu fui convocada, reacendeu minhas esperanças, o ânimo voltou e está aí até hoje. Indo para as Olimpíadas", diz ela.

Jucielen não esconde a ansiedade para a sua estreia em Jogos. Conta que a primeira coisa que chamou sua atenção no mundo do boxe foram os cinturões, sua obsessão no início de carreira.

Sonhava ter um e, na sua imaginação, só receberia tal recompensa quem fosse a melhor boxeadora de todas.

Hoje multicampeã e dona de diversos cinturões, seus olhos brilham por um outro objeto, que já ganhou até apelido: "Minha queridinha, a mãe de todas", a medalha olímpica.

Além do bordado na parede, outra coisa que chamou a atenção de quem está acostumado a ver Jucielen competir foi seu cabelo, com tranças. Ela garante que é algo passageiro, que gosta de mudar o visual quando tem tempo, mas que em Tóquio ela usará o já característico -e presente no desenho pendurado na parede- penteado black power.

"Eu gosto bastante de trança, mas eu prefiro mais o meu cabelo natural, vou [às Olimpíadas] com meu 'blackão' para cima que eu gosto muito", completa.

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